A folia pela lente do amor

 

 

Fotografar o Carnaval é uma arte a mais. Acompanhando o crescimento da folia, diversos profissionais se dedicam a registrá-la, seja em quadras, na rua ou na Sapucaí. Uns fazem isso há muito, outros começaram agora. Uns já eram foliões e passaram a fotografar, e para outros o caminho foi inverso.

 

Pensando sobre, e em tempos de tantas dificuldades, resolvi falar do que é bom e fazer uma única pergunta – Qual é a dor e a delícia de fazer a cobertura fotográfica do Carnaval? – a alguns profissionais das lentes, e trazer para a Coluna Coringa o resultado disso!

 

Em comum, o amor, o encantamento e o respeito pela festa. O restante deixo com vocês:

 

Pâmela Perez: envolvimento e sensibilidade

 

“Sou absolutamente apaixonada pelo Carnaval de Rua do Rio! Pela magia, pela fantasia e pela poesia que toma conta dos nossos corações nesses dias de folia. Somos mais humanos, mais sensíveis às diferenças e mais abertos ao espaço público e às suas infinitas possibilidades. A música nos conecta e a arte abre grandes brechas.

 

Em 2016 descobri a fotografia de rua, registrando com as grandes manifestações da Saúde Mental contra um governo afeito ao retrocesso do encarceramento dos ditos loucos. Fui imediatamente capturada pela força dessa fotografia, com sua potência artística e seu viés político. A partir daí, meu Carnaval, que por anos tinha sido na corda dos meus blocos favoritos, tomou outro rumo e um novo colorido: há cinco anos eu pulo, eu vivo, eu respiro o Carnaval através da minha fotografia. Fotografo fantasiada de Mulher Maravilha, como nos tempos da corda, e acabou virando minha marca: Mulher Maravilha Fotografia! Fico feliz e muito grata por contar parte da nossa história, através da minha arte e por ser protagonista da construção da memória da nossa cidade. 

 

A dor de fotografar o Carnaval do Rio é guardar milhares de fotos nos meus HDs, todos os anos, ao invés de entregar todas para o mundo! Faço minhas fotos pelo amor ao Carnaval. Como não é tradição de muitos dos blocos contratar fotógrafos, grande parte ainda faço no amor”.

 

Além de fotógrafa, Pâmela Perez é psicóloga da Prefeitura do Rio de Janeiro e já clicou Boi Tolo, Céu na Terra, Orquestra Voadora, Vem Cá Minha Flor, Mini Seres do Mar, Sinfônica Ambulante, Desliga da Justiça, Fogo e Paixão, Exagerado, Piratas Ordinários, Que Bloco é Esse, Loucura Suburbana, Tá Pirando, Pirado, Pirou, Zona Mental, Império Colonial, Bloka, Mulheres Rodadas, Fanfarra Black Clube, Calcinhas Bélicas, Caetano Virado, Quizomba, Mulheres de Chico e Maria Vai com as Outras, dentre outros. Que fôlego!

 

 

Munique Otto: em busca do inesperado

 

Para Bruna Munique – que, assinando como Munique Otto, toca o projeto Cliques da Folia –, fotografar os blocos de rua não é conseguir o momento certo.

 

“É preciso estar atento e buscar imagens. Fotografar os blocos de rua não é esperar que os foliões estejam atentos às câmeras, não é esperar somente sorrisos, é preciso buscar algumas imagens e, apesar de saber que provocar a cena faz parte da minha profissão, não posso garantir isso quando falo de fotos do Carnaval, mas tudo flui! Acho que essa é a resposta para a sua pergunta, a delícia certamente está em fazer o que se ama com aquela pitadinha de diversão, e o Carnaval não dói, a dor é esperar 365 dias para encher o cartão de memórias de belíssimas imagens”.

 

Munique começou a fotografar o Carnaval de rua em 2017 e já registrou mais de 20 blocos, entre eles Orquestra Voadora, Quizomba, Multibloco, Mulheres Rodadas e Vem Cá Minha Flor, o preferido dela. “Principalmente pela fantasia dos músicos e foliões, flores, flores e flores… Esse também é o bloco que mais vibro, canto, pulo e faço belas fotos!”, aponta.

 

 

Cris Vicente: inspiração na irreverência

 

“A delícia em fotografar os blocos de rua é ver a criatividade e irreverência de cada folião, principalmente aquele que produz a sua fantasia. Muitas vezes, após o click, pergunto quem fez? Qual foi a inspiração? E acabo embarcando nesse delírio!

