As lives patrocinadas

 

 

Desde o início da pandemia, o cantor e compositor carioca Leoni tem transmitido suas lives. Já foram quatro até agora, nas quais ele conversa com os fãs que o estão assistindo e enfrenta problemas com o som – geralmente consertados no ar pelo filho Antônio, que o acompanha. Leoni pega o setlist em seu celular e admite que algumas letras ele esquece ou que já não canta tal música há muito tempo. Conta histórias sobre como cada canção foi composta e se apresenta de camiseta e bermuda, sentado no sofá de sua casa. Sua esposa, a atriz Luciana Fregolente, às vezes aparece para contar alguma história e, sempre no fim dos eventos, ela grita um “fora Bolsonaro!”, endossada pelo marido.

 

Roberto Carlos, o artista mais popular do Brasil durante muito tempo, também fez uma raríssima aparição via “live” no Youtube. Por mais de uma hora, o Rei cantou onze sucessos, acompanhado por dois tecladistas e, no fim da apresentação, soprou velinhas por conta de seu 79º aniversário. Quem conhece a carreira e a trajetória de RC, sabe que ele não é figurinha fácil neste tipo de situação e, para alguém com vários TOCs, pareceu à vontade. A superprodução musical, que tem caracterizado suas aparições há décadas, foi abandonada em favor de um cenário simples, no qual a intimidade e a simplicidade eram as instâncias a serem levadas em conta.

 

As coisas, no entanto, estão mudando rápido.

 

Ao menos cinco lives de artistas brasileiros foram transmitidas pelo Youtube ontem: Pato Fu, Oswaldo Montenegro, Raça Negra, Sandy & Junior e Nando Reis. Seguem abaixo os seus números, conferidos na manhã do dia 22 de abril:

 

Pato Fu: 134 mil visualizações – Circuito Sesc SP

Oswaldo Montenegro: 545 mil visualizações – doações ao Programa Supera-DF, do Banco de Brasília

Raça Negra: 13 milhões visualizações – patrocínio da Brahma, Sesc, FM O Dia, AME Digital – doações via QR Code da Loja Raça Negra (comprou, doou)

Sandy e Júnior: 18 milhões de visualizações – patrocínio de ELO e Casas Bahia – doações via QR Code

Nando Reis: 3 milhões de visualizações – patrocínio do Banco de Brasília – doações via QR Code

 

É fato: as lives passam por uma mutação significativa em tempos de pandemia. Se transformam diariamente em um formato que aproxima o artista de seu público, o que é sempre ótimo, mas também adquiriu potencial econômico. Se antes o evento era uma rara oportunidade de ver bandas, cantores e cantoras em situações de intimidade e simplicidade, se valendo disso para mostrar uma nova faceta de sua arte, agora elas estão procurando reproduzir ao máximo uma dinâmica vista em shows ao vivo ou em clipes. Recursos técnicos, efeitos, produção, tudo está valendo para tornar a live algo que tem a ver com a indústria do entretenimento, deixando de fora tudo o que tinha a ver com a … live.

 

As lives mencionadas aqui são bem diferentes entre si. A do Patu Fu, grupo mineiro surgido nos anos 1990, foi transmitida pelo Circuito Sesc, que é uma iniciativa visando manter ativo o circuito de shows da instituição comercial. A simplicidade está na pauta, tanto que a live do Pato Fu trouxe Fernanda Takai e John Ulhoa apenas com um violão, gravando na cozinha de sua casa. Ali eles tocaram vários sucessos, conversaram com o público e levaram em conta a natureza da própria live, ou melhor, que a live costumava ter. Das cinco mencionadas no texto, é a única que segue o formato original.

 

Oswaldo Montenegro, veterano cantor e compositor carioca, surgido em Brasília, também se apresentou em uma versão mais ou menos parecida com o habitual. Só com seu violão, ele cantou várias músicas de seu repertório, mas a cenografia já o mostrava “produzido” para o evento, sentado num “palco”, no qual ele se apresentou. Já é a reprodução de um formato de clipe/show, mesmo formato que Nando Reis emulou em sua live. O ex-Titãs apareceu, provavelmente num ambiente de sua casa, acompanhado também de seu violão, tocando sucessos de sua carreira e dando mensagens importantes sobre os cuidados que devemos ter na pandemia. Ambos fizeram suas apresentações sob o patrocínio do Banco de Brasília – BRB. Oswaldo trazia o QR Code do Programa Supera-DF, uma iniciativa da instituição, visando a concessão de empréstimos a juros supostamente menores, ao passo que Nando trazia o QR Code do próprio banco. Ou seja, a instituição financeira receberia a doação em nome dos artistas, dada pelo público, e ainda os remuneraria pelas lives.

 

Sandy & Jr e Raça Negra fizeram suas apresentações mais próximas do triste padrão que as lives dos artistas sertanejos estabeleceram. Bruno e Marrone, Gustavo Lima, Marilia Mendonça, entre outros, já transmitiram lives em que surgiram ostentando vários patrocínios – de marca de arroz a marca de cerveja – e protagonizando espetáculos de mau gosto, que confirmaram o raso de sua existência “artística”. Sandy & Jr surgiram com os banners da empresa de cartões ELO e das Casas Bahia, munidos de QR Codes, reproduzindo seus sucessos com produção que poderia sustentar uma versão menor dos Acústicos MTV. O Raça Negra, por sua vez, reproduziu a “naturalidade” dos eventos sertanejos, com o vocalista Luis Carlos – sozinho – cantando e bebendo sob vários patrocínios, sendo o da cerveja Brahma o mais destacado deles. Com câmeras em drones, vários takes e efeitos, além dos músicos “escondidos”, o vocalista ficou nitidamente embriagado ao longo das mais de três horas de transmissão. Parecia uma apresentação em playback, mal feita e abusiva.

Se há alguma justificativa para a existência das lives era, justamente, a sinceridade que elas podem significar. A “exposição” do artista, mecanismo que sempre fascinou o fã, era seu trunfo. Poder vislumbrar o momento em que o artista “se iguala” ao ser humano comum, se despe de efeitos e produções que o tornam “sobre-humano”, num momento de espontaneidade, imprevisibilidade, mais ou menos o que acontece com o cabo do microfone do Leoni, que seu filho precisa consertar diante das câmeras, sem que o sinal da Internet caia. O drone do Raça Negra não é exatamente a tradução deste momento de igualdade entre as duas pontas da transmissão.

 

A pergunta que fica é: as lives superproduzidas e bancadas são válidas? Eu acredito que sim, mas elas são um novíssimo tipo de veiculação do artista junto a seu público, no qual a grana está envolvida inapelavelmente. Há quem defenda a necessidade do artista faturar, o que é um ponto muito válido, especialmente em tempos de restrição de público. A questão é tentar entender o que vai acontecer com as lives “à moda antiga”. Deixarão de existir? Também serão remuneradas? E quando a pandemia passar e a justificativa para as atuais “superlives” acabar? O que vai motivar os artistas a fazer espetáculos superproduzidos em casa?

 

E a pergunta final: como saber exatamente os valores arrecadados em QR Codes? Há alguma forma de conferir o êxito destes eventos? E as visualizações do Youtube? Ficam com os artistas? Se forem aos milhões, como as de Raça Negra e Sandy & Jr, por que pedir doações e não doar do próprio bolso?

 

Estas são questões necessárias para entender o que estamos vivendo e como a indústria do entretenimento pode – ou não – se adaptar às circunstâncias. Espero que os estudiosos estejam anotando tudo.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “As lives patrocinadas

  • 23 de abril de 2020 em 23:11
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    Tirando os patrocínios e publicidades, a live de Sandy e Junior se aproximou bem dos formatos originais, mais despojados, com improvisações e vários momentos que acreditei serem espontâneos e genuínos. Estavam numa espécie de quarto pequeno, só com 2 câmeras e com o pai atuando como roadie e atendendo a pedidos dos fãs. Gostei. Agora, se soubesse da live do Pato Fu, teria corrido pra lá!

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  • 22 de abril de 2020 em 11:02
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    Há tempos a indústria fonográfica dá bola fora e cabeçadas tentando evitar o inevitável. Agora a pandemia atingiu os espetáculos.
    Eu tenho ficado com as lives honestas e simplistas do Rodrigo Suricato e Rodrigo Santos.
    Ontem teve a Plebe Rude em trio; foi legal e elétrica.
    Sigamos…

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