A Morte de Mark Hollis e a Importância do Talk Talk

Recebemos ontem a notícia do falecimento do cantor e compositor inglês Mark Hollis, líder da banda inglesa Talk Talk. Mas, sem o infame trocadilho, de quem estamos falando? Uma visão realista das paradas de sucesso e das vendas – parâmetros usuais para aferição de êxito de um artista – nos dirá que Talk Talk praticamente não existiu. Fora o hit “It’s My Life”, que ficou no topo das paradas anglo-americanas no distante ano de 1984, Talk Talk era mais uma dessas formações obscuras dos anos 1980. Ledo engano.

Hollis, 64 anos, era o cérebro pensante da banda. Podemos dizer, inclusive, que houve dois Talk Talks. O primeiro, até 1986, era um grupo voltado para a cartilha Roxy Music/tecnopop new romantic, com muitos teclados, sintetizadores e noção de melodia e bom senso pop. Era o que se conhecia como sophisti-pop. A própria “It’s My Life” não nos deixa mentir: exuberante, cheia de efeitos especiais de pássaros, clipe marcante – com Hollis em meio a paisagens animais selvagens com algo a dizer, sem conseguir – era uma promessa de competidora pela efeméride pop oitentista. Mas Hollis e seus parceiros de banda – o baixista Paul Webb, o baterista Lee Harris and o tecladista Simon Brenner – largaram mão desta perseguição pela música mais convencional e entraram numa jornada em busca de uma musicalidade que tangenciava o pop e arremetia para ares muito mais auspiciosos e complexos. Esta mudança é marcada pela chegada do terceiro álbum, “The Colour Of Spring”.

Saía de cena o Talk Talk acessível e chegava aos ouvidos dos poucos interessados em músicas complexas naquele ano de 1986 uma banda arrojada e cheia de sutilezas. Hollis se dizia influenciado por gente que não estava no mapa dos artistas daquele tempo. De Otis Redding a Debussy. De Burt Bacharach a John Coltrane, o sujeito era um cara fora de seu tempo. “The Colour Of Spring”, com oito faixas, chocou quem esperava por outra “It’s My Life”. Canções antipop, com longas passagens instrumentais, corais infantis, muitos pianos e teclados, uso de orquestra e valorização do binômio silêncio/som assumiram o protagonismo. Em comum com o passado, apenas o ótimo registro vocal de Hollis, um dos mais marcantes daquela década. Das novas faixas, apenas “Chameleon Day” tinha pouco mais de três minutos, deixando o restante com duração variando entre cinco e seis minutos, simplesmente deixando parâmetros radiofônicos de lado. Mesmo assim, longas e com instrumental ousado, todas as canções ainda guardam algum potencial pop implícito.

O abraço ao experimentalismo vem com o disco seguinte, “Spirit Of Eden”, lançado em 1988, com apenas seis faixas. A canção que abre o ciclo é a impressionista (e impressionante) “The Rainbow”, com mais de nove minutos de duração. A banda simplesmente deixa de lado a maioria de seu arsenal eletrônico de synths e baterias robotizadas de antanho para embarcar numa onda acústica ousadíssima, nada parecida com o que as pessoas entendem por “unplugged” ou banquinho e violão. O pop, enfim, ficava para trás em favor de algo novo, tangente do jazz – no sentido experimental – mas que nunca feria os ouvidos ou irritava por alguma complexidade vazia, na base do exercício de estilo. Era uma banda em evolução e em busca de novos rumos para sua arte. E partindo nesta direção. “Eden” e “Desire” são provas desta nova estética. Lentas, cheias de sons, silêncios, quase uma new age/ambient music adolescente e curiosa. Dizem – dizem – que o Radiohead ouviu muito este disco para gestar seu álbum “OK Computer”.

Com o trabalho seguinte, “Laughing Stock”, a banda chegou ao fim da carreira. Em pleno 1991, frente ao grunge e ao nascente britpop, o mundo não tinha paciência para investir em novas texturas sonoras delicadas, misteriosas e que exigiam atenção total do ouvinte, bem a exemplo do disco anterior. Depois deste lançamento, o grupo se separou.

Hollis ainda lançou um obscuro disco solo em 1998 e permanecia discreto, mais dedicado à família, longe dos palcos.

Sua morte precoce talvez sirva para que o Talk Talk passe por uma reavaliação crítica e receba seu reconhecimento – merecido há tanto tempo.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “A Morte de Mark Hollis e a Importância do Talk Talk

  • 28 de fevereiro de 2019 em 18:54
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    Belíssimo texto. Soa quase estranho dizer que um arista que deixou de produzir há mais de 20 anos “fará falta”, mas o Hollis deixa um vazio enorme. Difícil dizer o que seria de Radiohead, Elbow e Low (nos dois últimos álbuns) sem a influência dele. Teríamos o brilhante Blackstar do Bowie sem o Laughing Stock de 91? Enfim, uma grande perda. Minha humilde homenagem a esse gênio: https://open.spotify.com/user/andremarques_pb/playlist/55JNzxNveDK639A3iltzDu?si=LIaYCzroTUKBgJF1oA8vfA

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  • 26 de fevereiro de 2019 em 18:43
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    Maravilhosa banda e bela resenha.
    Curto a banda já muito tempo.
    Tenho os vinis de colour e spirit.
    Uma de minhas preferidas.
    O disco solo de Hollis e bem intimista e TB maravilhoso.
    Uma pena, mas seu trabalho está aí faz tempo influenciando muita gente, sem a medida óbvia de sucesso.

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