Panelamos. E agora?

 

 

 

Ontem foi o primeiro panelaço em muito tempo – bota tempo nisso – em que as pessoas mais progressistas do país puderam se manifestar. O protesto, surgido como uma forma de reação natural da população contra a opressão governamental em outros tempos, fora encampada pela classe média-alta brasileira desde o impeachment sem crime de responsabilidade da Presidente Dilma, em 2016. Foram grandes panelaços, tonitroantes, angustiantes, mas, bem, legítimos. A população, não importa se iludida ou movida por um ódio catártico de classe e preconceito, disparou xingamentos e impropérios contra a Presidente, que, mais tarde, seria retirada do cargo.

 

 

Desde então, o panelaço ficou associado a este tipo de manifestação, de gente com certo poder aquisitivo, certa posição social, certa agenda não necessariamente popular, movida por motivos não necessariamente econômicos – no sentido real do termo. Ontem isso mudou. O panelaço que irrompeu nas cidades do país a partir de 19:30h – uma hora antes do combinado pelas redes sociais – foi avassalador e catártico. Em uníssono, as pessoas pediram pela saída do atual ocupante da presidência, o ex-capitão.

 

O motivo é justíssimo, a completa e indisfarçável falta de noção desta pessoa em relação à pandemia do coronavírus. Não bastasse ele ter ido confraternizar com pessoas no domingo – contrariando recomendação médica após testar positivo para a doença. Não bastassem suas declarações irresponsáveis sobre a situação. Não bastasse seu deboche e falta de ação diante do mais sério problema sócio-econômico do planeta após a Segunda Guerra Mundial, fora o teatro mambembe e lamentável de seu ministério surgindo em entrevista coletiva, usando máscaras, sem saber como fazê-lo, mexendo na parte que não deveriam mexer, falando e acontecendo para uma perplexa plateia de jornalistas…Não bastasse tudo isso, o brasileiro finalmente encheu o saco, mesmo o de classe média-alta, que votou neste sujeito, depositou nele suas esperanças confusas, frustradas e estranhas, parece ter chegado a um limite de tolerância. Chega.

 

As pessoas não aguentam mais viver a situação de desvalorização constante do real, do aumento do desemprego, da perda de soberania e agora, como se não fosse suficiente, o risco de topar com uma doença que se espalha de forma super-rápida e faz vítimas sem qualquer discriminação. As pessoas se encheram de ver um presidente sem qualquer capacidade, que foi aposentado pelo Exército aos 33 anos como incapaz, que não tem noção de lidar com problemas à altura do cargo que ocupa. As pessoas parecem ter dado conta de que entregaram o governo do país num cheque em branco, esperando algum milagre que não veio – e jamais poderia vir.

 

Com estes assessores desorientados, o governo manifestou-se ontem, dizendo que vai dar um voucher de 200 reais para os trabalhadores informais que forem afetados pela crise gerada pela quarentena mundial. Pense nisso e reflita se vai ajudar. Também mencionou, na figura de seu inacreditável ministro da economia, paulo guedes, que vai autorizar as empresas a reduzirem jornadas de trabalho e, pasmem, REDUZIR SALÁRIOS. Além disso, nenhuma palavra sobre um plano de contingência em nível federal, de fechamento de fronteiras, de cancelamento de vôos, de isenção de tarifas, impostos e cobranças de água, luz, telefone, internet. Nada.

 

No mundo o movimento vai nesta direção. Fronteiras fechadas, ajuda do estado, fortalecimento das iniciativas de saúde pública, organização na hora de testar possíveis infectados, tratamento intensivo para os contaminados e confinamento absoluto da população em suas casas. Hoje mesmo vi gente almoçando em barzinhos e restaurantes aqui em Niterói, onde moro, mesmo com a Prefeitura tendo determinado o fechamento desses estabelecimentos e das praias da cidade.

 

O brasileiro está sob pesado stress. Desorientado, bombardeado pela mídia fatalista, imerso em teorias da conspiração e, pior de tudo, governado por um bonecão do posto maligno, que parece saído de uma reunião de condomínio, na qual culpou o PT pela goteira da garagem.

 

Em tempo: seus filhos não deixam por menos, sendo que um deles publicou nas redes sociais que o coronavírus é uma arma criada pela China, visando o domínio econômico mundial. Foi admoestado pela embaixada chinesa, que declarou: “você está contaminado por um vírus mental”. Estamos em maus lençóis e tudo parece destinado a piorar. Pelo menos, daqui em diante, às 20:30h, temos um encontro marcado para bradar pelo fim deste pesadelo ou, pelo menos, de parte dele.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Panelamos. E agora?

  • 19 de março de 2020 em 17:40
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    tarefa difícil produzir um texto claro, direto, preciso e melhor sem palavrão…tá rude!

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