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Precisamos falar sobre o disco do Sessa

 

 

 

 

Sessa – Pequena Vertigem de Amor
32′, 9 faixas
(Mexican Summer)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

Há certas dívidas que o tempo não perdoa, mas que a vontade de compartilhar música de verdade nos obriga a quitar. Esta resenha sobre o trabalho mais recente de Sessa está, sendo bem honesto, um tanto atrasada; ela deveria ter ocupado estas linhas ainda no final do ano passado. No entanto, diante de um disco com tamanha delicadeza, vale o clichê necessário: antes tarde do que muito tarde. Afinal, a música de Sessa não corre contra o relógio das paradas de sucesso; ela tem um tempo próprio de sedimentação, exigindo aquela escuta atenta que muitas vezes a correria do dia a dia impede.

 

Em “Pequena Vertigem de Amor”, Sessa reafirma sua posição como um dos arquitetos mais fascinantes da música brasileira contemporânea feita a partir do exterior. Vivendo há anos em Nova York, ele faz parte de um grupo de artistas que utiliza a distância geográfica não para copiar o som global, mas para despir a nossa tradição de seus excessos. A trajetória de Sergio Sayeg (seu nome de batismo) é marcada por essa circulação internacional orgânica: antes da carreira solo, ele integrou a boa banda Garotas Suecas e colaborou com o guitarrista Yonatan Gat. Foi com o aclamado álbum de estreia, “Grandeza” (2019), e o sucessor, “Estrela Acesa” (2022), que ele consolidou seu espaço no cenário independente global ao assinar com a prestigiada gravadora Mexican Summer. O selo sediado no Brooklyn é a casa perfeita para Sessa, conectando sua herança brasileira com uma estética de vanguarda que reverbera em todo o mundo.

 

O disco funciona como um tratado sobre a fragilidade e o afeto, onde cada faixa parece um registro resgatado de uma fita perdida, onde a voz ocupa o espaço mínimo da confidência. A instrumentação é propositalmente econômica, valorizando as texturas. Em “Nome de Deus”, por exemplo, o artista nos lança em um samba-jazz inquietante, onde o andamento parece carregar uma urgência contida, bem diferente da quietude que domina outros momentos do álbum. É uma música que mostra o domínio de Sessa sobre o ritmo e a tensão, provando que ele conhece as raízes do gênero, mas não tem medo de tensioná-las com uma abordagem moderna e urbana. Já o samba-rock acústico “Dodói” é puro Jorge Ben revisitado e recolocado em um novo contexto. O arranjo é impressionante e rico, trazendo algo inesperado que quebra a linearidade do álbum de forma brilhante.

 

Essa fluidez segue na faixa-quase-título, “Pequena Vertigem”, que é o exemplo máximo de como ele utiliza pouco para dizer muito. O violão preciso — que já se tornou sua marca registrada — cria uma atmosfera de sonho que remete à sofisticação de um Erasmo Carlos na década de 1970 ou à pureza de João Gilberto. O encadeamento do disco nos leva ainda a momentos como “Roupa dos Mortos”, uma faixa instrumental com violões exuberantes que vão sendo engolidos por percussões e timbres que evocam a música brasileira clássica, e “Bicho Lento”, que traz uma malemolência preguiçosa que remete ao Caetano Veloso de Bicho. Em “Revolução Interior”, um arranjo de cordas evoca Arthur Verocai, enquanto uma melodia celestial mistura timbres que vêm direto de canções como “Linha do Horizonte”, do Azymuth inicial, ou mesmo de momentos acústicos de Tim Maia, mas numa pegada completamente diferente, ainda que… igual.

 

O grande trunfo de Sessa é oferecer uma quietude reflexiva em um mercado que muitas vezes exige barulho. Ele prova que a música brasileira feita no exterior pode ser profunda e honesta, longe de caricaturas. Não há truques de produção para esconder nada; a voz, próxima de um sussurro, convida o ouvinte para uma intimidade real. É um disco para ser ouvido com calma, funcionando como um antídoto para a velocidade frenética dos lançamentos atuais. Sessa não está apenas fazendo música brasileira em Nova York; ele está expandindo as fronteiras da nossa própria canção através de um olhar que entende o valor da nossa história, mostrando que a nossa tradição segue viva, elegante e, acima de tudo, profundamente humana.

 

Ouça primeiro: o disco todo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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