Weird Nightmare e Foxtide dão gás para o powerpop e o indie rock

Weird Nightmare – Hoopla
33′, 10 faixas
(Sub Pop)
(4,5 / 5)

Foxtide – Entropy
36′, 11 faixas
(Position)
(4,5 / 5)
A força da música independente em 2026 reside na capacidade de certas cenas locais manterem seus ecossistemas pulsantes, independentemente de métricas globais ou tendências passageiras. Toronto e San Diego surgem como exemplos perfeitos dessa persistência geográfica, onde a música não é apenas um produto, mas um reflexo direto de suas comunidades. Enquanto a tradição canadense historicamente acolhe o ruído e a densidade sonora, a produção da Califórnia molda um som que equilibra o brilho melódico com uma sofisticação rítmica inesperada. É nesse contraste de heranças que nomes como Weird Nightmare e Foxtide florescem, não como meros recicladores de estética, mas como artistas que utilizam o DNA de suas localidades para construir algo genuinamente novo e relevante.
Alex Edkins, amplamente conhecido pelo peso sonoro à frente do METZ, utiliza seu projeto Weird Nightmare para explorar uma faceta onde a melodia é o objetivo principal, embora a distorção continue sendo parte fundamental do todo, permitindo que ele encontre a liberdade de ser vulnerável sob densas camadas de ruído. Em seu álbum mais recente, “Hoopla”, o que se observa é uma celebração do power pop noventista levada ao limite da saturação, onde Edkins resgata a urgência de nomes fundamentais como Guided by Voices e a densidade de um Dinosaur Jr. para criar exercícios de purismo melódico que funcionam como um alento para quem busca o rock em sua forma visceral. Faixas como a explosiva “Headful Of Rain” e a rapidinha e perfeita “Forever Elsewhere” revelam que, por trás das paredes de som, existe um mestre dos ganchos melódicos, provando que a “sujeira” sonora é a moldura ideal para uma canção estruturalmente perfeita. Há um belo dueto, no caso, com a conterrânea Julianna Riolino, em “Bright City Lights”, que é adorável. Ao transitar entre o barulhento e o doce de forma simultânea em momentos como “If You Should Turn Away”, Edkins demonstra que o power pop não apenas sobreviveu ao tempo, mas ganhou uma nova vida ao abraçar a distorção não como um elemento de profundidade com composições que não pedem licença para serem, ao mesmo tempo, ataques de euforia e peças de extrema delicadeza harmônica.
A milhas dali, o Foxtide opera sob a luminosidade característica de San Diego, mas foge deliberadamente de qualquer clichê inofensivo associado ao gênero em seu novo álbum, “Entropy”, uma peça de artesanato sonoro que revela uma banda em plena expansão criativa ao misturar a clareza da Costa Oeste com uma precisão rítmica que flerta com estilos que vão do jazz ao pós-punk. Elijah Marreiros e seus companheiros resgatam um certo tom “cool” clássico californiano, filtrando-o através de uma sensibilidade contemporânea que valoriza a espontaneidade e o imponderável em uma jornada composta por nuances, onde a experiência de audição caminha por trilhas sutis e introspectivas. Há ecos de “California Sound” clássico em “Days Mode Slow” e um guitarrismo muito bem-vindo em “Cut And Dry”, o grupo demonstra que aprendeu a utilizar o próprio ambiente de gravação como um instrumento adicional, criando, com um brilho vintage e um uso inteligente de tons que aproximam o ouvinte da intimidade da banda. Em momentos como a aguda “Live By The Sun” ou na fofa “Heart In The Ground”, a estética lo-fi é coerente, mas não resume o que as faixa oferecem, mostrando, respectivamente, uma pegada mais melódica e uma face mais ruidosa.
Acompanhar essas trajetórias através de álbuns como “Hoopla” e “Entropy” é confirmar que a música independente continua a se fortalecer em suas próprias bases, operando com uma lógica de descoberta que independe de grandes mecanismos de massa. Enquanto Alex Edkins utiliza a distorção para dar relevo a estruturas de composição tradicionais, Elijah Marreiros aposta na clareza e na ambiência para atualizar a sonoridade de sua região. São abordagens que, embora distintas, convergem na entrega de obras que recompensam a audição atenta e detalhada, reafirmando que o valor dessa produção reside justamente na sua capacidade de manter o disco como um espaço de conexão genuína e duradoura.
No fim, o que Weird Nightmare e Foxtide mostram é a prova de que a combinação clássica de guitarras e boas ideias não se esgotou; ela apenas exige artistas dispostos a tratar a herança musical com personalidade e frescor. Para quem busca substância, esses trabalhos funcionam como um filtro natural, oferecendo camadas de som que se revelam a cada nova escuta e mantendo viva a curiosidade por aquilo que é feito com intenção e honestidade artística. É o tipo de entrega que justifica o olhar atento sobre o cenário atual, onde a música ainda consegue surpreender pela sua capacidade de ser, simultaneamente, familiar e inovadora.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
