2020 e o futuro do pretérito

 

Chegamos ao fim de mais um ano com a sensação de que o futuro não é o que esperávamos. Lembro de um desenho animado chamado “Laboratório Submarino”, cujo título original era “Sealab 2020”. Ele passava nas tardes da Bandeirantes e mostrava fatos que ocorriam numa instalação sob as águas do Atlântico, na qual a Humanidade desenvolvia projetos energéticos e explorava o fundo do mar em busca de novas tecnologias e desenvolvimento. Uma voz anunciava: “estamos no ano de 2020. A Humanidade explora o fundo do mar e blá blá blá”. Eu via, com oito, nove anos, e ansiava pela chegada do futuro. E pensava: poxa, vou ter quase 50 anos em 2020, vou estar velho, mas vou ver tudo isso.

 

Pois é. Estamos aqui. Cadê laboratório submarino? Cadê Humanidade com “H” maiúsculo, em busca do desenvolvimento sustentável? Cadê tudo isso? Cadê os carros voadores e as pessoas morando na Lua? Vocês não têm a sensação de que o futuro não é mais como era antigamente, para usar a frase tão bem cunhada pelo Renato Russo? Pois esta percepção do tempo – através dos tempos – é o meu objeto de fascinação dentro do estudo da História. Eu achei que era a música – ela é, mas vem atrás disso – e a política do século 20 – que vem em terceiro lugar. Mas a percepção do tempo é o que dá sentido a tudo isso. É o próprio estudo da História, é, por assim dizer, tudo.

 

O que pode parecer confuso pra vocês é que a própria percepção que temos do tempo…muda com o tempo. Eu explico: quando vivíamos no fim do século 18, em tempos de Revolução Francesa, a noção de tempo era contínua e desprovida de uma ideia de futuro. Com a entrada no século 19, essa ideia mudou – já vinha mudando aos poucos – mas se concretizou. Passamos a crer que o futuro era o resultado das vivências do passado e do presente e que ele se concretizaria como um fruto delas, como uma consequência delas e que seria a soma do que produzíssemos. Certo? Certo. Essa noção ultrapassou o século 19 e adentrou o século passado, fazendo total sentido. Até que vieram as duas guerras mundiais, a crise do capitalismo de 1929, o nazifascismo, a Guerra Fria e a noção de que, apesar de tudo o que pensávamos de bom para o futuro foi fruto de um pensamento que, simplesmente, se tornou insustentável.

 

Vou tentar explicar sem parecer uma aula. Os eventos mencionados acima foram provas da total incapacidade do ser humano de viver em harmonia. Guerras, matanças, holocausto, opressão, injustiça…tudo isso aconteceu no século 20. Al Pacino, interpretando o Diabo em “Advogado do Diabo”, diz, tentando convencer Keanu Reeves a passar para o seu lado: “como você vai negar que o século 20 foi todo meu?”. Pois é, ele tem razão. Estes eventos colocaram em xeque a nossa capacidade de esperar por um futuro próspero, pelo menos por aquele futuro idealizado no pós-Segunda Guerra: era o ápice de um capitalismo sem crise, generoso, inclusivo, que dominaria o mundo naturalmente e que possibilitaria o avanço tecnológico da coletividade e de todos, ao mesmo tempo, num só rumo.

 

Não rolou. O capitalismo sofreu uma terrível mutação chamada neoliberalismo, que erodiu os mecanismos de redução da desigualdade aguda – materializados no estado de bem estar social – tirou os governos do protagonismo político, aprofundou a crise econômica constante do mundo e, como efeitos colaterais, trouxe a crença de que só o consumo importa, de que nada deve se interpor entre o mercado e a sociedade e, mais ainda, mostrou que o poder do dinheiro é capaz de comprar tudo e todos.

 

Com isso, passamos do futuro Hanna-Barbera de “Sealab 2020” para o caos apocalíptico de filmes como “Elysium”, do diretor sul-africano Neil Blomkamp, no qual as pessoas trabalham até a morte numa Terra poluída, enquanto ricaços e poderosos vivem numa estação espacial luxuosa, com vida eterna e cheia de belezuras. É uma boa comparação do que esperávamos e do que temos.

 

Isso muda? – você perguntará.

 

Muda. Mas é preciso começar anteontem. Valorizando as pessoas e entendendo que as diferenças são o que temos de melhor. Entendendo que a sociedade é coletiva, mas desigual. Só vai prosperar de fato quando as pessoas estiverem em condições equânimes de estudo, emprego e prosperidade. Parece utopia, do mesmo jeito que o carro-foguete do George Jetson, mas é um fato cientificamente comprovado. Se não fossem as terríveis evidências que tivemos – e temos – sobre o presente, talvez tivéssemos um futuro muito melhor.

 

Feliz ano novo.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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