Thundercat – It Is What It Is

 

 

Gênero: Funk

Duração: 37 min.
Faixas: 15
Produção: Thundercat e Flying Lotus
Gravadora: Brainfeeder

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

 

Eu sou um fã da canção. Acho que é o formato mais bem acabado possível para a música popular. Ela tem a duração certa, a estrutura adequada e, não raro, é capaz de grudar nas mentes dos ouvintes, seja para o bem, seja para o mal. Thundercat, nome artístico de Stephen Brunner, baixista virtuoso, produtor e estrela em ascensão na música americana, é um cara que tem talento de sobra para fornecer informação musical mas não é éxatamente um compositor, no sentido do formato canção. Ele é muito mais uma mente pensante no estúdio, capaz de emular e criar grooves que parecem familiares e outros, totalmente novos, que se juntam e se misturam tal qual um caleidoscópio. É o que ele faz em “It Is What It Is”.

 

São 37 minutos e quinze faixas, nas quais somos apresentados a uma música envolvente, curvilínea e cheia de detalhes. São sons eletrônicos imersos em pianos, teclados, baterias humanas e robóticas, vozes, corais, tudo feito para que não seja possível perceber noções como início, fim, refrão, verso. Tudo é o que parece ser e, ao mesmo tempo, nada parece. Há ecos de jazz funk setentista por toda parte, solos, levadas, indo e vindo. É legal e artístico, no sentido criativo e revolucionário do termo. Está longe de ser uma obra convencional e a intenção de Thundercat não parece ter sido esta. É bom. E não é.

 

“It Is What It Is” é muito mais uma suíte de 37 minutos, com quinze passagens mais ou menos nítidas. Há participação de gente legal como Kamasi Washington, Badbadnotgood, Childish Gambino, Ty Dolla $ign e outros, que conferem um ar coletivo e legal à empreitada. Em alguns momentos há faixas que saltam aos ouvidos, caso, por exemplo, de “Funny Thing”, que ganha a atenção imediatamente, com uma levada ensolarada, baixo borbulhante e teclados setentistas, mas que dura menos de dois minutos, deixando o pobre ouvinte com gosto de “quero mais”. “How Sway”, por sua vez, é um solo vertiginoso de baixo e teclado, lembrando monstros como Jaco Pastorius. “Overseas” é outra belezura jazz-funk do início dos anos 1980, mas que também acaba pouco antes dos … noventa segundos de duração. É legal como estilo, acho, mas é um saco como … disco.

 

Por outro lado, nas faixas mais longas, Thundercat não se sai tão inspirado. “Dragonball Durag”, por exemplo, tem pouco mais de três minutos e a participação de Kamasi Washington, mas se perde numa levada pouco inspirada e monótona. “Fair Chance”, com Ty Dolla e Lil B, esta com quase quatro minutos, é sussurrada demais, estilosa demais, no clima “slow jam”, mas acaba muito mais próxima do exercício de estilo do que de algo realmente interessante. “Unrequited Love”, outra faixa propulsionada por solos de baixo, tem batida lenta e hipnótica, conseguindo um resultado melhor, com vocais belos e teclados pontuais. “Black Quails”, com Gambino e Steve Arlington, é interessante mas novamente se perde no desejo de emular climas e detalhes, parecendo esquemática e com firulas em excesso.

 

Ninguém duvida do talento de Thundercat e nem da importância que o pessoal surgido em torno do ótimo disco “To Pimp A Butterfly”, de Kendrick Lamar, mas, às vezes esse pessoal se perde em tentativas de complicar o que é mais direto e simples no decalque de sonoridades do passado. A intenção de “It Is What It Is” é fazer estudos e esquemas sobre pilares do funk, do jazz, do black pop setentista e regurgitar algo novo. Em alguns momentos, tal empreitada só faz ter vontade de ouvir discos antigos. Há talento de sobra, foco em falta.

 

Ouça primeiro: “Funny Thing”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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