 

A dor é quando os batuqueiros tocam aquela música que leva os foliões à loucura e todos cantam, pulam, e eu tenho que estar mais atenta do que nunca para um click cheio de emoção e energia. Os olhos estão atentos, mas a boca canta!”

 

Cris Vicente se formou em fotografia no Senac-RJ no final dos anos 1980, mas nunca exerceu a função, fotografava só por hobby. Em 2012 resolveu se atualizar e fez um novo curso no mesmo local, já que queria viver dos clicks. Em 2014 Rodrigo Moreira, fundador e presidente do Bloco Chinelo de Dedo, a convidou para ser a fotógrafa do bloco e, claro, ela aceitou! Este ano Cris fez também o Bloco da Dida e o Coletivo sem Ribalta.

 

 

Jener Neves: memória entre o PB e a cor  

 

“Vejo o ato de fotografar os blocos como uma forma de contribuir com a memória do Carnaval de rua do Rio. Seja a memória para a cidade, como um registro de como ela se transforma, seja para os blocos, para ilustrar e ajudar a contar sua história, ou para o público, como memória afetiva. Foi isso que tentei, nesse meu ano de estreia, ao fotografar o Bloco Fogo e Paixão e o Bloco Quizomba.

 

No Fogo e Paixão fiz os registros todos em preto e branco, o PB. Como esse ano o desfile foi comemorativo de 10 anos de bloco, optei por eliminar as cores para que toda a atenção fosse direcionada para as expressões, as trocas de olhares, os sorrisos, a cumplicidade e emoção que aquele momento representava. Já no Quizomba mesclei entre preto e branco e cor. Usei o PB para os registros nos quais busquei chamar mais atenção para os detalhes ou para um momento em especial. Aproveito para agradecer aos dois blocos pelo carinho e oportunidade.

 

Mas como realmente nem tudo são flores, posso chamar de ‘dores’ da atividade duas questões: uma é estar sujeito à variação de humor do clima, seja o sol de verão do Rio ou à chuva, e fazer com que isso não afete o resultado. Outra é aprender a minimizar o desgaste que o equipamento sofre, já que, dentro do bloco, ele vira um imã para respingos de cerveja e outras bebidas, além de levar trancos e esbarrões em diversas situações.”

 

Para Jener Neves, que começou esse ano com os registros, as dores são mínimas para a delícia de retratar a catarse que é o Carnaval. “Valeu a pena!”, diz.

 

 

Rita Mandarino: calor e resultados quentes 

 

“A dor de fotografar é sair muito cedo, enfrentar o calor, o empurra-empurra, e a delícia é ver o resultado de fotos cheias de alegria, irreverência e prazer de estar no meio daquela festa popular.”

 

Assim Rita Mandarino resumiu – e bem – a sua resposta. Ela já clicou Orquestra Voadora, Fogo e Paixão, Céu na Terra, Boitatá, Cordão do Bola preta, Bloco do Sargento Pimenta, Desliga da Justiça, Empolga às Nove, Besouro Verde. Os desfiles das escolas de samba no Sambódromo ela já faz há 4 anos!

 

 

Paula Magalhães: resistência na Sapucaí

 

“Nós não vamos sucumbir’. Esta frase, mostrada no último carro da Mocidade Independente de Padre Miguel, no desfile deste ano, resume o espírito do Carnaval e do carioca. Ela é quase que um recorte social, um resumo do que vivemos ao longo dos anos, principalmente dos últimos tempos. Ela evidencia a atualidade, mas também resgata muito da nossa história, seja ela política, religiosa, cultural. É o termômetro do que temos de melhor, do que é geralmente apreciado pelo mundo: a alegria, a vivacidade e a capacidade de resiliência. Nada mais instigante para um fotógrafo do que registrar esse recado, dado em forma de fantasia. É como se disséssemos para o mundo com a nossa imagem: ‘Olha, sabemos dos nossos problemas, mas vamos resistir com fé, força e alegria. Estamos lutando com nosso jeitinho particular’.

 

Além disso, documentar tem importância histórica. Sempre teremos a memória iconográfica para os futuros estudos e pesquisas. Afinal, como rever o Cristo Mendigo, de 1989, e o grito pela vereadora Marielle Franco, criado pelo carnavalesco Leandro Vieira, em 2019, na Mangueira? E, na minha humilde opinião, só existe prazer. É quase como tomar uma cachaça, mesmo sabendo da ressaca que enfrentamos todos os dias”.

