A covid-19 e o karaokê do vizinho

 

 

Vocês sabem, a sociedade brasileira vem assumindo sua condição de “doente” desde, pelo menos, os últimos quatro anos. Estudos mais aprofundados e sérios, no entanto, dão conta de que sempre fomos doentes. Maus, sem empatia, escravagistas, mentirosos, aproveitadores…Pudera, não temos nação, a maioria do povo não se sente representado por heróis estapafúrdios do passado. Quer, por exemplo, alguém menos qualificado para ser herói do que o Duque de Caxias, que recebeu a alcunha de “Pacificador” mesmo tendo dizimado milhares na Guerra do Paraguai e a serviço do exército brasileiro em missões variadas? Mas não é de Luis Alves de Lins e Silva que quero tratar. Mas do vizinho que mora em frente ao nosso prédio, aqui em Icaraí, Niterói.

 

Pra quem não conhece a cidade, esta é uma região abastada, ou seja, com gente que tem recursos para não ser burra. Não ser tosca. Porém sabemos muito bem que dinheiro e nobreza de atitudes quase sempre estão em pontos opostos da vida humana. Ainda assim, o vizinho não é exatamente uma pessoa rica, mas mora aqui. Tampouco nós somos ricos, pelo contrário. Corremos atrás do prejuízo, matamos um leão por dia, vendemos almoço pra comprar a janta e demais expressões que denotam a velha classe média achatada pelo tempo, que ainda acredita no ensino público de qualidade, na saúde pública para todos e por aí vai. Mas, vocês sabem, estamos – ou deveríamos estar – sob medidas restritivas em relação à Covid-19. Isso, porém, não acontece na casa do vizinho daqui de frente.

 

Antes de abordar a questão em si, vale registrar que já estamos na casa dos 104 mil mortos pela pandemia. Se há alguns meses nos debatíamos sobre a postura do presidente diante do caso, hoje já sabemos que as esferas do Executivo todas abraçaram a liberação das medidas restritivas, numa OPÇÃO por colocar em risco as populações de estados e municípios em favor do empresariado nacional, este segmento social tão ou mais maníaco e assassino do que a média geral, já bem alta. Seguimos com mortes diárias na casa do milhar, ou seja, é como se caíssem TODO DIA QUATRO BOEINGS 767 com lotação máxima. Mas tudo bem, é paranoia, certo? Então nós estabilizamos no topo do gráfico, com gente morrendo a rodo. Não baixamos os óbitos como Espanha e Itália. E China. Lembram como esses países surgiam no noticiário e nos causavam espécie? Pois é. Aqui OPTAMOS por relativizar mortes e medidas restritivas. As pessoas resolveram sair na rua, talvez pensando: “ah, f…-se essa m….rda. Acabou, é tudo invenção, é tudo mentira”. E pronto. Temos os quatro Boeings caindo diariamente.

 

 

Isso nos leva então ao nosso vizinho. Ele mora na cobertura de um prédio de cinco andares, em frente ao nosso. É quase no nível da nossa janela, portanto, temos uma, digamos, proximidade horizontal. Sendo assim, como é uma rua tranquila, é possível ouvir TUDO o que acontece por lá e, desde que as medidas sociais começaram a perder força, nosso amigo resolveu celebrar epidemias, fazer a festa da torcida campeã, como diria Renato Russo. Ou seja, ele recebe umas dez pessoas todo fim de semana em casa, para um híbrido de churrasco, piscina e … karaokê. Sim. Não é preciso dizer que a festança vai até altas horas da madrugada, desrespeitando totalmente a lei do silêncio ou qualquer bom senso.

 

Mais ainda: em meio à nossa realidade combalida pelo burrismo e ao crescente número de óbitos, não acho que haja motivo para celebrar absolutamente nada. Nada. Só que isso não está no radar das pessoas, nem das que usam máscara abaixo do nariz ou na garganta ou, pior, nem usam nada. É hora de celebrar “a estupidez humana, nossa polícia e televisão” ou “o nosso estado que não é nação”. Russo novamente presente.

 

O vizinho ainda tem mau gosto e canta mal. É um coro de gente etilicamente comprometida, anestesiada na própria burrice, encastelada na mediocridade reinante, que deve estar a par da grade de programação da emissora de TV hegemônica, do seu time no Brasileirão e de como vai ser para ir na praia com as medidas de restrição territorial. É gente que não participa e, quando o faz, faz errado, pouco se lixando para o mundo em volta. É gente péssima, lamentável e que canta “Andança”, “Pais e Filhos”, “Whisky A G0-go”…

 

O karaokê semanal do vizinho aqui em frente, é o próprio Brasil, gente. E, como no país real, longe das metáforas e representações, a gente assiste da maior distância possível, tudo ruir em meio à doença. Social e física.

 

Fracassamos.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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