Uma vida em 67 segundos

 

 

Minha relação com os Beatles é estranha. Eu os amo e reconheço como fundadores do que entendemos por “música pop”. Suas criações ainda estão intactas diante do avanço inexorável do tempo e, por mais que se alterem os padrões tecnológicos e estéticos, talvez seja preciso uma profunda modificação na sociedade humana como nós a conhecemos para que elas percam sentido e efeito. E, falando em tecnologia, com o acesso irrestrito às canções e álbuns, com as possibilidades infinitas de armazenamento físico e virtual, a tendência é que elas permaneçam por aí, gerando sentido e significados.

 

 

Como eu dizia, a relação com eles é estranha. Talvez por saber que eles sempre estarão aí, passo grandes períodos da vida sem ouvi-los, pensando que já sei o que preciso saber sobre suas canções e isso, claro, é um engano terrível de minha parte. Talvez essa relação errática gere alguns frutos, como, por exemplo, achar que uma canção relativamente obscura como “Dear Prudence”, de 1968, é a minha atual gravação preferida dos Beatles. Ou pensar que meu beatle preferido é John Lennon e não Paul McCartney, como sempre foi. Algumas coisas, no entanto, não mudam na minha relação com os Fab Four. Eles me ensinaram muita coisa, de forma até involuntária, como, por exemplo, ver minha mãe chorando pela primeira vez, no distante 8 de dezembro de 1980, quando soube que John tinha morrido. Vê-la em prantos, com dez anos de idade, me deu uma dimensão precisa da finitude da vida e da vulnerabilidade total das pessoas. Minha mãe, até então indestrutível, bondosa nas horas certas e dura nas horas igualmente certas, se desfez em lágrimas diante dos meus olhos. Eu chorei também, claro, mais de medo do que por qualquer outro motivo. Talvez por isso eu tenha demorado  mais algum tempo para me apaixonar pela obra deles, o que aconteceria lá pelos doze, treze anos de idade, um amor que vem até hoje.

 

 

Outros dois fatores imutáveis entre os Beatles e eu: a certeza de que “Abbey Road”, seu último registro em estúdio, é meu disco preferido dentre os que fizeram, num páreo que também tem o “Álbum Branco” e “Revolver”; e a noção exata de que amo uma de suas criações mais do que a própria vida, ou, melhor dizendo, seus últimos 67 segundos de duração: “All You Need Is Love”. Via de regra, este final, esta coda, me fazem chorar incontidamente. Não é tristeza, longe disso, é aquele pranto de beleza, de contemplação, de uma sensibilidade extrema que é despertada automaticamente. Absolutamente tudo o que está contido nesses 67 segundos é, com o perdão do trocadilho, o que precisamos para entender o mundo com suas justiças e injustiças. Ali, naquele fim de canção, está a minha vida passada e vindoura, minha família, meus amigos, amigas, esposas, bichos de estimação, casas, tudo o que tive, mantive, perdi e vou perder e ganhar. Pode ser – talvez seja – um enorme exagero, mas é como me sinto há tempos.

 

 

Eu sempre gostei de “All You Need Is Love”. É impossível não amá-la. Ela foi criada especialmente para o especial da BBC “Our World”, uma das primeiras transmissões ao vivo, via satélite, da história, composta por entrevistas, números musicais com Leonard Bernstein, participação do artista espanhol Joan Miró e os Beatles, encerrando a transmissão com pompa e circunstância. Para coroar sua aparição no especial – que teve público recorde de 350 milhões de espectadores ao redor do planeta em 25 de junho de 1967 – foi apresentada uma canção inédita, escrita em separado por Paul e John cerca de duas semanas antes. O fã mais ardoroso da banda já terá notado que o especial foi ao ar quase um mês após o lançamento do impressionante “Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, o que explica o arranjo e a aura que “All You Need Is Love” ostenta com tanto orgulho. De fato, todo aquele clima fantástico erguido em Abbey Road por John, Paul, George, Ringo e o produtor, George Martin, ainda estava, digamos, fresco na cabeça dos envolvidos e isso está explícito no resultado. Para a composição, os cinco foram “brifados”: era preciso falar de um tema comum a todas as pessoas do planeta, motivo pelo qual John e Paul escolheram o amor, em plena aurora do Flower Power e do Verão do Amor, que viria até o fim daquele ano. Deu no que deu.

 

 

Não vou perder tempo falando da gravação, do especial e da aparição dos Beatles. “All You Need Is Love” é como a Monalisa, todo mundo conhece e, caso exista alguém desinformado a seu respeito, essa pessoa tem um problema sério para resolver. Quem já ouviu a canção, que tem três minutos e cinquenta segundos de duração, sabe que há algumas citações de outros artistas. Para começar, temos o hino nacional francês na abertura, “A Marselhesa”, uma canção de trabalhadores que foi ressignificada em tempos de Revolução Francesa. As outras estão todas contidas nos tais 67 segundos dos quais estamos falando aqui. George Martin declarou à época que, “no final, os rapazes quiseram aloprar na canção” (tradução livre minha) e o resultado é uma espécie de Santo Sudário da canção popular planetária do século 20. Em meio à repetição de “love is all you need”, espraiam-se pela paisagem sonora trechos de “Greensleeves”, que é uma canção folclórica tradicional inglesa, datada de 1580; “Invention No. 8 in F major (BWV 779)”, de J. S. Bach e de “In the Mood”, do compositor americano e band leader, Glenn Miller, de 1939. Além delas, devidamente colocadas ao lado destas obras imortais da humanidade, estão “Yesterday” e “She Loves You”.

 

 

A citação da primeira vem apenas na menção de seu título, mas a segunda tem seu refrão cantado por John Lennon a plenos pulmões e aí começa a verdadeira revolução. Um olhar mais atento irá ponderar que “She Loves You”, sucesso planetário dos Beatles, fora gravada apenas quatro anos antes. Como era possível que a mesma banda, com os mesmos integrantes, estivessem compondo e registrando uma canção tão diferente como “All You Need Is Love” cerca de 1200 dias depois? Esse mistério insondável sempre me visitou e encantou em doses iguais, até que, ao terminar o Mestrado em História, me dei conta da relatividade da percepção do tempo e de como isso influencia nas nossas vidas. Quatro anos é tempo suficiente para mudarmos, seja para um ponto mais desenvolvido da existência, seja para um lugar menos iluminado, dependendo do que acontece conosco nesse intervalo. No caso do próprio planeta Terra, a década de 1960, como era conhecida, já não existia mais por conta do acirramento do confronto no Vietnã, pela iminente explosão dos movimentos estudantis que resultaria no maio de 1968 francês e, logo após, na violenta reação do sistema, que feriu de morte os ideais progressistas daquele espaço de tempo. No caso dos Beatles, havia o sucesso, a fama, a liberdade criativa e artística a plenos pulmões, sem falar no mais precioso bem possível – o pioneirismo. Eles estavam, literalmente, criando algo novo, moldando, burilando. Há um abismo de coisas entre “She Loves You” e “All You Need Is Love”, mas a maior mágica de todas, talvez involuntária, foi juntá-las numa nova situação, como o especial planetário da BBC. Ali, ao mesmo tempo – o tempo é a chave aqui – ambas existiram juntas, intrínsecas porque, até 2006, não havia como ouvir “All You Need Is Love” sem a citação ao “velho” sucesso do passado.

 

 

Digo “até 2006” porque, neste ano, foi lançado “Love”, o álbum com canções dos Beatles reimaginadas a ponto de servirem como trilha sonora do especial homônimo, concebido pelo Cirque de Soléil. Minha primeira reação foi de horror total, como se alguém passasse um marcador de textos na testa da Monalisa, especialmente porque, em meio a mashups mais e menos inspirados, havia a releitura de “All You Need Is Love”, amputada de seus 67 segundos mágicos do final, substituídos por citações de “Get Back”, “Ticket To Ride”, “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (a canção) e um trecho grande de “Good Night”, canção que os Beatles gravaram em 1968, no “Álbum Branco”. Com o tempo, entendi que o mesmo mecanismo que John usou com “She Loves You” se aplicava à versão de “Love” e compreendi o sentido novo gerado. Com a fala de John em “Good Night”, na qual deseja boa noite a todos, a canção ganha uma dimensão de sonho, de vontade inata, porém quase impossível, dada a dificuldade do ser humano viver em harmonia, seja em 1967, seja hoje, seja em toda a história.

 

 

A emoção de “All You Need Is Love”, que virou mote hippie irreal, ingênua, falsa e tudo mais, é que, como dissemos, por mais que ela seja fantasiosa e virtualmente impossível, não foi carcomida pelo pragmatismo dos nossos dias. Pelo contrário, ela segue firme. É como se fosse uma utopia de bolso, permanente, perene, acessível e que vai em frente. Quando digo que uma vida inteira passa nesses 67 segundos do final da versão original de 1967, é porque, naquele ano, eu não era nem nascido, minha mãe não conhecera meu pai e tudo permanecia como uma página em branco do destino, ainda por ser escrita. O tempo fez o resto e, se tudo der certo, ainda tornará a letra da canção uma inatacável verdade. Por mais ingênuo que seja desejar isso em pleno 2023.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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