Legião Urbana – 13 canções para guardar

 

 

Outro dia mesmo a gente estava falando sobre a triste atualidade de “Perfeição”, canção que a Legião Urbana lançou em 1993. Na ocasião mencionávamos os versos sobre a celebração de epidemias e a festa da torcida campeã, para ilustrar o descaso com a Covid-19 e o impressionante início do Brasileirão 2020. Não que fosse preciso lembrar de uma canção específica para ter a exata noção da importância do repertório da banda de Brasília e de seu impacto no rock brasileiro dos anos 1980 e 1990.

 

Por conta disso, após uma ponderação longa e baseada igualmente em critérios pessoais, memória afetiva, impacto de quem estava lá quando todas as canções foram ouvidas, saiu esta lista de treze clássicos do grupo. Claro que você pode e deve ter a sua, mas acreditamos que este compêndio de faixas da discografia legionária guarda algumas pequenas surpresas para fãs e iniciantes. De qualquer forma, a qualidade lírica é a grande constante aqui, ainda que surjam – aqui e ali- alguns momentos em que o grupo funcionou em termos de arranjos e criatividade no mesmo nível das letras.

 

Veja. Concorde, discorde, opine.

 

 

13 – Uma Outra Estação – a faixa-título do álbum póstumo da Legião é um registro arrepiante. Gravada e registrada nos momentos finais de Renato Russo, a canção é quase fantasmagórica, com a letra cantada num nítido esforço. A letra é surreal, fala de amizade, amor, corações suburbanos que esperam riquezas maiores e seguem o calendário maia mesmo sendo descendente dos astecas. Feita para uma das paixões finais de Renato, a canção ainda enverga um dos maiores versos de sua poesia: “não me diga como devo ser, gosto do jeito que sou, quem insistem em julgar os outros sempre tem alguma coisa pra esconder”. Serviu como a verdadeira ficha caindo de que Russo 1) tinha morrido, 2) nunca morreria.

 

 

12 – Teorema – um hit médio do primeiro álbum do grupo, da passagem de 1984/85. Aqui Renato e o grupo entregam uma canção punk sobre amor e a incapacidade de definir com palavras e precisão verbais/matemáticas o efeito e a realização que a pessoa amada traz para nossas vidas. “Teorema” recebeu cover respeitosa do Ira em seu álbum “Isso é Amor”.

 

 

11 – O Descobrimento do Brasil – uma das canções mais melodicamente belas da Legião Urbana, um mérito que sempre vem em segundo plano, dadas as letras características de Russo. Aqui ele busca um ambiente lúdico, quase de sonho, como se pensasse em algo que pudesse cantar para seu filho, Giuliano. O arranjo é belo, com bateria eletrônica e um ambiente de teclados e guitarras que são totalmente incomuns na obra da Legião e confirmam o amadurecimento musical do grupo.

 

10 – Ainda É Cedo – um dos maiores clássicos do repertório do grupo, marcada por um arranjo pós-punk, totalmente calcado na linha de baixo executada por Renato Rocha. A letra é obsessiva, confessional, com Renato Russo indo da tristeza à indignação/amor. Há arrependimento por todos os cantos, definindo com precisão a confusão de um amor latu sensu.

 

09 – Quase Sem Querer – a maioria das canções de “Dois” têm uma aura peculiar. Esta não é exceção, com um arranjo folk rock que caracterizaria a maioria das gravações legionárias do porvir. A letra é animada, algo realmente raro, marcando a chegada do amor e da felicidade como frutos do acaso. Quem viveu, sabe como é esta sensação e ela vem quando menos se espera. Quase sem querer. Mas querendo. Um clássico do Santo Agostinho, 1986.

 

08 – Vamos Fazer Um Filme – faixa de “Descobrimento do Brasil”, esta é uma das canções mais belas já gravadas pelo grupo. Aqui Renato Russo, saindo da depressão que marcou o álbum anterior, “V”, ele relata a chegada do sol depois da chuva: “algum falou do fim do mundo, o fim do mundo já passou, vamos começar de novo, um por todos e todos por um”. E mais adiante, ele despista sobre a imponderabilidade com “te ver é uma necessidade, vamos fazer um filme”. E os versos definitivos: “e hoje em dia, como é que se diz eu te amo?”. Outro clássico, uma das mais queridas entre os fãs.

