Richard Hawley – Further

Gênero: Rock
Duração: 35 min
Faixas: 11
Produção: Richard Hawley
Gravadora: BMG

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Richard Hawley deveria ser muito mais conhecido. Nascido em Sheffield há 52 anos, o sujeito é um trovador guitarreiro que honra uma tradição que remonta a gente tão distinta como Roy Orbison ou Morrissey, pelo menos, o que ele costumava ser no início dos anos 1990. Hawley vai mais fundo na melancolia e na mitologia do homem triste de jaqueta de couro, egresso do cânon do rock, imerso nos problemas do cotidiano inglês pós-Thatcher e suas agruras para recuperar o amor, os entes queridos, coisas assim. É uma música tristonha, mas belíssima, extremamente bem feita. Após quase 20 anos de carreira, ele mantém o nível neste novo álbum, “Further”.

 

A diferença primordial por aqui é o abandono da estética entristecida convencional em favor de uma postura mais cética e contemplativa da vida, especialmente no que diz respeito à passagem do tempo. Entendo Richard muito bem: sou três anos mais jovem que ele, pertencemos a uma geração que se preparou para viver num mundo que não chegou a existir e ficamos por aí, com cara de nada, vagando num terreno baldio superpovoado e cheio de tecnologias que pensávamos que só existiriam nos episódios de Jornada Nas Estrelas. Daí a gente lida mal com perdas, ausências e falta de atenção. A cada laço afetivo que se rompe, a sensação de solidão é amplificada. Entendo Richard bem, podem acreditar.

 

É disso que “Further” trata. Mas o faz com tanta beleza e gentileza que quase dá gosto ver o cara sofrer enquanto reflete sobre a vida. Canções extremamente bonitas como “Emilina Says”, por exemplo, fazem a gente se aconchegar em algum canto e querer entrar na melodia. Em outro momento sublime, “My Little Treasures”, ele fala sobre a saudade do pai enquanto conta como foi reencontrar com seus amigos. O arranjo tem cordas muito bem gravadas, algo que poderia estar numa gravação de 1968 ou 1969. Em “Is There A Pill” ele encarna Roy Orbison em meio a um arranjo de guitarras distorcidas, coisa de mestre.

 

O baritono americano também assombra gentilmente outra faixa, a soberba “Not Only”, que tem andamento mais doce e contemplativo. A trinca de canções que encerra o disco são de dar inveja. “Time Is” parece uma dessas músicas que colocamos na formatura, com o verso “o tempo pode estar a seu lado, mas ele vai mudar”. “Midnight Train” é desses relatos que fazem analogia ao transcorrer do tempo em relação aos trens e sua inexorabilidade diante do caminho que percorrem, neste caso, como meio de fuga de uma realidade. Cordas sublimes novamente pontuam o arranjo perfeito. Fechando o disco, uma insuspeita canção sobre drogas, “Doors”, novamente com Roy Orbison dizendo “olá” no arranjo belíssimo.

 

Richard Hawley é um mestre da canção, lamentavelmente um desconhecido por aqui. Todos os seus discos maravilhosos estão disponíveis nos serviços de streaming. Vá conhecer sua obra, que é primorosa. E não precisa agradecer.

 

Ouça primeiro: “Doors”.

 

2+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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