Fontaines DC – A Hero’s Death

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 46 min.
Faixas: 11
Produção: Dan Carey
Gravadora: Partisan

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

Há cerca de um ano e meio, o Fontaines DC lançou um disco fenomenal: “Dogrel”. Você leu a resenha aqui, viu o trabalho ser eleito o mais importante de 2019 e a banda irlandesa também levando o prêmio de Revelação do ano. Era apenas a estreia dos sujeitos, já cheia de méritos palpáveis, um trabalho totalmente voltado para as origens do punk irlandês/britânico, mas sem qualquer sombra de fórmula de bolo decalcada. O que saía das caixinhas de som era 100% sincero, de uma banda jovem, vivendo seu momento, impondo palavras de ordem sobre amadurecimento, injustiça, solidão e existência num mundo estranho, tudo isso revestido por uma maçaroca guitarreira-dançante-suarenta, que fazia tudo soar absolutamente perfeito e atemporal. “Dogrel”, o disco, está numa posição de grandes trabalhos do rock em tempos que ele perdeu o protagonismo no gosto da juventude planetária. É um álbum para ser conhecido e amado pelo maior número possível de pessoas. Mas, agora, como a gente faz para lidar com o fato de que o FDC já entregou um outro disco sensacional? Sim, porque “A Hero’s Death” é outra cacetada na lata e, pasme, completamente diferente do primeiro álbum do grupo.

 

E por que é diferente? O bailão subterrâneo que “Dogrel” oferecia, uma coisa inegável e maravilhosa, foi desacelerado, ou melhor, transformado em uma sequência de onze músicas que não induzem à dança e ao remelexo de forma tão imediata. E também não são para a fruição em espaço público, numa noite coletiva. É algo para o âmbito privado, mais ou menos na onda “Dancing In The Dark”, do velho Boss Springsteen. É um disco de auto-conhecimento, de reflexão, mas igualmente jovem, pulsante e cheio de vida, do mesmo jeito que o antecessor. “A Hero’s Death” não deve ser entendido como “mais lento”, mas como mais atento aos detalhes, depositando nos timbres, nas letras, nas posturas o mesmo cacife de belezuras que repousa na dança e na eletricidade de “Dogrel”. É como se os Fontaines DC apenas remanejassem recursos e mexessem em caixinhas, distribuindo sua energia de forma diferente, mas sem abrir mão da intensidade. É algo que dá pra notar logo que se ouve as canções pela primeira vez.

 

Este disco deve confirmar o vocalista Grian Chatten como um dos grandes da atualidade. Seu registro é grave, sofrido, intenso e seu sotaque é totalmente adorável, incapaz de impedir da compreensão das belas letras que escreve. Carlos O’Connell e Conor Curley, os guitarristas, erguem uma poderosa e inteligente barreira de cordas, convergindo e dispersando nos momentos certos, enquanto Tom Coll e Conor Deegan seguram todas na cozinha da banda. Com a presença do produtor Dan Carey, vemos que todo o pessoal envolvido em “Dogrel” voltou à ação neste trabalho novo. Os singles lançados – “A Hero’s Death”, “I Don’t Belong” e “Televised Mind” – eram totalmente diferentes entre si e apontavam para um disco diverso e abrangente, algo que se confirma totalmente. As nuances estão por toda parte. Se “Dogrel” era punk, “Hero’s…” é pós-punk. Ou quase isso.

 

Ainda que estas três canções sejam ótimas, ainda há muito por descobrir aqui. “A Lucid Dream” é uma beleza de música, com bateria martelando, guitarras pairando e uma levada belíssima, que arremete contra o ouvinte, levando-o embora com o vento na noite. “On Such A Spring” é uma balada desencarnada, de dois minutos e meio, com sentimento, verdade e lindeza e versos como “I wish I could back to the spring again”. E há uma pequena tempestade sônica portátil chamada “Living In America”, cujos guitarras se chocam no ar sobre uma linha de baixo/bateria inabalável e simples, com a voz de Chatten parecendo uma reedição do Iggy Pop safra 1977. E fechando o disco, duas baladas dilacerantes: “Sunny” e “No”, que mostram a maturidade da banda em se permitir desacelerar o ritmo frenético para respirar fundo e olhar em volta. Tudo funciona.

 

O Fontaines DC é uma banda ambiciosa, viva, jovem. Seus dois discos oferecem retratos possíveis e prováveis de gente como a gente. Confusa, perdida, que se esforça para voltar de algum lugar no qual não se sabe como chegou. É grande rock feito por cinco caras ainda não carcomidos pela fama ou pelo sucesso banal. Ouça enquanto é tempo. Mais um disco com credenciais para levar o troféu de melhor de 2020. Maravilhoso.

 

Ouça primeiro: “Living In America”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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