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Shame: rock barulhento para pessoas nervosas

 

 

Shame – Cutthroat

37′, 12 faixas

(Dead Oceans, 2025)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Dentre a enorme quantidade de bandas e artistas que se aventuram e fazem do pós-punk o seu meio musical de expressão, há os que são banais e os que são quase geniais. Certamente o Shame está nessa segunda categoria. A cada disco que eles lançam, lá estão a animação, o pique, a originalidade e o desejo de tentar fazer algo diferente num estilo tão banalizado por tudo e todos. E fica o temor sobre se os londrinos conseguirão evitar a mesmice e não exalar o cheiro de mofo que insiste em assombrar o rock de guitarras de uns tempos pra cá. Mas a resposta que surge, alta como a maioria das canções, é um sonoro sim. O Shame, com “Cutthroat”, seu quarto álbum de estúdio, prova mais uma vez que o pós-punk, em 2025, não apenas sobrevive, mas pode pulsar com uma urgência e uma inteligência que muitos de seus pares só alcançam nos momentos mais inspirados. O quinteto londrino, que já havia mostrado um amadurecimento interessante no introspectivo “Food For Worms” (2023), aqui retoma uma veia mais direta, mais visceral, mas com uma produção cirúrgica. John Congleton, que assina a mixagem, é o nome por trás de trabalhos que deram um brilho particular ao som de artistas como Angel Olsen e St. Vincent, e ele faz um trabalho exemplar: tudo soa limpo e cristalino ao mesmo tempo. A banda soa como se estivesse com o pé no acelerador, mas a direção está clara, sem desvios desnecessários.

 

O disco abre com a faixa-título, “Cutthroat”, uma paulada de três minutos que já dita o ritmo. É um rock de impacto, com riffs nervosos e a voz de Charlie Steen disparando slogans cheios de ironia e um cinismo que é a marca registrada do grupo. Não é só barulho; é a fúria bem canalizada, aquela crítica social disfarçada de festa caótica. O que faz “Cutthroat” se destacar na cena do “rock de gente jovem e nervosa” é a capacidade do Shame de injetar elementos novos sem perder a identidade. A pegada eletrônica, um pulso quase dançante, aparece de forma mais sutil do que no álbum anterior, mas está lá, dando uma textura diferente. Temos momentos que reforçam a excelência do Shame em criar hinos de protesto, como “Cowards Around”, que constrói uma tensão com percussão frenética e uma letra que atira contra a hipocrisia e a falta de coragem que permeiam a sociedade contemporânea. É a banda encarando os “covardes” de frente, com aquela ironia mordaz de quem sabe que a covardia, muitas vezes, é o motor da roda capitalista.

 

Os timbres de guitarra são ótimos e bem lapidados. Em “Nothing Better”, por exemplo, eles estão colocados em posição coadjuvante, apenas marcando a melodia, mas fazem muito como estrutura da própria melodia, mostrando diversidade e criatividade ao longo dos menos de três minutos. Em “Spartak” a levada é mais clássica, lembrando algo que poderia ser dos anos 1980, feito por alguma banda iniciante obscura, mas com uma melodia doce que vai ganhando tons e sobretons enquanto os vocais de Steen vão contando uma história triste de um relacionamento que não deu certo. E quando a gente fala de diversidade dentro do próprio espectro pós-punk, cabe citar uma belíssima canção como “To And Fro”, que é melódica, tem atitude e um arranjo que privilegia esse senso musical acima da média que a banda tem. A mão de Congleton é decisiva aqui, seja na escolha dos timbres, seja na alternância dos momentos com mais e menos intensidade “After Party” é quase um disco-punk com percussão e estética que lembra até mesmo o Devo. “Packshot”, veja você, começa como uma quase-balada, com um arranjo suave e leve como a brisa, que traz os vocais de Steen quase declamados. A partir do segundo minuto, a coisa muda totalmente de figura e um assalto de peso e doideira acontece e desaparece quase imediatamente. O que sobra da canção já é totalmente diferente do começo. E a onda dance punk volta com a canção final, “Axis Of Evil”, eletrônica e robótica, como tem que ser.

 

Mas o grande momento, a peça que mostra a ousadia e a visão do grupo, é “Lampião”. Sim, o Shame se aventura pelo Brasil (inclusive, já tocou aqui). A faixa abre com uma melodia que remete ao folclore brasileiro e conta a história do cangaceiro, misturando o inglês do Steen com versos em português, que ele diz ser uma homenagem à sua namorada, que é brasileira. Não é um pastiche, não é um truque fácil. É a banda assumindo que a contradição, a mistura de referências, faz parte do jogo. É a prova de que o pós-punk pode, sim, se expandir e absorver o mundo. A segunda metade do disco mantém o nível alto, com faixas como “Screwdriver” resgatando aquela urgência de “Songs of Praise” (2018), mas com um peso mais refinado. O álbum é conciso, vai direto ao ponto, não se arrasta. São doze faixas que funcionam como uma porrada no estômago, mas que te fazem querer pedir mais.

 

O Shame, em “Cutthroat”, não reinventa a roda, mas a faz girar com uma força e um propósito que faltam a muitos artistas que fazem rock por aí. É um disco essencial para quem ainda acredita na guitarra como instrumento de catarse e reflexão. É a banda no auge da forma, sem precisar de muito adjetivo. Simplesmente muito bacana.

 

 

Ouça primeiro: “Cutthroat,” “Cowards Around,” “Lampião,” “Spartak”, “Nothing Better”, “To And Fro”, “Axis Of Evil”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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