Ryan Adams: lutando contra o cancelamento

 

 

 

Ryan Adams – Chris

Gênero: Rock alternativo

Duração: 55:31 min
Faixas: 18
Produção: Ryan Adams
Gravadora: Pax Am

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

“Chris” é o décimo-oitavo álbum da carreira de Ryan Adams. Segundo consta, ele é o terceiro capítulo de uma trilogia iniciada em 2020, com o lançamento de “Wednesdays” e complementada pela chegada de “Big Colors”, no ano seguinte. Os três trabalhos estavam previstos para lançamento em 2019, mas as acusações de assédio moral e sexual feitas por cantoras, não comprovadas pela polícia, levaram Adams ao status de “cancelado”. Até a investigação sobre o suposto envolvimento dele com uma fã menor de idade também foi arquivada, mas o estrago na imagem do sujeito já estava feito. Uma turnê pelo Reino Unido foi cancelada e um bloqueio da imprensa especializada foi iniciado, fazendo com que Adams não tivesse outra escolha a não ser dar vazão à tal trilogia, que, como dissemos, foi lançada nos anos seguintes. Conhecido por ser prolífico na arte da composição e gravação, Ryan Adams entrega agora um disco que tem 18 canções e que, além de encerrar a trilogia, homenageia seu irmão, Chris, que morreu em 2017, por conta de problemas com o câncer. Poderíamos então dizer que “Chris”, o álbum, é muito mais um acerto de contas do que um lançamento musical.

 

Ryan Adams não parece um cara que se abalou com a situação que viveu nos últimos tempos. Isolado e cancelado, ele precisou muito de sua base de fãs para manter-se ativo e podemos dizer que foram eles, se comunicando direto com o cantor e comparecendo aos poucos shows que ele conseguiu marcar nos últimos anos – seja pelo cancelamento, seja pela pandemia – que mantiveram Ryan presente. E mais: deram a ele a força necessária para seguir compondo e gravando. A questão ainda é complexa, o que fez “Chris” nascer, de surpresa, como um lançamento digital. Na semana passada, o site do cantor abriu para a opção de download pago e hoje, dia 01 de abril, o disco chega aos serviços de streaming, sem qualquer perspectiva de lançamento físico, seja CD, seja LP, muito por conta de Adams não ter conseguido um selo interessado em distribuir seu trabalho. Nenhuma dessas questões extra-musicais compromete a excelência do trabalho, que, não só remonta ao início da carreira de Ryan, como o conecta definitivamente a artistas dos anos 1980, como Bruce Springsteen, Bryan Adams e John Mellencamp, como inspirações muito nítidas nas composições que estão neste novo disco. Ryan sempre foi um herdeiro desses caras, mas tinha pequenas contas a quitar com o punk rock e o indie rock oitentista. Em “Chris”, a balança pende mais para o alt rock, que consagrou o sujeito quando ele ainda estava no Whiskeytown, mas não esquece de saudar essas influências mais manjadas.

 

O mais interessante neste novo disco é que, ainda que sejam 18 canções boas ou muito boas. O nível de composição, execução e arranjo é altíssimo e Ryan aparece totalmente à vontade. E só agora, três anos depois das acusações, ele consegue anunciar shows em lugares como o Carnegie Hall e o Beacon Theater, ambos em Nova York, e no Boch Center, em Boston, todos no próximo mês de maio. Foi neste clima de ressurreição que “Chris” foi lançado. É bom que se diga novamente – “Chris”, não só é melhor que os dois álbuns anteriores da tal trilogia, como é um dos melhores trabalhos de toda a carreira de Adams. Fica evidente no percurso de 55 minutos do álbum o quanto Ryan bom cantor e compositor. O sujeito comanda suas ações, tem total controle e segue capaz de criar pequenos épicos cotidianos sobre o americano branco de classe média, razoavelmente esclarecido e, vá lá, progressista. “Chris” é alt country no sentido “rock” do termo, de expor suas raízes oitentistas e avançar nos diálogos delas com o rock mais clássico, com o punk e com influências inglesas, no caso de Adams, de The Smiths e de Morrissey solo, não importando se há novidades estéticas por aqui. No caso de Ryan, o melhor é ele conseguir domá-las, fazê-las funcionar a seu favor, de forma objetiva.

 

A faixa-título, “Chris”, é uma que realmente rasga o coração. É dolorosamente pensativa e introspectiva sobre a natureza da amizade e a falta de alguém quando se vai. Quando Ryan diz: “em algum lugar há uma festa cantando parabéns para você todas as noites, parabéns Chris”, a dimensão da perda do irmão se torna ainda maior por ser algo que pode acontecer com qualquer pessoa, a qualquer hora. Além dela, “Still a Cage”, “Moving Target”, “Take it Back”, “Crooked Shake”, “Schizophrenic Babylon” , todas têm algo a dizer, em meio a arranjos que enfatizam guitarras e pianos. “Crooked Shake” é uma das mais belas presentes no álbum, cheia de camadas de guitarras o arranjo de cordas para “Was I Wrong” promove uma mudança sonora lá pelo meio do disco. Os vocais de Ryan Adams são mais frágeis durante o delicado violão de “I Got Lost”, enquanto os anos 1980 dizem “presente” durante “About Time”. “Say What You Said” tem o selo de melancolia de Ryan Adams em todas as suas guitarras de reverberação, e uma gaita é adicionada na mistura da animada “Lookout”. As guitarras explosivas de “Spinning Wheel” adicionam um sabor de country alternativo que surge naturalmente. O lançamento digital no site de Adams tem uma faixa-bônus, “Don’t Follow”, na qual ele chega a encarnar tiques e taques de … Bon Jovi, mas até isso soa adequado no exorcismo que é “Chris”.

 

Tomara que este álbum sirva para cancelar o cancelamento a Ryan Adams e o recoloque no trilho em que estava, ganhando elogios de gente como Elton John e Taylor Swift, entre outros, lotando shows e produzindo compulsivamente. Ele e nós merecemos.

 

Ouça primeiro: o disco todo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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