1986 – O Ano do Pagode

 

Muitas pessoas associam os anos 1980 ao surgimento do rock nacional numa versão, digamos, de mercado. Bandas e artistas em profusão, contratados por gravadoras multinacionais, fazendo shows pelo Brasil, plateias lotadas e vários discos memoráveis lançados. Não estarão erradas ao lembrar de Paralamas, Titãs, Legião, entre outros. Poucos, no entanto, vão se recordar de uma onda que veio do nada e se dispersou igualmente rápido. O surgimento do pagode oitentista, mais precisamente, em 1986. Artistas como Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Almir Guineto, Marquinhos Satã, vieram com força total e chegaram a vender na casa dos 100 mil discos naquele ano.

 

Lembro com nitidez quando me vi comprando um disco do Almir Guineto na saudosa Copadisco. Hoje este movimento é normal, o gosto musical médio está pautado pela pluralidade, o que é ótimo. Mas, em 1985/86, gostar de samba era algo impensável para quem ouvia rock. E vice versa. Havia uma segregação musical nítida, encorajada pela lógica da própria indústria fonográfica, que derramava nas emissoras de rádio FM. Era algo típico dos anos 1980, visto que, até o fim da década anterior, era fácil encontrar hits de samba na programação das rádios AM. Canções lindas como “Todo Menino é um Rei”, de Roberto Ribeiro; “Coisinha do Pai”, de Beth Carvalho, “Natureza”, de Leci Brandão, “Sufoco”, de Alcione, todos sucessos radiofônicos que eu lembro de escutar no carro da minha mãe ou do meu avô. Com a chegada das FMs versão 80, isso mudou e a programação se segmentou.

 

Demorou para um hit de samba dominar o país, mas ele veio com “Deixa eu te Amar”, de Agepê, em 1984. Era uma canção romântica, muito bem sucedida, mas isolada. Não dá pra compará-la ao que veio em 1986, a partir de iniciativa da gravadora RGE-Fermata, que lançou Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra com força e divulgação pesadas, levando “Judia de Mim”, um dos muitos sucessos da estreia fonográfica de Zeca à trilha sonora da novela global “Hipertensão”. Ele repetiria o feito em 1987, na trilha de outra produção da Globo, “Mandala”, com “Tempo de Don Don”. Zeca, nascido Jessé Gomes da Silva Filho, no subúrbio carioca do Irajá, era já bem conhecido nas rodas de samba de Del Castilho, outro recanto suburbano do Rio. Foi office boy e apontador do jogo do bicho e já em 1983 compunha com parceiros como Arlindo Cruz e Beto Sem Braço, seus parceiros na sensacional “Camarão que Dorme a Onda Leva”. Com ajuda de Beth Carvalho, ele lançou o primeiro disco e despontou como “uma nova cara no samba”.

 

O álbum chegou ao topo das paradas e trouxe, pelo menos, cinco hits. “SPC”, “Quando eu Contar (Iaiá)”, “Casal sem Vergonha”, “Judia de Mim” e “Brincadeira tem Hora”, todas em alta rotação. Não demorou para o disco figurar entre os mais levados para as festinhas do saudoso Colégio Santo Agostinho, apesar da resistência de alguns. O caminho do sucesso de Zeca foi aberto deste jeito, em pleno boom do rock nacional. Fato semelhante aconteceu com Almir Guineto, que já tinha carreira desde a década anterior, primeiro como instrumentista do grupo Originais do Samba, depois como compositor e intérprete. Ele fez sucesso nacional quando apareceu no Festival MPB-Shell, cantando “Mordomia” (vamos parar já com essa mordomia), em 1981. Ao mesmo tempo, Almir fundava o grupo Fundo de Quintal com outros compositores ligados a escolas de samba e blocos do subúrbio do Rio, estando ele mesmo vinculado ao Cacique de Ramos. “Coisinha do Pai”, por exemplo, sucesso na voz de Beth Carvalho, é dele e foi a primeira música a tocar no planeta Marte, mas aí é outra história.

