O ano do pensamento mágico
Quando minha irmã me ligou, chorosa, na noite de 24 de junho de 2025, para contar que havia sido chamada no hospital onde meu pai estava internado havia quatro dias, nós já sabíamos que tipo de notícia receberíamos, e que, de fato, recebemos: nosso pai havia partido.
Havia tristeza, sim. E havia também, talvez ainda mais, resignação e alívio.
Nosso pai esteve doente por alguns anos. E pelo menos por mais de um ano e meio, desde mais ou menos setembro de 2023, acamado, inválido, vítima de uma demência, talvez até mais de uma, que inutilizou aos poucos o seu corpo enquanto mantinha alguma forma de consciência, a ciência de sua própria situação e fragilidade, sem contudo conseguir falar, deglutir ou dar alguma forma de sinal antes de involuntariamente fazer suas necessidades.
Durante pelo menos um ano e nove meses, minha mãe foi, nas palavras que ela escolheu para definir sua situação em algum momento, viúva de um marido vivo.
“A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia de repente acaba”. É com essa frase, cortante e direta, que Joan Didion abre O Ano do Pensamento Mágico, um livro com o seu relato pessoal sobre o luto após a morte de John Gregory Dunne, seu companheiro por décadas, sem um mínimo sinal de alerta, na mesa do jantar. Eu nunca havia lido nada de Didion antes disso, nem nos meus tempos de hiperfoco (ainda dá pra usar essa palavra sem parecer um bocó?) em New Journalism – lá pela metade final da faculdade, quando li tudo o que consegui ser capaz de Capote, Talese, Wolfe, Hunter Thompson e outros mais. Comecei logo com esse soco na cara. E, óbvio, pensei muito na minha mãe.
As situações não podiam ser mais diferentes: Didion foi pega de surpresa. Enquanto toda a preocupação se dirigia para a saúde de sua única filha, internada depois de sofrer uma pneumonia e um subsequente choque séptico, foi seu marido quem morreu. As coisas corriam de uma forma e, de repente, uma curva estreita e apertada, brusca, jogando seu corpo para outro lado, com violência.
Minha mãe foi poupada da surpresa. No lugar disso, viu seu companheiro de quarenta e tantos anos começar a ter dificuldades com a fala, depois com a locomoção, depois com o controle da bexiga… até finalmente se tornar um pacote magro de ossos frágeis e olhos assustados que tentava se mostrar presente por meio de piscadas, mover de sobrancelhas e curtos e baixos gemidos.
John morreu de repente. Meu pai, a conta-gotas.
Em comum, o luto, a ausência, a casa vazia, o silêncio, o eco das lembranças e dos “e se”.
Se Didion chegou a acreditar que seus pensamentos e pequenos rituais cotidianos poderiam, de alguma forma, reverter sua perda, minha mãe já havia aceitado que seu marido, embora tenha continuado presente por um tempo que pareceu desafiar os limites do sofrimento, já não estava mais ali, jamais estaria novamente. Só que essa aceitação e a consciência, intermitente, de que era ela quem precisava voltar, e não meu pai, não foi capaz de impedir o choro, em ondas, pelos dias e semanas seguintes.
“Eu não conseguia dar os sapatos dele. Eu sentia que, se ele voltasse, precisaria de sapatos.”
Minha mãe quis se livrar da maca, que ocupou a sala de casa por meses, o símbolo maior da falência física de meu pai, o mais rápido possível. Um dia depois do velório e a presença dela já parecia uma eternidade. E ainda demoraria mais uns dias. As roupas no armário demoraram mais umas semanas, mas algum tempo depois, minha mãe confessou que havia guardado algumas peças, e que, às vezes, as abraçava e levava ao rosto para sentir de novo o cheiro do meu pai.
Quando minha mãe, ou minha irmã, já não me lembro, me mandou mensagem quatro dias antes daquela noite de 24 de junho de 2025, contando que meu pai havia sido internado, eu já sabia o que esperar, e esperava que não demorasse. Meu pai, meu pai mesmo, já havia partido. E quem havia ficado em seu lugar precisava e merecia descansar.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