 

Paula Magalhães cobre galpões, quadras de escolas e os desfiles na Sapucaí há anos. Para ela, foi gratificante ver as escolas apresentar uma estética mais simples, como aconteceu neste ano e, ao mesmo, tempo refletir a atual crise mundial.

 

 

PH de Noronha: caçador de emoções foliãs

 

“Fotografar o Carnaval de Rua é uma paixão, acima de tudo. Uma paixão fotográfica, artística, cultural e emocional. Quando comecei, ouvia as pessoas me dizendo que eu era um paparazzo, que capturava flagrantes que as surpreendiam, elas não se imaginavam como eu as registrava nas fotos. Comecei a perceber que sou, na verdade, um caçador de emoções foliãs. Uso a teleobjetiva para pegar de longe as reações dos foliões, sem que eles percebam, muitas vezes emoldurando a pessoa, pela confusão a seu redor, ombros, cabeças, instrumentos e pedaços de fantasias dos colegas próximos que se enfiam sem querer nas fotos. Às vezes atrapalham e estragam o registro, mas muitas vezes consigo aproveitar esses borrões para dar um contexto à foto.

 

A dor… São os perrengues, né? Existem aqueles que são naturais, como sol forte – o visor traseiro da minha câmera chega a ficar fervendo, quase queimando minha face quando vou fotografar – e chuva, que sempre traz o risco de água entrar na câmera e causar algum prejuízo grave. Nossos equipamentos são muito caros e sensíveis. Outro perrengue é o aperto. Blocos muito apertados, mesmo dentro da corda, chegam a inviabilizar o trabalho do fotógrafo. Às vezes esbarramos também em restrições sem sentido impostas pela produção dos blocos, que conhecem pouco o trabalho dos fotógrafos. Há ainda a questão da segurança. Hoje em dia, fotografar fora da corda do bloco, nem pensar! Se eu não puder ficar dentro da corda, vou pra casa na hora. E, pra fechar, tem uma coisa que me irrita pessoalmente, que é quando o fotografado posa e faz aquele sinal de ‘joinha’ com os dedos, ou então bota a língua pra fora… Pronto, estragou a foto!”

 

PH de Noronha começou em 2006, fotografando Céu na Terra, Suvaco de Cristo e Bangalafumenga. De lá pra cá já ganharam registro Mulheres de Chico, Fogo e Paixão, Desliga da Justiça, Multibloco, Quizomba, Bangalafumenga, Gebav, É do Pandeiro! e Rio Maracatu, dentre muitos outros.

 

 

Carlos Erbs: cores e formas 

 

“Cobrir o Carnaval de rua é um misto de alegria e tensão. Nós, fotógrafos da folia, temos que estar atentos às cores e formas que ela nos dá, mas também não podemos descuidar dos riscos da cobertura, que em determinados blocos são mais acentuados. Quando há cordas ao redor nosso trabalho fica mais tranquilo, ou quando ficamos em cima do carro de som. Porém, todo esse cuidado é compensado pelas belas imagens que registramos”.

 

Carlos Erbs faz a cobertura foto jornalística do Carnaval desde 2013, com trabalhos realizados no Rio, São Paulo e Belo Horizonte, para a Agência Frame Photo, Uol, Ambev e UBER. Ao longo desses sete carnavais, já cobriu Cordão do Bola Preta, Simpatia é Quase Amor, Banda de Ipanema, Cacique de Ramos, Escravos da Mauá, Céu na Terra, Bloco Brasil, Sargento Pimenta, Orquestra Voadora, Bangalafumenga, Boi Tolo e outros tantos em SP e BH.

 

Agora o nobre leitor já sabe: se cruzar com um deles durante o Carnaval ajude, sorria, brinque e participe de uma arte a mais. O crédito da foto que ilustra essa coluna é de Carlos Erbs, e a pergunta que fiz brinca com um verso de Dom de Iludir, de Caetano Veloso (Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é). Até a próxima!

 

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Celso Chagas

Celso Chagas é jornalista, compositor, fundador e vocalista do bloco carioca Desliga da Justiça, onde encarna, ha dez anos, o Coringa. Cria de Madureira, subúrbio carioca, influenciado pelo rock e pela black music, foi desaguar na folia de rua. Fã de poesia concreta e literatura marginal, é autor do EP Coração Vermelho, disponível nas plataformas digitais.

One thought on “A folia pela lente do amor

  • 19 de março de 2020 em 17:08
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    E se gostar da foto e quiser postar não esqueça de dar o crédito!!

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