O problema em biografar os Rolling Stones

Aquele psicopata que preside a Argentina e eu temos pelo menos duas coisas em comum: gostamos de cachorros e gostamos dos Stones.
Não lembro quando percebi que gostava de Jagger, Richards e sua trupe, mas chutaria que foi ainda por causa dos anúncios dos shows da Voodoo Lounge Tour no Brasil, bastaram os segundos iniciais de Start Me Up. Achava o máximo!
Uns anos depois, chegada à adolescência, aquela melodia envolvente chupinhada da k.d. lang e a Angelina Jolie novinha e belíssima no clipe de Anybody Seen My Baby?, meus hormônios dando sinais de vida na pele e em outras partes do corpo… Eu definitivamente gostava dos Stones!
Depois veio a época de comprar discos com o troco da passagem; depois, a vida adulta e todo o restante… Aquele show em 2006, que eu vi na praia, com a banda a uns dois quilômetros de distância.
Levou um tempo, mas em algum momento cheguei a ter tudo da banda, pelo menos todos os discos de estúdio, alguns em vinil, outros em CD, mas tudo. Isso até Hackney Diamonds e Foreign Tongues: esses eu não tenho, pelo menos não ainda.
No fim de 2014, eu acho, ganhei o que seria a biografia definitiva escrita por Christopher Sanford. Talvez exista até uma foto desse dia: eu e meus companheiros de trabalho da época em frente a um restaurante no Flamengo, logo depois de um almoço de confraternização de fim de ano, o livro nas minhas mãos como um troféu, presente de amigo oculto — eu odeio amigo oculto, evito participar, mas quem me tirou acertou em cheio naquele dia.
Enfim, pedras rolaram, mais de uma década se passou, muita coisa aconteceu — o restaurante da foto fechou, meu pai morreu, eu me casei com alguém que conheci uns três anos depois de ler o livro — e muita coisa também aconteceu com os Stones. Tanto que Sanford considerou necessário atualizar sua biografia definitiva.
No último dia 11, um dia depois do lançamento de Foreign Tongues, justamente no dia em que ouvi o disco, The Rolling Stones, 60 anos: edição completa e atualizada (Editora Record, 2026) chegou por aqui por cortesia da assessoria.
Escrevo brevemente sobre ela abaixo:
É possível, talvez até muito provável, que Jagger estivesse falando sério quando, aos vinte e poucos anos, disse que preferiria estar morto a ter de cantar Satisfaction aos quarenta e cinco. Mas os quarenta e cinco chegaram, quase quarenta anos se passaram e Jagger ainda está por aí, cantando Satisfaction, lançando discos e mantendo as pedras montanha abaixo. Para a alegria de seus biógrafos, como o jornalista Christopher Sanford.
O ano era 2012 quando Sanford lançou a biografia que se propunha definitiva sobre a banda. Afinal, o que mais a história poderia reservar para o pequeno bando? Eis que vieram:
* turnê dos 50 anos, ainda em 2012;
* suicídio de L’Wren Scott, companheira de Jagger, em 2014;
* morte do saxofonista Bobby Keys, o “sexto membro”, em 2014;
* lançamento de Blue & Lonesome (2016), disco de covers de blues espinafrado por Greil Marcus: “Exceto por Jagger, todos soam entediados”;
* morte de Anita Pallenberg, em 2017;
* turnê entre 2018 e 2019;
* morte de Charlie Watts, em 2021.
Em The Rolling Stones, 60 Anos: edição revista e atualizada (Editora Record, 2026), Sanford permanece fiel ao texto original e acrescenta apenas um pequeno capítulo, “O Pós”, com dezesseis páginas dedicadas a esses acontecimentos. O resultado destoa da pesquisa minuciosa do restante da obra e funciona mais como um apêndice.
O livro termina em 2021, com o autor dizendo ser “tentador apostar que eles vão durar mais alguns anos”.
De lá para cá vieram mais dois discos de inéditas — Hackney Diamonds, em 2023, e Foreign Tongues, lançado em 10 de julho. Não parece impossível que uma edição dos 70 anos venha a se tornar necessária por volta de 2032. Resta saber se o biógrafo, como seu objeto de estudo, ainda estará vivo e produtivo.
De Jagger e Richards, acompanhados ou não por Ron Wood, eu também não duvidaria.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
