Um Abraço em Adam Schlesinger

 

 

Estou devastado com a notícia da morte de Adam Schlesinger. Foi ontem de manhã, em Nova York, por conta de covid-19. Por cerca de uma semana, Adam sofreu num hospital da cidade até partir, aos 52 anos de idade. O fã mais atento à obra dele está inconsolável. Os neófitos e admiradores mais casuais da música pop talvez não estejam ligando o nome à pessoa e a ideia deste texto é tentar conectar o enorme talento de Adam ao seu cotidiano musical. Ou, quem sabe, te mostrar um novo – e discreto – herói das suas canções mais queridas, até porque – tenho certeza – você o conhece de, provavelmente, duas canções: “That Thing You Do”, da trilha sonora de “The Wonders – O Sonho Acabou” e “Way Back Into Love”, de “Letra e Música. Abaixo estão os clipes para você dizer um “ah, nossa, não sabia que essa música era dele!!!”.

 

 

Eu também conheci a música de Adam através da trilha de The Wonders. O filme – estreia de Tom Hanks na direção – é tão legal e delicioso como um milkshake crocante grande do Bob’s. Talvez seu maior mérito seja o de não querer ser mais que isso, uma desavergonhada matinê sobre o início do rock sessentista americano, as idas e vindas, os ritos de passagem e a presença de Liv Tyler, entre a miragem e o senho, aqui e ali. A música, no entanto, é melhor que o filme. As canções são infecciosas, grudentas, feitas sob medida para que o ouvinte as ame. E isso acontece com a canção título e com “Dance With Me Tonight” em alta intensidade, o que não impede que a trilha seja sensacional como um todo. É quase uma compilação de artistas que nunca existiram. E era Schlesinger o tempo todo, compondo e executando as canções da gravadora Playtone. Aliás, Tom Hanks mencionou ontem no Tweeter que “não há mais Playtone sem Adam Schlesinger. Ele era um one-der”. Triste para cacete, gente.

 

Dois anos depois, em 1999/2000, eu estava no norte do estado do Rio, num período especialmente nebuloso da vida, desconfiando que fizera um movimento errado e impreciso, quando fui salvo pela música da banda de Adam, o Fountains Of Wayne. Eu costumava ler muito o site da Amazon, em busca das resenhas dos compradores de discos e elas eram minha fonte de distração e conexão comigo mesmo. Foi neste tempo que topei com toda uma geração de bandas de powerpop, de Gigolo Aunts a Velvet Crush, entre as quais estava o FOW. A recomendação do site era expressa: compre o segundo disco do grupo, “Utopia Parkway”, porque ele é perfeito. A recomendação também se aplicava à estreia do Fountains, homônima, de 1996. Até hoje “Utopia…” é um dos meus álbuns preferidos de todos os tempos. Dá vontade de entrar nele, viver as letras das canções e ser amigo de Adam e de seu companheiro de grupo, Chris Collingwood. Desde então, acompanhei de perto tudo o que o Fountains Of Wayne lançou.

 

Não só o FOW, mas um trabalho paralelo de Adam, o Ivy. Este um trio com a cantora francesa Dominique Durand e o amigo Andy Chase. Na lista de influências estavam The Smiths, Prefab Sprout, Go-Betweens, House Of Love e outras bandas superlativas dos anos 1980. Ou seja: com o Fountains, Adam exorcizava sua saudade setentista, no Ivy exercitava seu amor pelo rock “This Is the Day” e “I Get the Message”, presentes na ótima trilha sonora de “Quem Vai Ficar Com Mary?”. Os anos 2000 eram outros tempos, logo, posso me orgulhar de ter tudo das duas bandas na minha simpática coleção de CDs.

 

Nas idas e vindas do tempo, tentei manter Adam Schlesinger ao alcance da vista. Lembro de ficar extremamente feliz em vê-lo participando da sensacional trilha de “Letra e Música”, filme irresistível de Hugh Grant e Drew Barrymore, no qual ele é um ex-integrante de um grupo de sucesso nos anos 1980, no sentido Wham! do termo – que se vê metido numa situação em que precisa compor uma nova canção para uma popstar atual gravá-la. E esta é, justamente, “The Way Back Into Love”, de autoria de nosso amigo Adam. Também fiquei extremamente satisfeito em vê-lo à frente da retomada da carreira dos Monkees, que, sob sua produção e com sua participação, gravaram dois discos entre 2016 e 2018 (“Good Times!” e “Christmas Party”), além de um registro ao vivo que será lançado em muito breve, chamado “The Mike and Micky Show Live”.

 

Há poucos meses soube que ele era o responsável pelas canções de “My Crazy Ex-Girlfriend”, série que teve quatro temporadas, cujos episódios traziam canções inéditas, cantadas por Rachel Bloom, a atriz americana e estrela da série. E, bem, eu nunca vi um segundo da série, mas bastou uma simples audição nas canções – felizmente, todas no Spotify – para reconhecer o talento inegável de Adam por trás delas. Não por acaso, ele foi vencedor de prêmios Grammy e Tony por conta disto.

 

 

Quando eu estava colocando este site no ar, separei informações sobre as origens, digamos, geográficas, de “Utopia Parkway”, que é o nome de uma avenida enorme nos confins da cidade de Nova York, nas bandas próximas a Flushing Meadows, Corona Park e lugares limítrofes em relação a Nova Jersey, a Niterói americana. A identificação com esta região, origem de gente tão legal e distinta quanto Yo La Tengo, Kevin Smith, Bruce Springsteen e … Adam, me aproximam ainda mais disso tudo.

 

A morte dele é uma tragédia em sua pequenez. Ele não era um ícone da música, era “só” um dos mais talentosos compositores da música pop dos últimos, talvez, 30 anos. E deveria ter mais e mais lembranças e homenagens além deste pequeno texto aqui. Que Adam descanse em paz e saiba do meu agradecimento pelo poder curativo que sua música teve em minha vida durante um momento muito, muito ruim.

 

 

   

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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