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Destaques Álbuns Nacionais – 2025

 

 

 

Nossa lista de destaques em discos nacionais de 2025 não tem escala de melhor para pior. Usamos aqui a mesma régua de avaliação da categoria discos internacionais, ou seja, procuramos os álbuns que não ficarão restritos ao ano de 2025. Queremos aqueles que têm condições de permanecer. Acreditamos que essa é a última fronteira que separa as obras de arte que realmente importam – a capacidade de ficar na lembrança das pessoas, mesmo com tanta distração, rapidez e multiplicidade de novos e rasos trabalhos. A boa notícia é que continuam a existir obras que desafiam o tempo e que se dispõem a ultrapassar modismos e maneirismos.

 

Separamos 25 álbuns que consideramos capazes desse desafio, mas, entre eles, um se destaca de forma absoluta. “Mateus Aleluia”, lançado pelo veteraníssimo e venerável cantor e compositor baiano, ex-líder do grupo Tincoãs, é uma obra que poderia ser lançada no meio do século 20. Ou no início do século 23. É um trabalho sublime, impressionante, o melhor que Mateus lançou em toda a sua carreira e isso acontece, não só por sua voz – que mais parece a voz do Tempo – mas pelas escolhas estéticas adotadas aqui. As percussões afrobaianas saem do foco e entram violões e cordas, que promovem uma incursão por caminhos imemorais da música brasileira em sua matriz mais negra e atlântica. É um paralelo ao blues americano, mas sem qualquer traço de sentimos, digamos, impuros. O que Mateus coloca em jogo é uma música belíssima, ancestral, sem pressa para terminar, que proporciona a fusão de faixas em longos medleys que parecem afagar e consolar o ouvinte, dizendo que tudo vai dar certo no fim. A beleza de canções como “No Amor Não Mando” ou de pot-pourris como “Doce Sacrifício/Filho/Acalanto” é profunda e inapelável. Este é um álbum que tem potencial de se tornar um clássico da música brasileira. Bem, para nós, ele já nasceu assim.

 

Outros veteranos também se destacaram: Azymuth, com “Marca Passo”, e Djavan, com “Improviso”, conseguiram lançar belíssimos discos, totalmente inseridos dentro da grandeza de suas trajetórias importantíssimas. Além de reafirmar seus estilos, esses dois álbuns comprovam essa longevidade relevante que a gente insiste em buscar. Além dos veteranos, gente nova fez muito bonito nesse ano que passou. Quer dizer, gente não tão nova, já com experiência de sobra nos circuitos da música independente nacional, caso, por exemplo, do Harmada, grupo carioca dos anos 2000, com o sensacional Manoel Magalhães à frente, lançou “Os Fugitivos” e reafirmou sua capacidade de misturar sonoridades com guitarras e letras muito além da média. Com eles, o Disstantes, trio fluminense formado por Gilber T, Homobono e DJ Feres, volta com “Cybertropico”, uma pororoca ritmica e verborrágica que mistura Feira de Acari, ônibus lotado parado na Ponte Rio-Niterói e crônicas da Serra Grajaú-Jacarepaguá engarrafada no meio da enchente. Tudo é relevante, cáustico, irresistível e com beats de baixo impacto, num pan-rock pós-tudo, irresistível e moderníssimo.

 

E, junto com eles, mais vários artistas importantes. De Lenine a Zé Ibarra. De Alan James a terraplana, com destaque também para o último registro do saudoso Lô Borges, junto a Zeca Baleiro, no bom álbum “Chão de Giz”, passando pelas colaborações do americano Adrian Younge com ícones da música soul brasileira, a saber, Hyldon e Carlos Dafé, que entraram em estúdio para trabalhos inéditos com a chancela do produtor ianque. Ele também esteve presente com a ótima cantora (e humorista) Samantha Schmutz, num dos belos álbuns deste ano – “Samantha e Adrian”, um tesouro da música negra nacional que pouca gente ficou sabendo.

 

Estas são as nossas escolham. Ouçam, passem adiante, comentem. E prestigiem esses artistas que insistem em durar pra sempre.

 

 

Mateus Aleluia – Mateus Aleluia
Azymuth – Marca Passo
Djavan – Improviso
Harmada – Os Fugitivos
Disstantes – Cybertrópico
Samantha Schmutz e Adrian Younge – Samantha & Adrian
Zé Ibarra – AFIM
Luedji Luna – Antes Que A Terra Acabe
Alberto Continentino – Coração a Mil e o Corpo Lento
Vanessa da Mata – Todas Elas
Tagua Tagua – Raio
Catto – Caminhos Selvagens
Alan James – Solar/Sonhar
Arnaldo Antunes – Novo Mundo
Lenine – Eita
Pélico e Ronaldo Bastos – A Universa Me Sorriu
Wado – Obstrução Samba
Terno Rei – Nenhuma Estrela
Vanguart – A Vida é Um Trem Cheio de Gente Dizendo Tchau
Teago Oliveira – Canções do Velho Mundo
terraplana – natural
Karnak – Karnak Mesozoico
Lô Borges e Zeca Baleiro – Chão de Giz
Carlos Dafé e Adrian Younge – Jazz Is Dead O25
Hyldon e Adrian Younge – Jazz Is Dead 023

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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