Uma geral nos tributos dos anos 1990

 

Quem comprava discos nos anos 1990 há de lembrar com carinho dos tributos. Não me refiro às taxações estatais, claro, mas sim aos álbuns, que começaram a pipocar naquela década, fazendo homenagem a artistas de todos os tipos. John Lennon, Kiss, Led Zeppelin, Carpenters, Fleetwood Mac, Carole King, The Police, Bob Marley, o escopo de gente homenageada era amplo e abrangente. Quem gosta de música pop sabe que a versão, o cover, são expedientes infalíveis. Se eles são bons, entram pra história. Se são péssimos, viram lenda urbana, figurando no imaginário do artista homenageado e do pobre que se meteu a subverter o clássico imaculado. Para o bem e para o mal, os tributos surgidos nos 1990’s eram interessantes e, por mais que fossem artifícios comerciais das gravadoras – o que não é, gente? – eram desejáveis.

 

Por essas e por outras, resolvemos dar uma garimpada nos tributos mais conhecidos e resgatar algumas versões que fizeram bonito diante de clássicos imaculados. Deixamos os momentos péssimos – creiam, há vários – de lado porque o mundo já está cheio de maus bocados, certo? Dê uma olhada na listinha abaixo e procure pelos discos em sebos, não deve ser muito complexo encontrar um ou outro. Se achar o “The Bridge”, em honra ao Neil Young, me avise porque eu jamais vi este disco à venda, mas tive a chance de alugá-lo na colossal Video Game Center, no recanto tijucano, nos idos de 1992/93.

 

 

Rod Stewart – So Far Away – faixa presente em “Tapestry Revisited”, um tributo ao álbum clássico de Carole King, lançado em 1995. O original de Carole é uma das mais bem sucedidas incursões de um artista no terreno do pop, captando com sensibilidade a mudança nos ventos da juventude americana no rescaldo do flower power, em 1971. O tributo é fraco, com um grande número de versões que ficam milhas aquém dos originais, mas a presença de Rod Stewart, mesmo que em sua variante baladeira com um pé no brega, salva a pele justo de “So Far Away”, um dos standards de “Tapestry”. A versão é ok, mas é a melhor coisa deste tributo.

 

 

Cranberries – Go Your Own Way – faixa presente em “Legacy – A Tribute To Fleetwood Mac’s Rumours”, que ganhou as prateleiras planetárias em 1998, já meio fora da época de ouro dos tributos. Como o nome diz, é uma releitura do álbum clássico que o Big Mac lançou em 1977, o mais popular de sua carreira. Em meio a regravações meia boca e sem noção, surge a versão dos irlandeses do Cranberries, ainda com fôlego e relevância criativa em alta. Os vocais de Dolores O’Riordan e o bom instrumental do grupo seguram a onda com a clássica “Go Your Own Way”, certamente o ponto alto desta tributação.

 

 

Sponge – Speed Racer – como não se emocionar com esta versão pesadinha do tema clássico do corredor das manhãs e tardes televisivas? Presente em “Saturday Morning Cartooons”, um tributão a vários temas de desenhos animados do passado, lançado em 1995 e levado a cabo por vários artistas alternativos da época, a releitura do Sponge, uma bandeca meia boca, surgida em meio ao boom grunge noventista, é o grande destaque, ainda que viessem correndo por fora gente de respeito como Violent Femmes e os laureados Ramones.

 

Toad The Wet Sprocket – Rock’n’Roll All Nite – faixa integrante de “Kiss My Ass: Classic Kiss Regrooved”, lançado em 1994, certamente foi a versão mais odiada pelos fãs da veterana banda mascarada. Isso porque o Toad The Wet Sprocket, talentoso grupo pop- alternativo-folk surgido nos anos 1990, teve a coragem de fazer do standard festeiro do Kiss uma balada folk com violões e órgão. Metaleiros cuspiram, mas Gene Simmons, a lenda, saiu em defesa da versão e honrou a lei dourada das covers: faça uma cover como se o original fosse seu. Do contrário, pra que imitar o que já foi feito? Ponto pro Toad, uma banda que merece ser redescoberta.

 

 

Sonic Youth – Computer Age – presente em “The Bridge – A Tribute to Neil Young” (1989), no qual estão, além dos novaiorquinos, gente como Flaming Lips, Nick Cave, Dinosaur Jr, entre outros. A versão do Sonic Youth é na onda do que a banda fazia na época, ou seja, do seu período de abraço à melodia e flerte estético justo com o que o véio canadense fazia em seus momentos de maior fúria. “Computer Age”, originalmente de “Trans”, disco eletrônico de Young, é vertida para o mood alternativo, guitarreiro, punk largadão mas de olho na arte, que o Sonic Youth sempre desempenhou com brilho.

