Badly Drawn Boy – Banana Skin Shoes

 

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 50 min.
Faixas: 14
Produção: Damon Cough
Gravadora: AWAL Recordings

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

No início dos anos 2000, parecia que Badly Drawn Boy seria um dos grandes nomes do novo século. Dono de fluência pop, boas ideias, bom humor e uma origem que vinha do lo-fi, Damon Gough, o nome por trás do nome, se apresentou como um cara de ótimas intenções. Lançou dois bons discos, “The Hour of Bewilderbeast” (2000) e “Have You Fed the Fish?” (2002), além da trilha sonora de “About A Boy” (2002), filme inspirado em livro de Nick Hornby, com Hugh Grant e Toni Colette no elenco, todos lançados no Brasil pela batalhadora – e extinta – Sum Records. O trabalho seguinte, “One Plus One Is One”, de 2004, já não chegou por aqui e BDB se tornou um desses artistas que a gente “perde de vista” em tempos pré-streaming. Mas o próprio Damon parece ter perdido um pouco o fôlego. Seu último disco, outra trilha sonora – “Being Flynn” – é de 2012. De lá pra cá, ele não lançou nada e este “Banana Skin Shoes” é um retorno pra lá de satisfatório. Senão vejamos.

 

Uma audição cuidadosa vai notar que o espírito curioso de BDB continua presente em sua música. Ele não se limita em gêneros, assumindo que hoje tudo é possível e passível. Esta regra favorece os criativos e a sensação é de uma divertida multiplicidade de estilos. Tem um pouco de música eletrônica aqui, uma levada bossanovista ali, uma incursão delicada no funk estilizado acolá. Tudo é unido pelo conceito de estar vivendo neste mundo e ser um sujeito de 50 anos, refletindo sobre tudo isso, sem qualquer cabecismo, acreditando no poder das melodias, que alguém irá notar uma ou outra sacada colocada no meio do caminho. Como disseram por aí, periga que “Banana Skin Shoes” seja “um dos discos mais honestos que você vai escutar neste ano”, muito por conta de Damon se manter fiel aos princípios que o norteavam há 20 anos – tempo voa – e que jogam a seu favor aqui.

 

O álbum é meio grande, algumas das 14 faixas poderiam ser deixadas de lado, mas isso não chega a irritar, frente a alguns momentos realmente belos e inteligentes. “Is This A Dream?” por exemplo, é um pequeno colosso pop à moda antiga, com uma levada rapidinha, melodia feita em laboratório, levemente funky e pianinhos conduzindo tudo, enquanto cordas vão pontuando tudo e guitarrinhas brincam sob o sol. “Tony Wilson Said” tem texto brincando com o clássico de Van Morrison “Jackie Wilson Said” e uma boa dose desta “fluência pop” que Damon exibe quando tangencia, por exemplo, a levada dançante e bem feita que a faixa exibe. É pop infeccioso da melhor qualidade, praticamente irresistível.

 

Em “You And Me Against The World”, BDB se permite brincar no quintal das apropriações gringas da bossa nova. Tem ritmo cadenciado, arranjo celestial de mistura flautas, cordas e aquela sensação de que estamos num passeio à beira-mar, sob a luz das estrelas, com a pessoa amada, bem no espírito do título. “Never Change” é outra lindeza, que traz referências do pop britânico setentista, algo que poderia ser de um Elton John lo-fi, se isso fosse possível. E “Apple Tree Boulevard” é balada solene e dramática, com pé no pop alternativo e outro no orquestral. Lembra um pouco uma outra faixa de Badly Drawn Boy, “All Possibilities”, lá de 2002.

 

“Banana Skin Shoes” é um belo disco. Multifacetado, gentil, convidativo e cheio de surpresas no seu caminho. Ele te pede atenção e se dispõe a recompensar seu tempo com algumas das canções mais legais que você vai ouvir, em muito tempo. Caia dentro.

 

Ouça primeiro: “You And Me Against The World”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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