 

07 – Teatro dos Vampiros – quando lançada, “Teatro” era misteriosa e surgia no meio do governo Collor como um retrato terrível daquele tempo, no qual “os meus amigos todos estão procurando emprego”. Depois, Russo revelou que a letra era sobre a TV, mas isso não chegou a esclarecer completamente os enigmas presentes, sendo que outros versos tomaram o lugar de protagonismo: “sempre precisei de um pouco de atenção, acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto” ou “quando me vi, tendo que viver, comigo apenas e com o mundo, você me veio como um sonho bom”. Outra pequena maravilha com belo uso dos teclados.

 

06 – Perfeição – desde que foi lançada, em 1993, “Perfeição” é uma espécie de hino extra-oficial do país, especialmente na década de 1990 e nos anos que sucederam 2016. A letra é terrivelmente atual, dá pra escolher seu verso preferido sobre várias conjunturas nacionais e internacionais. Em tempos de Covid-19, acho que nenhum barra “vamos celebrar epidemias, é a festa da torcida campeã”, mas há favoritos como “o meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões” ou “vamos celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas”. Tem até um para os historiadores de plantão: “vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos”. É outro caso de arranjo incomum na obra da Legião, com bateria eletrônica, andamento de rap e uma citação belíssima de “O Bêbado e a Equilibrista” no final.

 

05 – Índios – quem ouviu “Dois” quando foi lançado não esquece do impacto que “Índios” causava lá no fim do álbum. A batida seca, os teclados que entram em looping e a letra declamada que vai subindo de tom, como um registro digno de um observador das relações humanas. Dizem que Renato se saiu com as palavras em cerca de meia hora, no estúdio da EMI em Botafogo, Rio. É nesta letra que estão outros versos desconcertantes para aquele e qualquer tempo: “quem me dera ao menos um vez, entender como um só deus ao mesmo tempo é três. E se esse mesmo deus foi morto por vocês, só maldade então deixar um deus tão triste”. Ou “quem me dera ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender, que o que aconteceu ainda está por vir, que o futuro não é mais como era antigamente”. Impactante é o mínimo que se pode dizer.

 

 

04 – Tempo Perdido – a canção que puxou “Dois” como primeiro single, surgindo no Fantástico em forma de clipe. É um inventário/declaração de intenções sobre ser jovem e lidar com a maleabilidade que o conceito tem/comporta. É tudo fluido, ainda que seja mais uma canção que celebra o espírito que não morre mesmo com a partida precoce de gente como Elvis, John Lennon e outros. O arranjo da canção é uma linha divisória entre a Legião punk inicial e a Legião pós-punk que se seguiu. Outro clássico.

 

03 – Angra dos Reis – a canção inédita que veio no terceiro disco, “Que País é Esse”, é uma das mais belas da Legião. A letra é sobre o fim de tudo, com direito a espetáculo apocalíptico, tendo a usina nuclear do município sul-fluminense como alegoria. O clipe também é antológico, com o grupo andando pelo local e Marcelo Bonfá desenhando a usina de longe, enquanto Renato Rocha anda de bicicleta. O arranjo de teclados é impressionante e surpreendeu os fãs na época.

 

 

02 – Eu Era Um Lobisomem Juvenil – com quase sete minutos de duração, “Eu Era…” guarda uma letra enigmática o bastante, mas traz pequenas pérolas pensantes como “mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?” e outros versos preciosos. Às vezes o surrealismo impera, mas sempre é uma canção com andamento marcial e arranjo meio “templário”, com teclados, bandolins e um ar solente, como se fosse ritualística. O título faz alusão ao filme “Teen Wolf”, que tinha Michael J Fox no papel de um jovem … lobisomem. Ainda que a referência seja de uma comédia adolescente dos anos 1980, a canção é séria. Bem séria.

 

01 – Acrilic On Canvas – ainda que muitos digam que “Ainda é Cedo” é a faixa definitiva sobre o amor no cânone da Legião, eu fico com esta maravilha em preto, branco e cinza, da lavra de “Dois”. O arranjo privilegia uma linha de baixo perfeita e funkeada de Renato Rocha e a letra vai usando a concepção e materialização de um quadro para revelar a dor de uma separação. O painel que Russo vai traçando é terrivelmente triste mas a canção não chega a entristecer o ouvinte, mantendo-o atendo para ver qual será o próximo verso. É uma faixa que tem uma bela participação de Dado Villa-Lobos na construção de climas de guitarra.

+5

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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