A Copa em que me chamaram de racista
Em algum ponto da trajetória da seleção argentina no mata-mata da Copa, fui chamado de racista porque não combati a postura de alguns integrantes da torcida portenha, que fizeram gestos ofensivos para um influencer americano. Além disso, ao defender a raça e a paixão com que os hermanos jogavam seus jogos, fui chamado de vira-latas, portador de Sindrome de Estocolmo e detonado por minha postura em relação aos resultados. Mas, claro, este texto não é apenas sobre mim, um mero espectador do evento, mas sobre o evento em si. Tenho algumas teorias, algumas malucas, outras plausíveis, sobre o que aconteceu e o que não aconteceu durante esses quarenta dias de competição. Se o saldo em campo parece ter sido bom, com partidas memoráveis, fora dele, o que permanecerá me preocupa. Bastante.
A final, disputada entre Espanha e Argentina, com o placar de 1 x 0 que deu aos espanhóis seu segundo título mundial, foi, seguramente, um dos jogos mais chatos da Copa. Mais que isso, foi uma das finais mais chatas da história. Fica no mesmo nível de Brasil x Itália de 1994 e de Argentina x Alemanha de 1990. Jogo travado, com domínio ibérico que não se traduziu em gols no tempo normal. Mesmo com muito mais posse de bola, sufoco e domínio territorial, além de uma grande atuação do arqueiro argentino Dibu Martinez, a Espanha precisou de 106 minutos para marcar seu tento. O resultado foi justo, dado o domínio das ações e o acovardamento dos argentinos. A ideia do técnico Lionel Scaloni, certamente, era levar a partida para os pênaltis, contando com a manha de seus jogadores, especialmente Messi e o próprio Dibu. Mesmo assim, acho que poderiam – e deveriam – ter tentado mais. Afinal de contas, partidas anteriores, marcadas por superação de adversidades incríveis, conta Egito, Cabo Verde, Suíça e Inglaterra, credenciavam os hermanos para tentar o impossível mais uma vez. E a raça, que se traduziu na marca principal desse time, se perdeu na postura lamentável de dar as costas para a premiação dos campeões e pelas agressões desferidas por Leandro Paredes aos jogadores espanhóis, após o fim da partida. A seleção argentina, infelizmente, tem um histórico de situações truculentas e antidesportivas em seu currículo. Fecharam sem brilho sua participação ontem.
Essa foi a Copa de donald trump. A meu ver, é o grande vencedor, junto com a Espanha. Sua simples presença, pairando no ar sobre os acontecimentos, já era sentida meses antes, quando a fifa, transformada em lacaia absoluta de seu país, lhe conferiu um inacreditável Prêmio da Paz. Tanto que ninguém nem lembra que México e Canadá também sediaram partidas do torneio. Era a chancela para o início de uma sucessão de acontecimentos inadmissíveis, que desestabilizaram a neutralidade do torneio, interferiram na dinâmica dos jogos e da própria logística. Revistas ostensivas a jogadores e árbitros de “países inimigos dos estados unidos” contrastavam com privilégios e benesses dadas a “países amigos”. Impedimento de árbitros, prejuízo total à seleção iraniana, que precisou se instalar em Tijuana, no norte do México, para jogar suas partidas em Los Angeles, sendo proibida de permanecer mais que meia hora em território americano após o fim dos jogos, prejudicando sensivelmente seu desempenho. Além disso, a interferência direta de trump no pedido para anular o cartão vermelho dado ao atleta americano Balogun, com anuência da fifa, abre um precedente gravíssimo para o futuro. Isso sem falar nas modificações estruturais das partidas, outrora intocáveis por conta do patrulhamento da fifa. Basta lembrar as exigências que a instituição fez por aqui, em 2014, e comparar com a subserviência total de agora. É a fifa tchutchuca nos estados unidos e tigrona fora deles. Foi pausa de hidratação enfiada como meio de faturamento de bilhões nos intervalos, foi mudança no protocolo de entrada dos times em campo para assemelhar com os esportes locais, foi show musical no intervalo da final, um monte de exigências americanas com as quais a fifa concordou sem pestanejar. Dizem que o motivo é por conta do histórico de caça a diretores corruptos da entidade no passado recente, pelo FBI, colocados na cadeia e afastados. Faria sentido.
