R.E.M – 13 canções e duas covers

 

 

“Aos nossos fãs e amigos: como R.E.M., e como grandes amigos e colaboradores, decidimos nos separar como banda. Nós nos despedimos com um grande sentimento de gratidão, completude e orgulho de tudo que conquistamos. A qualquer pessoa que se sentiu tocada pela nossa música, nossos maiores agradecimentos por ouvir”.

 

Com este pequeno texto, o R.E.M. divulgou seu encerramento de atividades, há quase dez anos, no dia 21 de setembro de 2011, pouco depois de lançar “Collapse Into Now”.

 

Michael Stipe, Peter Buck e Mike Mills disseram que, entre outros motivos, não tinham mais muita coisa a dizer como banda. Era melhor, segundo eles, encerrarem suas atividades desse jeito, com honestidade, do que vagar pelo limbo existencial no qual bandas e artistas, sem nada a dizer de útil, existem para sugar os recursos dos fãs.

 

Ao longo de sua trajetória, iniciada em 1980 e cujo primeiro disco, o EP “Chronic Town”, data do ano seguinte, o R.E.M é uma banda com baixíssimo índice de erros. Seus álbuns nunca podem ser considerados “ruins”, há melhores e “menos melhores”. Seu som evoluiu com o tempo, passando do crossover pós-punk com country byrdiano a uma personalíssima mistura de rock alternativo americano universitário da melhor procedência.

 

Confesso que, como fã da banda, sinto muita falta deles, mesmo que fosse para fazer algum show de vez em quando. Felizmente, aproveitando os tempos de streaming, o grupo soube brindar seus admiradores com lançamentos bacanas. São eles:

 

Unplugged: The Complete 1991 and 2001 Sessions

R.E.M. at the BBC

Part Lies, Part Heart, Part Truth, Part Garbage 1982–2011

Complete Rarities: I.R.S. 1982–1987

Complete Warner Bros. Rarities 1988–2011

 

Além destes, a banda segue relançando seus álbuns de estúdio em versões encorpadas e comemorativas. Ano passado foi a vez de “Monster” e, segundo a cronologia, o próximo é o misterioso “New Adventures In Hi-Fi”.

Fizemos esta lista de 13 melhores gravações do grupo, devidamente acompanhadas por duas covers sensacionais.

 

 

– Tighten Up (1984) – dos tempos iniciais da carreira, fase “Reckoning”, quando o REM era pouco mais que uma banda de garagem com ambições e influências legais. O original é um racha assoalho de Archie Bell And The Drells e a versão do quarteto aqui é torta, sem jeito, mas espontânea e sensacional.

 

 

– Wichita Lineman (1996) – da turnê de “Monster”, que resultou nas gravações de “New Adventures In Hi-Fi”. O original foi composto por Jimmy Webb e gravado por Glen Campbell, em 1968. Esta versão é simples, traz consigo o espírito on the road da tour e amplifica o sentimento estradeiro existencial da gravação original de Campbell. Um achado.

 

– Shiny Happy People (1991) – canção sensacional de “Out Of Time” que é execrada por muita gente, inclusive a própria banda. Acho um produto de seu tempo, um sarro com a felicidade exacerbada, mas, ao mesmo tempo, uma homenagem sincera e desengonçada a quem se sente feliz sem motivo. É uma canção dúbia, apesar de não parecer.

 

– Welcome To The Occupation (1988) – do ótimo “Document”, último álbum do REM pela minúscula gravadora IRS. É aquele momento em que a banda exorcizou suas influências de Byrds, especialmente nos timbres de guitarra e alinhou seu discurso com o fim da década de 1988. Tesouro escondido.

 

 

– Losing My Religion (1991) – no último dia 20 de fevereiro ela completou 30 inacreditáveis anos. Segue eficiente e ótima. É a canção que fez o REM subir para a Primeira Divisão e onde se manteve até o fim das atividades. Tem refrão maravilhoso, clipe de bom gosto ímpar e se tornou um clássico absoluto.

