Finn Wolfhard amadurece em ótimo segundo disco

Finn Wolfhard – Fire From The Hip
35′, 12 faixas
(AWAL)
(4,5 / 5)
Finn Wolfhard tinha quatorze anos quando apareceu para o mundo como o Mike de “Stranger Things”. Em pouco tempo provou ser um dos destaques da série, antes mesmo dela se tornar um fenôomeno pop moderno. Pouco depois, lá estava ele no elenco de filmes como “It” e “Ghostbusters: Afterlife”. Mas a onda de Finn não era apenas a atuação. Com um histórico pregresso que remonta a participações em vários grupos na periferia de sua vizinhança natal, em Vancouver, Canadá, o sujeito gosta mesmo é de música. Ano passado ele debutou com um disco bacaninha chamado “Happy Birthday”, que chegou a estar separado aqui para resenha, mas que se perdeu no engarrafamento de lançamentos bacanas que ficam de fora do escrutínio do site por várias questões. Agora, menos de um ano depois, Finn volta à carga com um trabalho ainda mais interessante, que furou a fila de álbuns separados para resenha. “Fire From The Hip” mostra amadurecimento como compositor e cantor, além de um amor especial a sonoridades noventistas que costumam ficar no rodapé de páginas de artistas atuais, como Pavement e o powerpop daquela década. Se Finn antes parecia um Strokes de um homem só, agora ele vem mais diverso e abrangente, com aquele ingrediente crucial para nós – ótimas canções. Senão vejamos.
O bacana de “Fire From The Hip” é que ele é um disco totalmente identificado com essa sonoridade americana de guitarras dos anos 1990 meio deixada de lado. Enquanto muitos artistas centram fogo na produção pós-punk dos anos 1980, Finn mergulhou em ecos de bandas como Guided By Voices, Pavement e The Apples In Stereo, numa trilha em que o powerpop e o guitar mais largadão conversam, convivem e trocam figurinhas. É interessante porque o disco tem uma sonoridade de banda, com Finn na produção, guitarras e vocais, Ramsey Bell no baixo, Josh Resing na bateria e Rand Kelly na segunda guitarra, conferindo às canções um ar fresco e orgânico. Além dessas noventices bacanas, o disco também tem espaço para coisas mais, digamos, atuais, como, por exemplo, “Lights Go Down”, que tem uma pegada meio Mac DeMarco de se apropriar de elementos country. Aliás, o estilo é visitado em outra faixa, “Maggie”, mas dessa vez com uma pegada mais irreverente, enquanto desfila uma letra de agruras sentimentais provocadas pela dona do título da faixa. Finn mostra versatilidade em encarnar uma persona pós-moderninha à la Dylan, com graça e propriedade.
A produção, também a cargo dele, é bem equilibrada, deixando as canções seguirem os rumos sem forçação de barra. Os arranjos têm o bom gosto suficiente para mostrar um artista preocupado com detalhes e disposto a imprimir certa ousadia no que faz. Uma boa prova dessa preocupação está na ótima “Nice To Meet You Again”, que também vai por um caminho adjacente a esse flerte country, mas que pende mais para o lado pop. Em certa altura, a cerca de um minuto do fim, o arranjo muda completamente de abordagem, com uma sensível desaceleração de andamento e quase um recomeço, algo que soa extremamente legal e, vá lá, anti-comercial, em tempos tão algorítmicos. O resultado é adorável e dá fôlego para Finn, além de justificar o lado mais, digamos, artístico do álbum. Além dessa, algumas outras canções são realmente bacanas. “Good Morning” tem um piano meio beatle permeando a melodia, além de vocais de apoio entremeados, dando uma impressão meio preguiçosa intencional, como se fosse um despertar numa cabana nas montanhas ou algo assim.
O single “I’ll Let You Wait” mistura essa abordagem largadinha meio Pavement com um riff que, vá lá, tem uma dinâmica stoneana/glam, que dá uma boa ressonância à voz de Finn, que surge levemente tratada com filtro. Funciona bem e abre espaço para a canção seguinte, “Common Side Effects”, totalmente devedora dos melhores momentos powerpop do Guided By Voices e bandas similares na metade dos anos 1990. Aquela guitarrama melodiosa, porém meio punk, adornando melodia passível de cantoria em volta da fogueira com marshmellows assando. “Follow” é uma lindeza diferente, mais moderninha, parece algo que os Strokes poderiam ter feito em seus discos pouco badalados, enquanto “Tunnels”, o segundo single do álbum, volta as ações para essa veia powerpop descrita acima, ainda na órbita da banda de Robert Pollard. E a grande lindeza do disco, “Crater”, com teclados fazendo violinos, andamento que parece um Teenage Fanclub duplamente adolescente, vocais saturados e uma melodia circular que funciona lindamente. Com essa canção, Finn ganha o nosso absoluto respeito.
“Fire From The Hip” é disco de belezuras inesperadas, descomplicado e feito sob medida para ser ouvido enquanto a vida acontece. Não tem nada além do que se ouve, do que se vê. É apenas boa música, feita por um cara talentoso e gente boa, que tem ótimas intenções. Ouça e passe adiante.
Ouça primeiro: “Crater”, “Follow”, “Tunnels”, “I’ll Let You Wait”, “Nice To Meet You Again”, “Common Side Effects”, “Good Night”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