Mesmo assim foi a copa do Mbappé, que se tornou o maior artilheiro da história do torneio. Do Messi, que disputou seu sexto mundial, atuante, decisivo, provavelmente se aposentando ao final. Foi a copa das 48 seleções, num novo formato, que, ao contrário do que se esperava, acabou funcionando pelo nível das equipes participantes, mais alto do que se pensava. Basta lembrar da história de Cabo Verde, que terminou como a única seleção a tirar ponto da campeã do mundo, tento resistido a ela na estreia, num placar de 0 x 0 que consagraria o goleiro Vozinha. Além dele, foi a Copa das bravas seleções africanas, cada vez mais fortes e consistentes. Foi a Copa de Senegal, da Costa do Marfim, da incrível seleção de Marrocos e da imponente seleção do Egito. Foi, sim, a Copa de Cabo Verde, da República Democrática do Congo, da Argélia, da África do Sul. Foi a Copa das torcidas, como a da Noruega, que simulou remadas vikings, seguida pelos jogadores ao fim dos jogos vencidos. E foi esta seleção, pelos pés de seu maior ídolo, Haaland, que eliminou a pífia equipe brasileira, com razão, numa partida que, espero, tenha significado o fim da vampiresca “era neymar”, sinônimo de derrotas sucessivas para o Brasil, bem como de seu absoluto apequenamento no cenário mundial. Nem o badalado técnico italiano Carlo Ancelotti salvou a cbf do desastre. Ao preço de 5 milhões mensais, “Carletto” não conseguiu disfarçar a imensa e imperdoável falta de criatividade e a bagunça desportiva-administrativa que marca a entidade máxima do futebol do Brasil há tempos. Nem vamos perder tempo falando disso.
Mas uma situação, reflexo direto da passagem do Brasil pela Copa, merece nossa atenção. O comportamento de imprensa e torcida a partir disso. A percepção do evento já nasceu viciada por aqui. Enquanto poucos se davam conta da fragilidade do time brasileiro, um ufanismo impressionante foi criado em torno da presença de neymar no time. Ignorou-se de forma temerária a sua atual condição física, fruto direto de uma carreira marcada pelo pouco cuidado com o corpo. O resultado veio agora – um atleta com 34 anos, incapaz de competir. Ao contrário de gente como Cristiano Ronaldo e Luka Modric, além dos 40 anos, e do próprio Messi, aos 39. Com o fracasso iminente do time brasileiro, ocorrido após a derrota para a Noruega, nas oitavas de final, a torcida, sem ter o que fazer, o que pensar, se transformou num público amorfo. A mídia – e essa é uma teoria pessoal, podem ou não discordar – se voltou para a habitual “seca” aos rivais mais diretos, sentimento ampliado por uma nítida inveja do comportamento de superação dos argentinos diante da apatia milionária dos nossos atletas. Diante dos sucessivos triunfos argentinos, da presença de Messi e dessa postura aguerrida da seleção portenha, a torcida brasileira moveu-se para o “modo secagem”. Só que essa condição, pertencente ao futebol, especialmente entre rivais, ultrapassou os limites. Tornou-se “verdade absoluta” o ódio aos argentinos, num sentimento que, muitas vezes, extrapolava as quatro linhas. Quem discordava do pensamento de manada, de ódio irrestritos ao país e aos atletas, era, automaticamente, colocado numa postura de conivência com que pode haver de pior.
Vamos voltar, então, ao racismo. Várias teorias foram colocadas para “explicar” o racismo “da torcida” argentina. Coloco aspas porque, não dá pra explicar isso sem o olhar historiográfico e contextualizante, algo que, no calor dos acontecimentos, não ocorreria. E não dá pra afirmar que todo argentino que vai ao estádio é racista. Em que pese o número alto de situações em que esse comportamento é notado entre eles, há a certeza de que isso não é uma unanimidade entre a maioria dos hermanos. É apenas – e tristemente – mais um lugar do mundo em que o racismo existe. Será que a mídia brasileira, a mesma que apoiou o neymar, a cbf e omitiu-se de criticar o que realmente deveria ser apontado, não voltou suas baterias para realçar o racismo de alguns miseráveis torcedores argentinos? Sendo assim, como fazer com as ocorrências de racismo nos próprios estados unidos? E na Espanha, na qual torcedores de times rivais atiram cascas de banana para Vinicius Jr? E em países pouco cotados como Croácia, Sérvia, Montenegro, onde há episódios de racismo explícito? E, claro, como deixar passar episódios com os próprios jogadores argentinos, que cantaram um inacreditável cântico ofensivo para os atletas franceses no passado recente? Por que a fifa não pune exemplarmente essas situações? Esse é o questionamento que deveria ficar. Sobre a torcida e a mídia nacionais, confesso que nunca vi tal postura. Em todos os tempos, em todas as Copas, as quais acompanho com interesse, desde 1978. Achei tudo lamentável e terminei com uma baita ressaca. Lembro da mulher na fila das Lojas Americanas, em Icaraí, onde moro, defendendo a torcida incondicional pela Espanha “porque os espanhóis são mais civilizados e os argentinos são todos racistas”. Cansa, viu?
Agora acabam os jogos, a vida continua. Volta, felizmente, o Flamengo e o Brasileirão. É a nossa casa. Não significa que somos pequenos, pelo contrário, mas precisamos ser mais inteligentes e atentos. E acreditar menos no que dizem pessoas com microfones na mão. E, acima de tudo, exercitar o bom senso, algo em falta no mercado, em campo, nas casas, nas mentes.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