 

 

– Beachball (2001) – canção escondida no subestimadíssimo álbum “Reveal”. Tem uma improvável – e inédita na obra da banda – ambiência lounge, com teclados, bateria eletrônica e sintetizadores fazendo as vezes de um naipe de cordas. É sensacionalmente brega e tem cara de composição original dos anos 1960. Maravilha.

 

 

– Imitation Of Life (2001) – o single que puxou “Reveal” e que se parece bastante com duas outras faixas da banda: “The Sidewinder Sleeps Tonight” e “Losing My Religion” – ambas nesta lista. Este parentesco acaba jogando a favor da canção, dando a ela um clima de autorreferência que lhe cai muito bem. Há um solo de teclado impressionante no meio da melodia e uso de vocoders. “Imitation Of Life” é cheia de segredos e detalhes.

 

 

– Electrolite (1996) – a faixa de encerramento de “New Adventures In Hi-Fi” envelheceu graciosamente e manteve sua aura de lamento noturno e desencarnado a um passado que a gente não sabe se foi, se está ou se virá. Tem alusão a uma vista noturna que o personagem da letra parece vislumbrar, tudo meio surrealista e belo, muito belo.

 

 

– Everybody Hurts (1992) – de “Automatic For The People”, esta uma das canções mais belas da lavra do REM. O clipe é absolutamente lindo, a letra traz verdades inevitáveis e a melodia, bem como o arranjo, é impressionante. O arranjo de cordas é de John Paul Jones, ex-Led Zeppelin.

 

 

– So.Central Rain (1984) – o REM moleque, o REM de várzea, o REM arte. Clássico do início da carreira, faixa que levou o segundo álbum, “Reckoning” a altos vôos nas paradas alternativas do início da década de 1980, conferindo uma das marcas registradas da banda: a mistura de levada pós-punk com guitarras byrdianas.

 

 

 

– Talk About The Passion (1983) – da estreia, “Murmur”. Que banda inicia sua carreira com um disco que contém algo tão belo como esta canção? A melodia, o arranjo, os vocais, a letra, tudo funciona de modo impressionante por aqui. É um clássico multidisciplinar da banda.

 

 

– The Sidewinder Sleeps Tonight (1992) – faixa maravilhosa de “Automatic For The People”, que traz uma espécie de versão cinza, noturna e introspectiva das cores do álbum anterior. A presença de John Paul Jones nos arranjos de cordas das canções do álbum dá uma profundidade que a banda ainda não havia atingido em nenhum álbum da carreira.

 

 

– Strange Currencies (1994) – “Monster” foi vendido como o “álbum rock do REM”, como se a banda tivesse feito apenas discos de, sei lá, polca, em sua carreira. É um álbum interessante, com guitarras, mas com momentos de beleza introspectiva, caso específico desta arrepiante canção.

 

 

– Fall On Me (1987) – o momento mais lindo dentre todas as canções tristes do REM – e olha que são muitas. O instrumental, a letra que fala sobre o peso que o céu adquire quando tudo está caindo sobre nossa cabeça. Só quem já se desviou de meteoritos cotidianos com frequência sabe da majestade dessa canção. Faixa de “Life’s Rich Pageant”.

 

 

– It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine) (1988) – a narrativa em alta velocidade do fim dos anos 1980 coloca essa canção no mesmo nicho de “Teen Age Riot”, do Sonic Youth, ambas com influência de rock clássico e alternativas até os ossos. A letra, a levada vertiginosa e o clipe, tudo junto, faz dessa canção um colosso. Outra belezura de “Document”, de 1988.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

4 thoughts on “R.E.M – 13 canções e duas covers

  • 23 de fevereiro de 2021 em 15:11
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    “ Near Wild Heaven “ e suas harmonias a la Beach Boys

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    • 24 de fevereiro de 2021 em 07:56
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      Excelente também! Não faltam ótimas canções.

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  • 23 de fevereiro de 2021 em 09:05
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    Muito obrigado, Leonardo! REM é amor antigo!

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  • 23 de fevereiro de 2021 em 00:57
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    Acho que “Welcome to the occupation” e “Fall on me” só na sua lista, além da minha! Por isso este site é leitura obrigatória diária. Parabéns!

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