Samba de Guerrilha, uma versão do Brasil contada de Portugal

 

 

 

Uma surpresa instigante. Assim defino Samba de Guerrilha, álbum do cantor e compositor Luca Argel, carioca que migrou para o além-mar em 2012 para estudar e se formou mestre em Literatura pela Universidade do Porto, em Portugal.

 

A conexão entre arte e história é o mote do trabalho recém-lançado, e vai além: é uma aula moderna sobre o Brasil. Só que contada de outros jeitos – e todos eles instigantes. Pra entender isso, é preciso esquecer a linearidade de um álbum tradicional e ouvir o disco como uma viagem que oferece poesia, narrativas e muitas percepções diferentes, na qual o samba é elo que conta partes da história escondidas nos livros oficiais.

 

A gestação do álbum foi realizada por anos em shows, seminários e apresentações, nas quais Luca contava à plateia as histórias dos bastidores do samba. “Esse projeto teve muitas encarnações. A mais recente delas é esse álbum. São assuntos que dizem respeito à história do samba, do Brasil e da política, frentes das quais o samba foi testemunha. E eu, desde quando comecei a trabalhar com samba, sempre tive muito interesse em estudá-lo e em transmitir esse conhecimento às pessoas”, explica Luca.

 

O lançamento mistura doçura e certa estética na execução de clássicos escolhidos a dedo. A concepção geral do disco, bem como a seleção das músicas, contou com dois critérios principais (Leia ao fim do texto a lista das canções). “O primeiro era escolher sambas que tivessem um discurso mais marcadamente político ou reivindicativo, para complementar as histórias que são contadas entre um e outro. O segundo era escolher sambas que eu me sentisse capaz de recriar, de oferecer no arranjo uma visão pessoal da linguagem do gênero, diferente da que estamos habituados”, diz Luca.

 

Samba do Operário, a primeira do álbum, é uma das músicas mais explicitamente políticas e, certamente, a mais simbólica denúncia da alienação da força de trabalho. “Por ser tão incisiva, achei que servia bem para a abertura do disco, mas também por outro motivo: um dos seus autores é português. E como vivo há quase dez anos em Portugal, uma das minhas intenções com este álbum sempre foi torná-lo familiar ao público português também, e fazer paralelos históricos que sirvam de pontes de diálogo entre os dois países. Então evocar um samba de Alfredo Português logo na primeira faixa é um cartão de visitas, como quem diz: vejam, esta história também lhes diz respeito, esta luta é coletiva, não tem fronteiras”, explica.

 

Um chamado em formato amplo

O trabalho também é um chamado à luta contra o racismo, a escravidão e as desigualdades sociais, ao mesmo tempo em que saúda momentos de resistência política. “No Brasil, talvez as pessoas estejam mais familiarizadas com isso, mas aqui em Portugal, nem sempre. Então é interessante trazer não só o lado musical e o lado festivo que as pessoas geralmente associam ao samba, mas também o lado de luta e de resistência que ele simboliza”, explica Luca.

 

A política, claro, não fica de fora. “Acho que a política movimenta não só a minha, mas toda a produção artística que existe, querendo o artista ou não, estando consciente disto ou não. No caso do Samba de Guerrilha foi uma escolha proposital tentar expor o lado mais político do gênero, deixar às claras a ligação entre a prática artística e o contexto político-social. E a melhor ferramenta para descortinar essa ligação é a História, porque tudo tem história. A história do samba está ligada com a história das comunidades onde nasceu, que está ligada com a história dos negros no Brasil, que está ligada com a história da própria formação do Brasil como nação, e a política atravessa tudo isso”. Para Luca, quem começa a se aprofundar na história do samba e não enxerga as relações políticas que existem nela está fazendo alguma coisa de errado. Concordo.

 

O formato escolhido pelo artista reúne música, ilustração, narração e poesia, editado em forma de jornal ilustrado e em versão digital. “A ideia é contar uma história, que tem narração em uma linha do tempo. Daí a proposta de editar um jornal e não um álbum de CD, porque assim a gente dá mais visibilidade ao texto, à história, e possibilita às pessoas acompanharem tudo com mais detalhes”.