 

Redd Kross – Yesterday Once More – melhor canção presente em “If I Were A Carpenter”, tributo aos irmãos Richard e Karen Carpenter, que surgiu em 1994 com um who’s who do rock alternativo anglo-americano da época. O que é bacana na versão que o Redd Kross faz aqui é o equilíbrio perfeito entre a doçura do original e a própria versão que a banda faz do powerpop, um estilo que prima justamente pela dosagem entre melodia e guitarras. O resultado é perfeito, um acerto no alvo, num álbum muito coeso, que ainda tinha Sonic Youth, Cranberries e outros bichos.

 

Grant Lee Buffalo – We’ve Only Just Begun – a segunda melhor faixa de “If I Were A Carpenter” é esta releitura que o grupo californiano faz de outro clássico carpinteiro de outros tempos. Tudo o que Grant Lee Phillips cantasse naquele tempo virava ouro e não é diferente nesta versão linda e meio sombria. Uma belezura dourada.

 

Steel Pulse – Can’t Stand Losing You – faixa do interessante tributo reggae ao The Police, “Reggatta Mondatta”, lançado em 1997. Como o título já fala, o disco traz luminares do reggae anglo-caribenho em versões roots de clássicos policiais que, por sua vez, já traziam o DNA jamaicano em seu cerne. Mesmo que seja uma estranha via de mão invertida, as versões falam por si, com destaque absoluto para o imaculado Steel Pulse se apropriando de um dos melhores standards de Sting e cia.

 

 

Sponge – Isolation – outra participação do Sponge, desta vez em “Working Class Hero – A Tribute To John Lennon”, no qual várias canções do beatle são relidas e reempacotadas. Esta versão grunge de “Isolation”, uma das canções mais sombrias de Lennon, é bem interessante e funciona muito bem como retrato de seu tempo. Lançado em 1996, o tributo ainda trazia Red Hot Chili Peppers, Flaming Lips e até George Clinton.

 

 

Maná – Fool In The Rain – de longe a versão mais ousada presente em “Encomium – A Tribute to Led Zeppelin “, que veio às prateleiras em 1995. O grupo mexicano Maná, então desconhecido aqui, abre a versão lançada para a América Latina do disco e se mete a cantar “Fool In The Rain” em espanhol, com um desempenho impressionante do baterista Alex “The Animal” Martinez, que, se não faz algo no mesmo nível de John Bonhan – nem poderia – não deixa pedra sobre pedra. Como se não bastasse, o ritmo latino presente no original é anabolizado por um clima de festa mariachi irresistível, que toma conta de tudo no fim. Uma porrada que fãs puristas do Led Zeppelin odiaram. Azar o deles.

 

 

Stone Temple Pilots – Dancing Days – outra faixa de “Encomium”, dessa vez com o ótimo STP fazendo releitura acústica de um clássico pop do Led Zeppelin, presente originalmente em seu álbum “Houses Of The Holy”, de 1973. O andamento e a estrutura do original não são mexidas, o que ressalta ainda mais a presença de Scott Weiland, um vocalista muito além da mesmice de seu tempo. Uma versão que sobreviveu ao tempo.

 

Guru – Johnny Was – faixa de “Chant Down Babylon”, disco em que vários artistas do rap/hip hop fazem versões remixadas de sucessos de Bob Marley, dividindo os vocais com o ídolo jamaicano máximo. Lançado em 1999, este tributo meio espiritual teve resultados bem fracos, com algumas faixas muito equivocadas. A maior exceção é a releitura que Guru faz desta canção, originalmente gravada por Bob e os Wailers em 1976, no álbum “Rastaman Vibration”.

 

Aswad – Roxanne – outra releitura presente em “Reggatta Mondatta”, o tributo roots-reggae ao Police. Agora é outra banda soberana de reggae, o Aswad, que se apropria de um clássico policeano/stingueano, no caso, “Roxanne”, originalmente presente na estreia do trio inglês, “Outlandos D’Amour”, de 1978.

 

 

Ramones – Spider Man – e o que dizer da famosa releitura dos Ramones para o tema clássico de “Spider Man”? Sim, ela surgiu pela primeira vez em “Saturday Morning Cartoons”, o tal tributo a canções de desenhos animados clássicos. O resultado é tão bacana que até os filmes que a Marvel fez do Aranha se apropriaram da versão.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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