Gang Of Four ao vivo em Melbourne

 

 

É provável que a Célula Pop seja o único veículo nacional a dar uma resenha de show do Gang Of Four. Lembra aquela seção ao vivo da Bizz, quando Pepe Escobar trazia relatos de apresentações de James Brown em Roma e coisas no gênero. Aqui, nosso intrépido, porém questionável, Osório Coelho diz como foi sua experiência de estar diante do palco no qual estava Andy Gill, guitarrista e arquiteto sonoro do Gang Of Four, grupo pós-punk britânico que influenciou todo mundo a partir de 1977. Veja como foi.

 

 

Gang Of Four, The Croxton Bandroom, 09 de novembro de 2019, Melbourne, Austrália

 

Com 30 minutos de atraso as luzes se apagam e um senhor de 63 anos e cabelos prateados entra no palco sob imensa ovação. Ele agarra sua guitarra e uma chuva de microfonias invade o ambiente com o início de “Love Like Anthrax”. A batida marcial reverbera e ele joga sua guitarra no chão. Uma, duas, três vezes. Mais microfonia, e Andy Gill, o fundador da seminal banda Gang of Four está pronto não para um show: para uma declaração (Nota: eu acho que a palavra “statement”, que é declaração em inglês, expressa de uma forma mais contundente o que eu presenciei aqui no Croxton, em Melbourne).

 

Minha relação com o Gang of Four data dos anos 80, década em que era bastante complicado escutar qualquer música um pouco for a do esquemão radiofônico da época. E era meio desesperador, já que a leitura das revistas que começaram a aparecer no período – especialmente a saudosa Bizz! – sempre mencionaram a banda como um dos grandes expoentes do pós-punk inglês. Então se não fosse a boa vontade do amigo do amigo do filho do amigo do colega da escola que viajou para o exterior e trouxe o disco, era virtualmente impossível conhecer a banda (e diversas outras) em Brasília nos anos 80.

Contudo, eu tive sorte, talvez por ter um grupo de amigos que sempre se interessou por música e que sempre conseguiu botar a mão em discos de bandas alternativas. No caso do Gang of Four, porém, com um tempero inusitado: a banda tinha um certo groove, não aquele de fazer bonito em uma pista de dança em uma festa disco, mas era de uma forma esquisita, diferente. O vocal seguia o padrão pós-punk inglês, com pouca firula e muitas letras com um fundo político, afinal eram os anos Thatcher. Mas a guitarra…ali estava o segredo do groove, com as palhetadas desse senhor de cabelos prateados e rosto que não esboça um sorriso sequer durante o
show.

 

Era a comemoração de 40 anos do Entertainment!, o disco mais importante da carreira da banda e, posso cravar aqui, um dos grandes álbuns da história do rock mundial. Se olharem nas listas de melhores discos, ele sempre vai ser mencionado em uma posição dentro dos top 100. Não acredite na seriedade de uma lista que não o citar. Após o início já caótico, a banda tocou o disco inteiro, apesar de não seguir a sequência original das faixas. O público, composto na sua maioria de pessoas de meia-idade, dançava – naquele jeito australiano – e se entupia de cerveja, até que logo na segunda música surge a primeira comoção , com “Return the Gift”. Foi a senha para esse público relembrar os tempos de adolescência com uma roda de pogo ao meu lado. Por várias vezes quase fui sugado para dentro – eles literalmente AGARRAVAM as pessoas ao lado para participar -, mas consegui me livrar.

 

Com um pouco de medo, confesso. Andy Gill mantinha o nível de adrenalina alto com seus riffs rascantes e mostrando que seus 63 anos não fazem a menor diferença. Ele extraía da sua guitarra petardos que misturavam groove com o som do giz no quadro negro, aquela coisa que faz a banda ser tão poderosa. E soar incômoda e brilhante ao mesmo tempo. Eles enfileriaram “Paralysed” , “Not Great Men” e com “Damaged Gods” o caos se estabeleceu definitivamente. Nos momentos em que as pessoas – incluindo eu – conseguiam respirar, todos cantavam alto. Ou melhor, gritavam.

 

Com “I Found That Essence Rare” a banda terminou a primeira parte do show, toda dedicada a “Entertaiment!”. Foram ao backstage dar uma respirada e retornaram para um apanhado de músicas de outros álbuns. O ponto alto foi o vocalista ter destruído na base da porretada um microondas durante “He’d Send in the Army”. Ao final do show, eu destruído pelas pancadas do público e dos riffs, ainda consegui pular com “To Hell With Poverty”.Liderados por Andy Gill, os integrantes da banda agradecem e não retornam mais. Só lamentei não ter escutado “Man in Uniform”. Depois fiquei sabendo que o microondas – ou o que restou dele – estava sendo vendido a 55 dólares no final do show.

 

Feliz, suado, com os tímpanos danificados voltei caminhando para casa e pensando quão incrível é escutar uma banda que fez de sua carreira um palanque para questões políticas importantes sem soar datada (nem com a música e muito menos com o discurso).

 

Setlist

 

Love Like Anthrax
Return the Gift
Not Great Men
5.45
Paralysed
Glass
Natural’s Not In It
Damaged Goods
Guns Before Butter
At Home He’s a Tourist
Ether
I Found That Essence Rare
Why Theory?
Isle of Dogs
I Parade Myself
Toreador
What We All Want
He’d Send in the Army
To Hell With Poverty

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Osório Coelho

Osório Coelho é servidor público federal licenciado, doutorando em ciências sociais, vascaíno, DJ amador, fã de black music e acredita em uma revolução socialista.

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