“A Vida Invisível” é um soco no peito

 

 

Mesmo que pareça evidente, é sempre bom explicar: o título da matéria é altamente elogioso. O filme de Karim Aïnouz é uma ode às sutilezas, um trabalho extremamente bem feito e delicado, sob todos os pontos de vista e possibilidades. Dito isso, talvez seja necessário esclarecer mais um detalhe: “A Vida Invisível” é um filme extrema e duramente triste. É um relato da opressão naturalizada pela qual mulheres passaram e passam na vida da família brasileira. Na nossa família. Possivelmente dentro das nossas casas, parentes nossos protagonizaram situações semelhantes às que vemos na tela.

 

O longa é inspirado num livro chamado “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha e fala da relação entre duas irmãs, Guida e Eurídice, que vivem num lar de classe média-baixa do Rio de Janeiro do início da década de 1950. Filhas de pais portugueses, as duas são bem diferentes: Guida é mais feliz e espontânea, enquanto Eurídice é contida e treina para ser pianista profissional. A irmã está apaixonada por um marinheiro grego e, sem aviso prévio, decide fugir com ele. A família, mais precisamente, o pai, que é o chefe absoluto de tudo, não a perdoa e tal decisão irá afastar as duas irmãs. Eurídice, por sua vez, se casa com Antenor, conhecido da família, mesmo que não pareça haver amor suficiente em sua relação.

 

A partir daí, tem início um drama de proporções inimagináveis, mas que cabe na palma da nossa mão, justo por conta da familiaridade que as situações vão suscitando. A violência é muito presente, mas ela assume a forma de um elemento da paisagem da narrativa, inserida no campo das naturalidades, do cotidiano, do “a vida é assim mesmo”, gerando no espectador uma sensação de impotência e triste/inevitável perplexidade. O desfecho é quase anunciado e, ainda assim, sua revelação tem o impacto de uma bomba atômica sem som. Dentro no nosso peito. O longa já venceu o prêmio A Certain Regard, no Festival de Cannes deste ano, além do Prêmio Independent Spirit de Melhor Filme Estrangeiro.

 

As atuações de Julia Stockler (Guida) e Carol Duarte (Eurídice) são impressionantes. O sentimento, os olhares, até mesmo o tom de voz que ambas conferem a suas personagens é algo de outro mundo. A presença de Gregório Duvivier, como Antenor, é surpreendente. Acostumado à comédia, o ator carioca empresta um ar de baixeza ao personagem que beira o caricato, algo muito mais complexo do que parece. E Fernanda Montenegro, nos dez minutos que aparece em tela, nos dá a impressão de que chegou a um ponto em que, simplesmente, não consegue deixar de atuar. Ela age tom tal naturalidade em cena que será impossível para o espectador ignorar o tamanho de sua presença. Nem dá pra acreditar que esta senhora foi agredida recentemente pelo encerregado governamental da Cultura.

 

Além das atuações, é preciso destacar a beleza que “A Vida Invisível” traz em sua fotografia (a cargo de Helene Douvart) e direção de arte, creditada a Rodrigo Martirena. É evocado um Rio de Janeiro impressionista, escuro, antigo, ainda que o tempo cronológico ouse dizer o contrário. É um equivalente visual do choque entre a modernidade chegando e a tradição resistindo, algo muito sério e complexo.

 

“A Vida Invisível” pode ser o representante brasileiro no Oscar. Se o outro grande filme nacional do ano – “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho – foi um golpe sanguinolento no estômago do público, esta obra de Karim Aïnouz é consegue desferir um soco sem dó na alma do espectador.

 

 

 

“A Vida Invisível”
Brasil, 2019
De: Karim Aïnouz
Com: Julia Stockler, Carol Duarte, Fernanda Montenegro, Gregório Duvivier

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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