 

Guineto participou do primeiro disco do Fundo de Quintal mas entrou em carreira solo em 1985, também contratado da RGE. Seu segundo álbum, do ano seguinte, fez sucesso similar à estreia de Zeca Pagodinho, especialmente pela primeira faixa, “Caxambu”, um “samba-jongo” irresistível, outro hit fácil nas festinhas agostinianas de então. Não por acaso, ele foi o meu escolhido para figurar na discoteca essencialmente roqueira que eu já mantinha à época. Além de “Caxambu”, o álbum de Almir tinha “Mel na Boca” e “Lama nas Ruas” (parceria dele com Zeca Pagodinho), outros sambas belíssimos. Com uma carreira errática e marcada por excessos, Almir ficou doente e faleceu em 2017.

 

Jovelina Pérola Negra foi a estrela dessa onda pagodeira oitentista. Também faleceu cedo, em 1998, aos 54 anos, vítima de infarto. Entre 1985 e 1987, ela foi figurinha fácil nos programas de auditório, especialmente no Cassino do Chacrinha – no qual Zeca e Almir iam também com frequência – para apresentar hits como “Feirinha da Pavuna”, “Bagaço da Laranja” (gravada em dueto com Zeca Pagodinho) ou “Luz do Repente”. Ela tinha uma voz forte e rouca e presença de palco forte.

 

Junto com estes três artistas principais, houve mais gente dando as caras naquele ano de 1986. Alguns artistas já eram veteranos da cena do samba carioca, mas tiveram sua projeção consideravelmente aumentada. Este é o caso do sensacional Bezerra da Silva, que já vinha desde a virada dos anos 1960/70 na luta. Seu 12º disco, “Alô Malandragem, Maloca o Flagrante”, estourou com força nas paradas. A maravilhosa “Malandragem dá um Tempo” se tornou uma espécie de hino da contravenção, enquanto “Defunto Grampeado” falava sobre um velório no qual o morto dedura os comparsas envolvidos em alguma ação criminosa supostamente bem sucedida. Bezerra consagrou um estilo conectado com essa mitologia do carioca malandro, mesmo ele sendo oriundo da Paraíba. Outro veterano a ser projetado na época foi Gracia do Salgueiro, que já era compositor e intérprete desde o fim dos anos 1950, tendo, inclusive, cravado alguns sucessos como “1800 Colinas”, na voz de Beth Carvalho, em 1974. Nada, no entanto, se comparou ao brilhantismo da sua “Pagode do Gago”, que tinha o irresistível refrão “toma mais um limão, qui-qui-qui-qui-qui-qui você fica bão”, lançada naquele 1986.

 

Junto com esses veteranos, novos nomes também fizeram sucesso. Gente como Marquinhos Satã, cujo nome artístico dificilmente teria projeção hoje, foi um dos grandes vendedores de disco daquele ano. Sua sensacional “Me Engana Que Eu Gosto” virou expressão idiomática na voz do povo e o consagrou, ainda que em menor escala. Também teve Reinaldo, que, com o tempo, ganhou a alcunha de Príncipe do Pagode, com “Minha Musa”, que, apesar da letra machista, tornou-se hit e até rimava “musa” com “aquela canção do Cazuza”, mostrando que este samba moderno era antenado e capaz de enxergar-se como um gênero competitivo. Beth Carvalho, Alcione e Leci Brandão, já estabelecidas desde os anos 1970, aproveitaram a boa fase do samba e continuaram como estrelas do gênero musical.

 

Dessa onda pagodeira de 1986, Zeca, certamente, é o maior representante. Sua carreira solidificou-se e ele se transformou num artista brasileiro de primeiro time, lotando espaços por onde vai. Em 1987 ele lançaria aquele que talvez é seu melhor disco: “Patota de Cosme”, cuja capa mostra o cantor ao lado de vários meninos da comunidade da Mangueira. Em passagem recente pelo programa O Som do Vinil, apresentado por Charles Gavin, no Canal Brasil, Zeca, ao olhar a capa, emocionou-se e disse: “é duro olhar pra essa foto e saber que vários aqui já morreram”. Ele mantém uma escola onde várias crianças carentes recebem ensinamentos musicais em Xerém, distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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