Eno Tutti-Frutti + Doritos Wasabi

 

 

Podia ser o nome de um projeto new wave do famoso não-músico inglês, Brian Eno. Algo que misturasse suas influências de ambient music e texturas com algum combo latino-americano como nome nos moldes de Fantastic Negrito ou Khruangbin, mas, não, é só o psicodélico ajuntamento dos mais novos lançamentos do mercado estranho do mundo alimentício atual. Uma variação tutti-frutti do sal de frutas Eno, um produto que já existia quando as pessoas saíram enjoadas da Santa Ceia e, além dela, uma neoglobalizada versão do Doritos, aquele salgadinho americano, feito no Brasil, que emula uma tortilha mexicana, dessa vez, com sabores sintéticos de wasabi, a milenar raiz-forte dos rodízios de comida japonesa, que ardem mais do que uma palmada desferida pelo próprio demo. Sim, o texto é sobre isso, afinal de contas, qual a vantagem de você ralar abnegadamente num site de cultura pop se não puder, de vez em quando, dar vazão a coisas como esta? Então, gente, vamos falar dessas … coisas.

 

 

Em primeiro lugar, digo que sou gordo. Mais que estar acima do peso, minha alma e personalidade são gordas. Eu gosto de experimentar esses lançamentos, por mais pós-apocalípticos que eles sejam. Por mais que eles venham confirmar a nossa esquisitice pós-moderna, algo que coisas como o Torcida sabor Galeto, a Pepsi Twist Zero e o Guaraná Jesus também confirmam, sejamos justos; eu estarei lá, experimentando e, não raro, falando a respeito. Porque comida é cultura, logo, em proporcionalidade, se ela é trash, a cultura também será. Eu acho.

 

 

O Eno Tutti-Frutti vem somar-se aos sabores laranja, guaraná e limão, além do naturalzão, velho de guerra. De longe ele é o melhor de todos, ainda que o guaraná seja capaz de substituir o refrigerante numa emergência. Este novo sabor é irritantemente gostoso, tem cor e gosto próximos do clássico chiclete Ping-Pomg de tutti-frutti, que a gente comprava antes de ir pro colégio e, caso fizesse calor, simplesmente derretia numa versão infantil da bolha assassina dos filmes de terror. Este novo Eno lembra o Guaraná Jesus em cor e tem bem menos açúcar, constituindo numa boa pedida para quem gosta de bebidas luxuriantes. Claro, como qualquer outro Eno, ele potencializa a emissão de arrotos, algo que não pode ser esquecido pelo comensal. Bebê-lo me fez lembrar de Matrix, quando alguém pergunta como as máquinas que dominaram a humanidade e a tornaram uma bateria para alimentar um enorme mundo sintético, sabiam qual o gosto de tinha um determinado cereal. Alguma explicação sobre neurônios e sinapses tem lugar e eu aposto que tal semelhança do Eno Tutti-Frutti com o Ping Pong tem consequências além da medida. Bem, vejam eu perdendo tempo precioso tentando descrever isso pra vocês. Mas, sério, experimentem, vocês vão gostar.

 

O Doritos Wasabi é a materialização de um sonho pervertido, no qual podem existir os sabores marshmellow, macarronada, estrogonofe ou quarteirão com queijo, todos para o salgadinho transnacional. Além de tudo isso, gente, ele é VERDE, como se fosse um floco de criptonita. Quando você vai experimentar, a preparação para uma incursão às planícies de Mercúrio logo se mostra desnecessária, uma vez que sua ardência é bem pequena. A propaganda vem com um aviso “Só para os fortes” mas é bem frustrante, ainda que seja gostoso. Em termos de picância, o sweet chili ainda é o mais indicado para quem deseja momentos de ardência. Mesmo assim, vale a consumida, nem se que seja para trazer um pouco de caos para sua vida.

 

 

O máximo da radicalidade é se entupir de Doritos Wasabi e ingerir o Eno Tutti-Frutti em seguida, num movimento que lembra a GRES Estação Primeira de Mangueira, por conta da variação cromática e documenta, sem querer, o nosso percurso nessa Terra que nos assiste evoluir bilhões de anos para produzir tais comilanças. Se você tem aventura no sangue, caia dentro.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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