 

De fato, gravar um CD hoje em dia não está mais ligado ao lançamento de um objeto físico. “Continuo gostando do suporte físico, mas tento me reinventar. Temos muito mais liberdade, agora, para inventar formatos novos”, diz Luca, sobre seu quarto trabalho. Em Portugal, é forte sua divulgação, quase didática, da obra de sambistas como Noel Rosa, entre outros mestres. Por lá, além do trabalho solo, ele participa de grupos como o Orquestra Bamba Social e o Samba Sem Fronteiras, campeões no quesito “reunião de multidões”, principalmente no Porto.

 

“Há muito tempo o samba deixou de ser apenas uma moda em Portugal. Hoje ele tem a preferência não só dos brasileiros que estão por aqui como também dos portugueses, que se encantam pela percussão, harmonias, melodias e pelas letras, cheias de sonoridade”, conta.

 

Participações e outras frentes

Samba de Guerrilha conta com participações da rapper portuguesa Telma Tvon nas narrações, do ator e cantor Átila Bee na faixa Almirante Negro (O Mestre Sala dos Mares), que ganhou vídeo, dos rappers Vinicius Terra em Virada, e Frankão (a.k.a. O Gringo Sou Eu) no arranjo de Vá Cuidar da Sua Vida. Carlos César está nas percussões do Direito de Sambar, clássico de Batatinha, e a cantora Karla da Silva participa de Uma História Diferente.

 

Luca segue em frente e em várias frentes: divide seu tempo entre outros projetos, como trilhas sonoras para dança e cinema, programas de rádio e podcasts dedicados à música brasileira. Além disso, tem livros de poesia publicados no Brasil, na Espanha e em Portugal. Um deles, Uma Pequena Festa por Uma Eternidade, foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2017, considerado um dos prêmios literários mais importantes entre os países de língua portuguesa. Antes de Samba de Guerrilha, lançou Conversa de Fila (2019), que também aprofunda a linha de trabalho focada na linguagem do samba, Bandeira (2017) e Tipos que Tendem para o Silêncio (2016). Samba de Guerrilha está disponível em plataformas como Spotify, Apple Music, YouTube e Deezer.

 

E como um brasileiro vivendo em Portugal vê a realidade do Brasil de hoje? “Com enorme tristeza, e muito esforço para não cair no pessimismo derrotista. No momento presente, acho que a prioridade absoluta do que e de quem eu amo no Brasil é a mais básica de todas: sobreviver. Isso é terrível porque, dado o nosso potencial, deveríamos poder ter ambições muito maiores. No entanto, acredito que esse retrocesso civilizacional vai brecar em algum momento. A onda veio, varreu muita coisa, matou muita gente, mas vai recuar, e vamos ter uma nova chance de nos reerguer. Só espero que tenhamos um pouco mais de maturidade, que consigamos tirar lições dessa história – olha aí a História de novo! -, para não voltarmos a repetir os mesmos erros. Quem, como eu, trabalha com cultura, tem essa missão, de não esquecer, nem deixar esquecer”.

 

Não esquecer e não deixar esquecer faz parte de uma jornada instigante, na qual Samba de Guerrilha soma forças e aponta para um futuro em que, esperamos, a história possa ser bem melhor do que a que hoje construímos.

 

Músicas e autores de Samba de Guerrilha:

Samba do Operário (Alfredo Português, Nelson Sargento, Cartola)

Pesadelo (Paulo César Pinheiro, Maurício Tapajós)

Virada (Noca da Portela, Noquinha)

Cangoma e Na Fazenda do Senhor (domínio público)

Direito de Sambar (Batatinha)

Praça Onze (Grande Otelo, Herivelto Martins)

Agoniza mas Não Morre (Nelson Sargento)

Almirante Negro (Aldir Blanc, João Bosco)

Vá Cuidar da Sua Vida (Geraldo Filme)

Uma História Diferente (Paulinho da viola)

 

Foto: Christie Batziou.

 

+1

Celso Chagas

Celso Chagas é jornalista, compositor, fundador e vocalista do bloco carioca Desliga da Justiça, onde encarna, ha dez anos, o Coringa. Cria de Madureira, subúrbio carioca, influenciado pelo rock e pela black music, foi desaguar na folia de rua. Fã de poesia concreta e literatura marginal, é autor do EP Coração Vermelho, disponível nas plataformas digitais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *