Adele ensaia algumas mudanças em novo álbum

 

 

Adele – 30

Duração: 58:18min
Faixas: 12
Produção: Greg Kurstin, Max Martin, Shellback, Tobias Jesso Jr, Inflo e Ludwig Göransson.
Gravadora: Universal

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

 

 

Com o lançamento deste “30”, Adele tem quatro álbuns de canções inéditas e um gravado ao vivo, “Live At Royal Albert Hall”, lançado em 2011. É uma carreira ainda pequena, mas bastante expressiva, especialmente pelo fato de que a cantora e compositora inglesa é, provavelmente, uma das maiores artistas do planeta hoje em dia. Ela responde por uma tradição de cantoras românticas e intensas, uma espécie que já habitou o planeta em abundância, mas que desapareceu à medida em que o cotidiano e o próprio neoliberalismo foram reduzindo o amor e os sentimentos a meras fraquezas pessoais num mundo em que aparências, consumo e falsa sensação de plenitude individual são os signos que correspondem a ser bem sucedido/a. Sendo assim, como lidar com a vulnerabilidade, a intensidade e a comunhão que são próprias do amor e da vida a dois? Pois é. Mas Adele é muito esperta e talentosa, encontrando meios para manter interessante e vendável a sua proposta. Agora, com “30”, ela envereda por um caminho levemente derivado e registra impressões de seu recente divórcio. Sim, este é um disco de rompimento e radiografias sentimentais, o que confere uma nova camada de sentido à obra da cantora. Vejamos.

 

Em primeiro lugar, é bom que se diga: “30” é um disco longo demais para este tipo de canção. Ao longo das faixas, há algumas variações sobre o que se entende por “balada romântica” – e elas são ótimas – mas, em geral, os arranjos não vão muito além do que se espera. O que é realmente bacana por aqui é a capacidade de Adele mostrar-se forte como uma mulher recém-divorciada, a ponto de refletir sobre o acontecido mais como um motivo de alívio e estímulo para dar seus passos com mais personalidade, do que ficar lamentando a perda de um suposto amor em meio aos acasos da vida. Neste ponto, “30” soa fresco e promissor, algo que sempre é bacana em se tratando de artistas tão conceituados no mercado da música pop atual. Com a participação de um time de produtores, no qual se destaca o parceiro constante, Greg Kurstin, o álbum mantém a unidade estética habitual, mas exige do ouvinte uma atenção especial ao que Adele realmente quer dizer.

 

As tais variações sobre o instrumental que marca os álbuns da cantora se materializam em formas interessantes. Há samples de diálogos de filmes clássicos de Hollywood dos anos 1940 e 1950 ao longo do álbum, pontuando algumas canções e o resultado é ótimo, por exemplo, em “My Little Love”, cujo arranjo é elegantíssimo e lembra algo que Tracey Thorn poderia cantar à frente do Everything But The Girl em algum single de 1988/89. Outra lindeza é “Cry Your Heart Out”, uma pop song dourada que parece feita a partir de algum arquivo recém-encontrado na Motown. A voz de Adele está ótima, o arranjo é eloquente e econômico ao mesmo tempo, preservando aquele tom clássico de r&b tradicional com precisão. E tem “All Night Parking”, com sample ostensivo do piano de Erroll Garner, a ponto de creditá-lo na composição da canção.

 

Outras faixas são interessantes, mas mantém a tradição de discos anteriores, caso, por exemplo, de “Easy On Me”, o single que anunciou a chegada do álbum. Ele e “I Drink Wine” respondem por uma arte de fazer baladas pianísticas que remonta ao talento de Elton John e Paul McCartney, mas que foi meio burocratizado ao longo do tempo. “Oh My God” é outra que joga no time das inovações, lembrando algo que poderia ser lançado por Natalie Imbruglia, lá pela virada do milênio e o trio de faixas que encerra o álbum, todas acima de seis minutos – “Hold On”, “To Be Loved” e “Love Is A Game” – reforçam a temática de “30”, de ser um trabalho sobre a capacidade de superação das circunstâncias acima de tudo. A última é a mais interessante do trio, com um arranjo que vai aumentando de intensidade e insere alguns elementos em midtempo que fazem a diferença.

 

Torço por um trabalho em que Adele consiga escapar do estereótipo que abraçou com tanta força. Ela é mais do que uma cantora apenas romântica – há talento para ir além e, com o tempo, talvez ela esteja enxergando isso com mais nitidez. Por enquanto, “30” está mais para um disco de continuidade do que para um trabalho inovador. Talvez, no máximo, um discreto álbum de transição.

 

Ouça primeiro: “My Little Love”, “Cry Your Heart Out”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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