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Tangolo Mangos: O rock nacional respira e bem

 

 

 

Tangolo Mangos – Pedágios y Caronas
32′, 10 faixas
(Deck)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Pense bem: há quanto tempo você não ouve algo bem humorado, bem feito, inteligente e diverso no que se entende por “rock nacional”? Pessoalmente, acho que Los Hermanos foi a última banda realmente original neste segmento e já temos mais de vinte anos desde o ápice dos cariocas. Em que pese a presença de gente ótima e ativa como Terno Rei, Boogarins e Maglore, talvez as três mais importantes formações destes anos mais recentes, não havia uma fagulha de criatividade/personalidade tão forte como a que habita o som dos Tangolo Mangos. Num grid de largada que também tem nomes fortes como Papangu e terraplana, os baianos conseguem soar mais concisos, mais borbulhantes e, especialmente, mais pop. Ouvindo “Pedágios y Caronas”, a gente tem a certeza de que suas dez faixas são pequenos caleidoscópios sonoros, com tantas referências que chegam a confundir os ouvidos mais atentos. Aliás, o mote por trás dessas canções é que o “rock” em 2026 precisa ser atento ao que acontece no mundo, seja em termos de fatos, seja em referências, seja em ritmos. Ou seja, não dá pra ficar emulando o som feito em outros lugares e tempos, é preciso reprocessá-los, ressignificá-los, se apropriar. O mote é velho, demanda antiga, mas, por conta da conectividade total, dos acessos e da digitalização quase inevitável da vida contemporânea, negar essas possibilidades é desperdiçar tempo, espaço e boa vontade do ouvinte. E este disco é isso, integrado, pequeno, porém enorme. Não sei se me fiz explicar. Vamos lá.

 

“Pedágios y Caronas” é o segundo disco dos Tangolo Mangos. Eles são Bruno Fechine, Felipe Vaqueiro, João Dourado, Deno e Theo. Compreendem perfeitamente essa explicação confusa do primeiro parágrafo, a necessidade de integrar o rock com o resto. No caso deles, dá pra fazer um pequeno mapeamento sonoro. Como são baianos de Salvador, padecem do velho estigma de que sua cidade, necessariamente aos olhos e ouvidos forasteiros, só comporta sonoridades de matriz africana, carnavalescas e mais nada. Não pode haver erro maior. Desde antes de bandas como Maria Bacana (e o trabalho de seu mentor, André L R Mendes) e brincando de deus, já era latente a existência de rock e afins em território soteropolitano. E nem precisamos falar de Novos Baianos, talvez a formação-chave para entender a capacidade de misturar rock e regionalismo baiano-nordestino com exatidão. Se a gente pegar esses elementos todos e atualizarmos para 2026, teremos a exuberância do som que os rapazes perpetram. E ainda tem todo o leque de influências que vêm de fora – algo do rock noventista revisionista, psicodelia atual via bandas como Tame Impalas e o próprio Boogarins e mais um monte de coisas. É o que a gente insiste: fazer rock em pleno 2026 achando que Led Zeppelin, Pink Floyd e AC/DC ou formações de hardcore são as únicas inspirações possíveis, é puro desperdício.

 

Temos então “Pedágios y Caronas”. É um discaço de meia hora de duração. Durante esse tempo, o Tangolo Mangos passeia por uma pororoca de referências e faz tudo com tanta rapidez e precisão que a gente chega a ficar meio tonto. Como são hábeis e espertos, disfarçam essa borbulhância com apelo pop perfeito, refrãos cantáveis, levadas harmoniosas e grudentas, tudo muito bem informado e feito com afinco e felicidade. Dá pra sentir o contentamento dos sujeitos por trás de cada boa sacada das canções. A gravação do disco ocorreu em Salvador no estúdio Ori de Apu Tude, que também assina a co-produção do trabalho. O processo de estar em um estúdio profissional pela primeira vez para registrar, não somente ideais, mas uma performance de grupo, colocou à prova vícios e antigas percepções da banda sobre o que é representar suas composições em uma gravação. O resultado disso é um trabalho muito mais direto, com canções objetivas e de ideias sólidas. É um registro mais fiel à energia que a banda apresenta ao vivo, mas sobretudo, aos contornos estéticos que o grupo decide delinear em suas composições. Elas nunca soaram tão vivas.

 

O cartão de visitas perfeito dessa proposta é a faixa de abertura “Armadura Armadilha”, que junta a energia do Carnaval com a eletricidade do rock japonês, trazendo uma letra sincera sobre baixar a guarda e se mostrar vulnerável. Essa postura mais direta e focada se repete na faixa-título “Pedágios y Caronas”, uma música redonda que equilibra experimentação com um pop certeiro. O grupo também sabe olhar para trás com maturidade: na dobradinha “Gerais do Vieira” e “Gerais do Rio Preto”, eles resgatam composições antigas da carreira e dão a elas uma cara totalmente nova, mais crua e viva do que qualquer coisa que já tinham gravado. A banda também sabe a hora de desacelerar e criar momentos de calmaria. Um ótimo exemplo é “Açafrão”, uma canção mais acústica e colorida que troca o peso do rock por violão de nylon, guitarras limpas e sopros de madeira, criando um clima melancólico muito bonito. Esse lado mais suingado aparece no soul de “Dominó” e no começo manso de “Lua de Fogo”, que vai ganhando corpo e velocidade aos poucos. Se você curte um som feito para balançar a cabeça e cantar junto, faixas como “Ohayo Saravá”, “Sofá” e a divertida “Eu e Você (Skarência)” entregam melodias que grudam na mente de primeira com seus grooves firmes. E para fechar a conta mostrando que eles jogam em qualquer posição, a última música, “Vou Acordar com Essa Nova Ideia na Cabeça”, mistura o samba tradicional com o suingue do pagodão baiano de um jeito totalmente natural.

 

Longe de ser apenas um exercício de nostalgia ou uma cópia desbotada de fórmulas gringas, a Tangolo Mangos entrega um disco que assume riscos, bate de frente com os clichês geográficos e abraça o mundo digital sem perder a pegada orgânica e viva do estúdio. Se você ainda tinha dúvidas de que o rock em 2026 poderia soar novo, pop, inteligente e absurdamente divertido, dê trinta minutos do seu dia para esse caleidoscópio soteropolitano. Você vai sair da audição com a certeza de que pegar carona com esses caras é o melhor caminho possível para o futuro da nossa música.

 

Ouça primeiro: “Armadura Armadilha”, “Eu e Você (Skarência)”, “Dominó”, “Açafrão”, “Ohayo Saravá”, “Sofá”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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