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Os 35 anos de “Behaviour”, a obra-prima dos Pet Shop Boys

 

 

 

 

 

Trinta e cinco anos de “Behaviour”, quarto e sensacional álbum dos Pet Shop Boys. É um disco clássico, elegantíssimo, que marcava o nível máximo de refinamento melódico da dupla londrina em estúdio. Chris Lowe e Neil Tennant já mostravam que vinham incorporando uma elegância complexa ao seu pop eletrônico extremamente eficaz nas paradas de sucesso. Ainda que este elemento sempre tenha estado presente, em “Behaviour” ele atingia nível máximo.

 

 

O sucesso global de “Being Boring”, com seu clipe antológico em preto e branco, e “How Can You Expect To Be Taken Seriously”, além da lindeza das menos badaladas “So Hard” e “My October Symphony” mostraram que os PSB eram força dominante na música daquele início de década, em que o eletrônico se descomplicava por conta do avanço tecnológico e gerava artistas cada vez mais voltados pra este setor. Artistas nem sempre bons. Ao lado de New Order e Depeche Mode, o PSB formou uma santíssima trindade deste pop eletrônico, ao mesmo tempo complexo e de fácil acesso. Os três grupos têm trabalhos fundamentais nessa virada de década, a saber, “Technique”, “Violator” e o próprio “Behaviour”.

 

Sobre “Behaviour” tenho uma história engraçada. Viajei para os Estados Unidos em 1993 disposto a comprar o single de “How Can You Expect To Be Taken Seriously”, que saiu com uma versão no clipe que era diferente – e muito melhor – do que a presente no álbum. Até hoje lembro da minha decepção com o registro do disco, num arranjo bobo com guitarras que nada tinha a ver com o batidão hipnótico da versão que sonorizava o clipe. Nem preciso dizer que não havia singles à venda no Brasil àquela época e nem Internet ou qualquer meio para comprar que não passasse por ir até um lugar em que a venda estava disponível. Pois foi o que aconteceu comigo, um raro momento em que viajei para fora do país, rumo aos USA. Lá chegando, com uma verba gorducha por conta de uma demissão de um emprego, comprei vários CDs de uma lista que fizera. Entre eles, claro, o MAXI SINGLE de “How Can You…”. Por conta de questões logísticas, só consegui ouvir o disquinho quando cheguei em casa, cerca de um mês depois. E qual não foi minha decepção quando, em vez da melodia elegante do single, ouvi algo que vinha como uma canção pop country qualquer, completamente diferente do que seria uma canção dos PSB.

 

Demorei algum tempo para aceitar que o CD que comprara em Nova York viera com um incrível defeito de fábrica. Ainda que tivesse as marcas indicativas do MAXI SINGLE impressas no acrílico, seu conteúdo era outro, inteiramente diferente. Com uma bruta frustração, deixei de lado o ocorrido mas jamais esqueci. Anos depois, achei um outro exemplar num sebo de discos em Ipanema e, claro, adquiri sem susto, pensando que o fatídico defeito ocorrera apenas com o meu CD. Novamente me dei mal, ouvindo, no recém-chegado exemplar, a mesma canção pop country cafoníssima. Mais alguns anos depois, adquiri uma versão “Further Listening”, de “Behaviour”, lançada em uma série de CDs duplos e cheios de extras, dos primeiros álbuns da dupla. Lá estava uma versão de “How Can You…”. Eu pensei, “bem, TEM que ser o meu single”. Comprei a preço elevadíssimo esta nova edição e …. era uma outra variante da canção, que não era a que eu queria.

 

Para encerrar a história. Só fui reouvir minha versão preferida, a “12 PERFECT ATTITUDE MIX”, mixada pelo bamba Paul Oakenfold, na era do Soulseek, quando baixei o mp3 e consegui salvar em meu computador. Pouco tempo depois, com o YouTube, consegui rever o clipe e salvar novamente a versão que adoro até hoje. Ela é tão complicada de achar, paradoxalmente tão conhecida de todos, visto que está no clipe, que também não consta nos serviços de streaming. Sendo assim, ainda tenho salvos alguns mp3 com ela – sim, alguns, não apenas um – para assegurar que tenho ela à disposição.

 

Por mais que seja um disco importantíssimo, querido e relevante, só consigo pensar em “Behaviour” como pivô desta minha odisseia em busca de uma de suas canções mais conhecidas, na versão mais popularizada. Coisas do século 20, quase 21.

 

E voltando a “Being Boring”, o single majestoso que anunciou o disco, ela tem um dos versos mais terrivelmente belos sobre aquele tempo sombrio em que a AIDS era um fantasma para muitas pessoas ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, este verso já antecipava uma reflexão pungente sobre a passagem do tempo e como ficaríamos à deriva em meio a memórias e sentimentos:

 

“All the people I was kissing, some are here, some are missing”.

 

 

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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