U2 em melancólicos fiapos de canção

 

 

 

 

U2 – Songs Of Surrender
166′, 40 faixas
(Universal)

2 out of 5 stars (2 / 5)

 

 

 

 

 

Finalmente chegou o dia de falar sobre “Songs Of Surrender”, o compêndio de quarenta canções que o U2 selecionou para um processo de “reinterpretação”, ou, como está mais na moda, “reimaginação”. As amostras lançadas como singles não animaram, pelo contrário, criaram uma espectativa de que algo desastroso estava por vir. E, bem, após ouvir todas as faixas, posso dizer que a sensação que tenho é de uma grande e incomum tristeza. Não só porque várias destas canções têm glórias inegáveis no passado relativamente recente da música pop, mas pelo fato desta banda ter sido, por bons anos, postulante ao título de maior do planeta. Sinceramente acho que o U2 bateu os Stones no início dos anos 1990 em termos de relevância, turnê e alcance de suas obras, mas isso é papo para outro texto. O que conta é que estamos diante de superastros da música passando sua carreira a limpo, talvez se despedindo de algo, talvez constantando a passagem do tempo, talvez precisando de reinvenção. Ou talvez não seja nada disso. O fato é que o movimento que o U2 dá com este lançamento os coloca numa posição em que não há alternativa: ou a banda implode, ou a banda avança com uma cara e proposta novas.

 

 

Os últimos meses viram vários acenos do U2 a este momento. Teve lançamento de livro autobiográfico de Bono (“Surrender”), seguido de uma série de shows intimistas em que ele mesclava contação de histórias e interpretações à surdina de clássicos da banda. Tem documentário sobre uma revisita de Bono e The Edge a Dublin, percorrendo as ruas da juventude, com a presença de David Letterman. Tem a residência que eles farão em Las Vegas ao longo deste ano, na “Achtung Baby: U2/UV”, que periga pagar a pechincha de um milhão de dólares à banda por show, batendo todos os recordes da história da cidade, que é famosa por receber astros ao longo do tempo, de Elvis a Sinatra, chegando a Beyoncé e, agora, o possante U2. E, em meio a tudo isso, o baterista fundador, Larry Mullen Jr anuncia que está com vários problemas de saúde, decorrentes da rotina de exigências físicas ao longo dos anos atrás da bateria. Foi devidamente sacado dessas apresentações em Vegas, sendo substituído pelo holandês Bram van den Berg, um ilustre desconhecido, pelo menos para mim.

 

 

Até que, finalmente, como eu dizia, chega a hora de ouvir o disco. Das quarenta canções (dez por integrante), podemos dizer que temos muitos clássicos da banda, mas nem todos. Por exemplo, “New Year’s Day”, “Gloria”, “The Sweetest Thing”, “Miss Sarajevo” e “Mysterious Ways” estão ausentes. Dá pra dizer que temos “deep cuts”, aquelas canções que os fãs mais devotados – ou a própria banda – entendem como realmente importantes. Estão aqui, por exemplo, “Stories For Boys” (do primeiro álbum, “Boy”, de 1980), “11 O’Clock Tick Tock”, também dos tempos da estreia, que saiu como compacto e que ganhou fôlego na versão ao vivo de 1983, gravada em “Under A Blood Red Sky”. Também está aqui a própria “40”, que encerrava o terceiro álbum do grupo, “War” e uma curiosa escolha: “Red Hill Mining Town”, uma das raras faixas de “The Joshua Tree” (1987) que permaneceram discretas. E também pipocam as mais conhecidas do U2, aquelas que se transformaram em sucessos globais, de “I Still Haven’t Found” a “I Will Follow”. De “Stay (Faraway So Close)” a “Pride (In The Name Of Love)”. De “One” a “Where The Streets Have No Name”. Tem até a eletrônica e subversiva “The Fly”, o que me fez pensar em como seriam as versões atuais de “Lemon” e “Numb”. Melhor nem pensar.

 

 

O fato é que: este é um lançamento para fãs mais dedicados do U2. E este é um lançamento que só importa a essa gente. O ouvinte ocasional, aquele que acha que “One” é sobre um relacionamento afetivo perfeito, vai achar que “ora, é o acústico do U2” ou “é o projeto de quarentena do U2” e passará reto, preferindo ouvir a coletânea “U218 Singles” ou algo no gênero. É uma pregação para os convertidos e me espanta que Bono e The Edge (os mais envolvidos diretamente com esta empreitada) pensem que os admiradores da banda comprarão facilmente este lançamento. Claro que a dupla – mais Mullen Jr e Adam Clayton – têm o direito de fazer o que quiserem com suas canções, porém, certamente os quatro estão a par da importância e do alcance que seu trabalho teve ao longo dos últimos 40 anos. Sendo assim, é engraçado pensar que nenhuma das quarenta versões do disco é capaz de arranhar as gravações originais mesmo das menos importantes, canções colhidas a partir de álbuns lançados de “How To Dismantle An Atomic Bomb” (2004) em diante, trabalho que marca o declínio do U2.

 

 

Sendo assim, por mais que tenhamos versões interessantes em alguns momentos, caso de – “11’O Clock Tick Tock”, “Beautiful Day”, “City Of Blinding Lights” e da manjada “Sunday Bloody Sunday”, temos verdadeiros crimes cometidos contra “Bad” (minha preferida de todo o repertório do grupo, aviltada sem dó), “Two Heartbeats As One” (outra preferida, da lavra de “War”, descaracterizada), “Stay (Faraway So Close)” (que parece ter sido gravada às quatro da manhã, com todo mundo morrendo de sono), “With Or Without You”, “The Fly” “Pride”, “Walk On” (ressignificada para falar da Ucrânia), sem falar na bobagem que é a inclusão de canções menos relevantes, como “The Miracle Of Joey Ramone” ou “Peace On Earth”, o que sobra deste “Songs Of Surrender” é a esperança de que o U2 se reencontre ou pendure as guitarras enquanto é tempo. Afinal de contas, até como epitáfio, este trabalho é equivocado e melancólico. O público, a banda e todo mundo merece algo mais próximo do que a banda sempre mostrou – desafio, questionamento, incômodo, desejo de reinvenção.

 

 

Ouça primeiro: “11’O Clock Tick Tock”, “Beautiful Day”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “U2 em melancólicos fiapos de canção

  • 24 de março de 2023 em 05:53
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    Seria bom penduear as guitarras de uma vez, o U2 ficou muito chato faz tempo.

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