Luke Jenner – 1

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 50 min
Faixas: 10
Produção: Luke Jenner
Gravadora: Manono

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

 

Uma das bandas mais bacanas surgidas nos anos 2000 foi The Rapture. Seus dois primeiros discos – “Echoes” (2003) e “Pieces Of The People We Love” (2006) – mostravam isso pela mistura de sonoridades rock oitentistas misturadas com alguma coisa que poderia parecer um funk de branco meio torto e esquisito. O último trabalho deles, “In The Grace Of Your Love”, de 2011, já mostrava que o tal dance punk dos primeiros anos não era o único prato que constava no cardápio. Mais meditativo, introspectivo e refletindo as vivências de Luke Jenner, o líder, vocalista e guitarrista do grupo, o álbum fechava a existência de The Rapture e deixava um vácuo que só recebe preenchimento agora, com a chegada deste “1”, trabalho que Jenner lança como ponto de partida de uma trilogia confessional sobre o tempo que esteve ausente da música – nove anos – ou que a levou como um passatempo. Levando em conta que The Rapture se reuniu ano passado para alguns poucos shows, Jenner está, finalmente, saindo da toca em que se meteu e voltando para o centro do palco. E o faz de um jeito surpreendente.

 

Se você está esperando um disco nos mesmos moldes da liga sonora que The Rapture fazia, perca as esperanças e volte para os primeiros álbuns da banda. A ideia aqui é exercitar uma veia autoral e embarcar em sonoridades experimentais, que pegam emprestado de referências que vão de Pink Floyd a música eletrônica e ambiente, sem, no entanto, perder completamente de vista alguma batida dançante aqui e ali. Sendo assim, este “1” tem momentos em que Jenner evoca uma espécie de “prog-dance”, algo inusitado, estranho mas que pode encantar. Além disso, o álbum investe numa série de referências pessoais sobre família, paternidade e amizade, mostrando que Jenner deixou para trás problemas pessoais advindos da morte da mãe e do nascimento do filho, motivos que abalaram sua vida e o fizeram mudar completamente de rumo, largando a banda e mergulhando numa reconexão com sua existência longe dos palcos. Agora, pronto, ele volta totalmente mudado por este período.

 

As faixas são conduzidas por narrações, efeitos sonoros, tudo com a nítida intenção de revestir as faixas com camadas de interpretação e união de conceito. Funciona, mas cansa. Luke não esteve preocupado com qualquer formato radiofônico em nenhum momento, o que dá charme ao disco, mas torna sua audição mais cansativa, requerendo disposição do ouvinte para compreender totalmente suas intenções. Alguns momentos resvalam na monotonia pura e simples, em outros dá pra ver a genialidade pertinho da janela. No primeiro grupo de canções, estão “Die One Day”, quase toda instrumental, cheia de efeitos de sirene e um clima que evoca o Pink Floyd de 1975, mas sem muito sentido ou razão. “You Know You’re In Love When You’re In Love”, como o título já entrega, é aborrecida e também se vale de revestimento floydiano para tecer conclusões simplórias sobre amor através de vozerio infantil.

 

Driblando o tédio com alguma inventividade está a primeira faixa, “A Wonderful Experience”, que traz diálogos sobre cores favoritas como indução para um minimalismo ambiente que vai crescendo via acordes de piano, mostrando o quanto Jenner mirou no Pink Floyd como fornecedor de climas e texturas. A segunda faixa, “All My Love”, já passa no teste ao inserir as batidas dançantes tradicionais em meio a um ambiente que lembra uma orquestra sinfônica se aquecendo antes do ato, embarcando num crescendo que vai envolvendo o ouvinte, durante impressionantes dez minutos e meio. “If There Is A God” alterna silêncio e passagens instrumentais quase religiosas, num clima estranho mas atraente. E “Asshole”, que mistura voz sintetizada e dedilhado que guitarra que lembra “Creep”, do Radiohead, fica na fronteira entre o estranho e o ok. E o disco é todo assim, se equilibrando entre brilhantismo e … tédio.

 

Luke Jenner disse que outros dois álbuns “exorcistas” de seu passado recente estão a caminho, obviamente “2” e “3”. Depois deles, sabe-se lá quando forem lançados, talvez ele volte a uma forma mais usual de produzir música. Aqui ele priorizou outros elementos e entregou uma declaração de intenções, com alguns bons momentos. E só. Aguardemos pois ele tem crédito.

 

Ouça primeiro: “If There’s A God”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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