Novo disco de Jack White é bacana, mas … sei lá

Jack White – Frozen Charlotte
43′, 13 faixas
(Third Man)
(4 / 5)
Este novo álbum de Jack White poderia ser absolutamente sensacional. A figura do guitarrista e vocalista de Detroit segue como uma espécie de totem-lembrete de que o rock, como costumava ser em algum ponto idealizado dos anos 1970, ainda pode significar uma fonte inesgotável de calor, força e abrasão. White, cheio de estilo e construção de personagem, segue com sua arquitetura minimalista de riffs crocantes, vocais saturados de filtro e postura rocker-elegante, gerando álbuns aqui e ali. Alguns são fracos, como, por exemplo, “Lazaretto” (2014) e “Boarding House Reach” (2018), outros são bacanas, como “No Name” (2024) e, se lembrarmos de outros tempos, quando White era o cérebro pensante do White Stripes, fazendo obras como “De Stijl” (1999) ou “White Blood Cells” (2002), aí a coisa esquenta de vez. Porém, sempre que ouço algo feito por ele, fica a impressão de que falta alguma coisa. Com este bom “Frozen Charlotte” não foi diferente. Tem bons riffs, tem algumas canções bacanas, a produção – do próprio White – é esperta e joga a favor das faixas, mas, ao fim dos quarenta e poucos minutos de disco, ficou a sensação de que ouvi algo descartável e com pouca duração. Será impressão? Não sei. Vamos descobrir juntos.
A carreira solo de White, e, pensando bem, os tempos de White Stripes também, sempre me deixaram com a pulga atrás da orelha. Será que há mais estilo, mais caras, bocas, imagem, do que música em si? Em que pese a absoluta fissura por blues primitivos, influência nítida de Led Zeppelin na construção de riffs e uma atitude que parte do rock de garagem e termina num brechó estilístico, Jack White tem alguns pontos inegavelmente controversos. Essa questão do personagem me parece o principal. Eu não consigo simplesmente ouvir suas canções, ver seus clipes e shows, e acreditar completamente no que está ali. Claro, sabemos bem que showbiz é atuação, palco, teatro, marketing, tudo junto, mas, no caso de White, também faz parte do jogo essa atitude de, solenemente, ignorar tudo isso e assumir uma identidade “autêntica”, “confiável”, talvez incorruptível, que sustente suas canções e discos, meio que justificando-os. Também fico me perguntando se, pleno 2026, é preciso tanta persuasão para “confiar” na obra de algum artista, mas, White surge desde o início de sua carreira, com aspirações de ser um artista longe do banal. É consenso admitir que ele foi bem sucedido nisso. Até porque, subir num palco, empunhando uma guitarra distorcida, secundado por uma banda encrespada e enfileirar blues rocks garagistas em um tempo como o nosso, exige esse, digamos, “além-palco confiável”. Ou, vá lá, tudo isso pode ser teoria da conspiração disfarçada de ceticismo. Mas, quase trinta anos depois de White surgir com Meg White, ainda me pergunto essas coisas.
Bem, vamos ao álbum. “Frozen Charlotte” não se diferencia de outros trabalhos de White. E nem era pra ser diferente. O que varia, salvo algumas exceções bem raras na trajetória dele, é o tema das canções. As letras falam de traições, maldições, mulheres, relacionamentos que acabaram mal, tudo dentro dessa mesma tradição blues que ele ostenta e, vá, lá, defende. A capa traz uma boneca que leva o nome de “frozen charlotte” dentro da tradição folclórica do século XIX e faz parte de uma exposição com peças criadas pelo artista, numa galeria chique, a Newport Street Gallery, em Londres, que dá, digamos, um chantilly artístico à empreitada. O que conta ponto, como você, que nos lê por aqui, já sabe, são as canções. E, neste quesito básico, White tem a manha. Suas composições são bem feitas, convincentes e orientadas para o terreno entre a contemplação e alguma dança. Um bom caso é o single “GOD And The Broken Ribs”, no qual sua guitarra soa perfeita e intencionalmente estridente no meio da levada básica de baixo e bateria, com destaque para sua voz, no limite entre o canto e uma espécie de apresentação de intenções. Há espaço para solo, levadas, tudo no seu devido lugar. E essa faixa abre os trabalhos.
Ao longo das treze canções do álbum, White acerta o alvo em várias. Em “There’s Nobody There”, ele recria uma levada que oscila entre o Led Zeppelin mais blues e algo que poderia ser dos anos 1990 de um, veja só, Rage Against The Machine. Funciona. Em “Raising The Grain”, talvez nossa preferida do álbum, ele vai construindo um crescendo de tensão, que mais parece a contenção de um fenômeno da natureza, ou algo assim, para soltar aos poucos em forma de riffs curtos e grossos, numa ambiência funk rock bacana. Em “I Can’t Believe What I’m Hearing”, novamente a construção da faixa é sensacional, com vocais saturados, que parecem afundados na lama, enquanto guitarra, baixo e bateria lutam para sair do chão. “Thick As Thieves” é mais setentista, com fraseados de guitarra mais próximos do hard rock mais clássico, enquanto “She’s In A Frenzy” aposta mais na velocidade do riff e do andamento para transmitir essa sensação de estar ouvindo um “rock autêntico”. Em “Making Contact”, novamente White vai construindo um crescendo que vai engolfando o ouvinte com um riff mamútico que vem na nossa direção. Os vocais agudos conduzem um andamento também mais setentista, que lembra de leve “Love Ain’t No Stranger”, do Whitesnake. Por fim, “Neighbors Blues” é bacana, fecha o disco com um timbre mais agudo de guitarra que vai pontuando uma levada marcial.
Jack White oferece essa sensação de autenticidade rock que parece em falta. Longe da imagem banalizada, ele oferece uma “imagem que não liga pra imagem” num quebra-cabeças que só encanta quem fica prestando atenção demais em algo que não seja só a música. Neste terreno, o musical, White segue firme, forte e, vá lá, necessário.
Ouça primeiro: “GOD And The Broken Bones”, “There’s Nobody There”, “Raising The Grain”, “I Can’t Believe What I’m Hearing”, “Thick As Thieves”, “She’s In Frenzy”, “Making Contact”, “Neighbors Blues”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
