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The Black Crowes: incapazes de desapontar

 

 

 

The Black Crowes – A Pound of Feathers
42′, 11 faixas
(Silver Arrow)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Do jeito que o mundo vai por esses tempos, poucas coisas são garantidas. Uma delas é, certamente, o grupo americano The Black Crowes. Não há como os irmãos Chris (vocais) e Rich (guitarras) Robinson errarem a mão num disco. São 36 anos de carreira irrepreensível, com um objetivo muito claro e perente – ignorar solenemente quase tudo que aconteceu no rock depois de 1975. O foco então é o mesmo de sempre – seguir no mesmo caminho aberto e pavimentado por bandas como Rolling Stones e Faces. Os irmãos não dão a mínima para a modernidade ou a moda, fazem seu rock clássico perfeito, cheio de detalhes maravilhosos, timbres perfeitos, vocais à prova de cansaço e, como sempre, uma safra de ótimas canções. Este é o caso de “A Pound Of Feathers”, novíssimo trabalho dos Crowes, que segue a mesma linha de “Happiness Bastards”, o disco anterior, lançado em 2024, que interrompia um hiato de quinze anos sem gravar inéditas. Se aquele álbum era ótimo, este não fica nem um milímetro atrás, trazendo o mesmo nível de belezura, apuro técnico, sinceridade e muita, muita capacidade de recriar climas e timbres que poderiam soam chatos, vazios ou meramente nostálgicos nas mãos de outros. Com os Robinson, não só tudo é fresco e urgente, como eles chegam a nos convencer de que, de fato, estamos ouvindo o que há de melhor no rock. Veja, isto é bem sério.

 

Na verdade, o Black Crowes conseguiu um feito e tanto. Uma espécie de licença para usar esses elementos tão clássicos e marcantes do rock. Você sabe, várias bandas e artistas ao longo da história voltam a eles – riffs marcantes, mistura com o blues elétrico, vocais rascantes, grooves de baixo e bateria, psicodelia folk à la Led Zeppelin – mas são sempre acusados de falta de criatividade ou obviedade. Os Crowes, não. Eles já faziam isso em 1990, quando soltaram o primeiro álbum, “Shake Your Money Maker”. E seguem fazendo isso hoje, com o mesmo brilho e dedicação. O que era estranho no início dos anos 1990 em meio ao rock alternativo de guitarras americano e ao britpop inglês fascinava pela dedicação estética. Hoje, num tempo de nichos e mercado hiperbolizado, é mais um produto na prateleira. Se isso é verdade, o rockão dos Crowes é dos melhores artefatos sonoros disponíveis na prateleira. Chris Robinson continua cantando com perfeição e Rich segue como um dedicadíssimo aluno da escola Keith Richards/Ron Wood de riffs e solos. E, como já dissemos e a banda provou nesses quase quarenta anos de história, os dois são excelentes compositores.

 

Por isso é engraçado usar uma das réguas clássicas da análise musical – a novidade – quando falamos do Black Crowes. A gente espera e torce para que isso nunca os afete e eles dão sempre um jeito de inserir elementos discretíssimos que acabam fazendo a diferença no molho final. Por exemplo, em alguns momentos de “A Pound Of Feathers” há detalhes e andamentos que poderiam pertencer aos álbuns pós-“Back In Black” do AC/DC, algo que faz total sentido. E há também o amor declarado por outro baluarte do hard rock setentista, o Led Zeppelin, cujo cânone eles preferem visitar mais nos arroubos folk-psicodélicos do que nos grooves e andamentos mais sólidos. Tudo é lindo, com bom gosto e feito por gente muito cascuda. Além dos irmãos, estão presentes o baixista Sven Pipien, o guitarrista Nico Berenciartua, o baterista Cully Symington e o tecladista Erik Deutsch, além do produtor Jay Joyce, a mesma galera que vai pra estrada com os dois e, no caso de bandas como o Black Crowes, estar on the road significa parte importantíssima do processo criativo e de vivência do que eles cantam e defendem. Lembrem-se que o rock desta cepa foi forjado num tempo que já se foi há décadas e só pode voltar como exercício de estilo. O que essa gente consegue, repito, é um adorável paradoxo de atemporalidade.

 

Deixando a teoria e as explicações de lado, o que temos é um percurso sonoro que nenhuma banda da geração dos Crowes é capaz de oferecer. São dez porradas, cada uma a seu jeito, mas todas inseridas dentro dessas referências mencionadas, exceto por uma canção – “High & Lonesome”, mais pop, que tem um andamento beatle surpreendente, mas que não se enquadraria facilmente nessa categoria. É bacana, mas o forte dos sujeitos está nos espécimes hard’n’rock’n’blues que eles criam como se isso fosse muito fácil. “Profane Prophecy”, que abre o disco, tem a pegada dos Stones safra 1971, ou seja, parece saída de “Sticky Fingers”, talvez o maior elogio possível a eles. Aliás, nas faixas mais rápidas os Crowes são muito eficientes. É o caso de “Do The Parasite!”, que deve muito ao AC/DC e de “It’s Like That”, que mergulha de novo no poço dos Stones. Por outro lado, “Cruel Streak” é menos acelerada e empresta vários tiques e taques zeppelinianos, a começar pela voz de Chris, totalmente devota de Plant. O Zeppelin também aparece em “Eros Blues”, que tem todo o peso folk do terceiro álbum da banda inglesa. Os Faces, outro grupo-inspiração povoam o imaginário de “You Call This A Good Time?” e deixam espaço para mais um pouco de elementos do AC/DC entrarem na mistura. E tem “Blood Red Regrets”, com andamento de … valsa, que mistura peso e dinâmica em doses iguais.

 

No fim das contas, ouvir “A Pound Of Feathers” é tão bom que a gente esquece onde e quando está. Se há algo que uma obra de arte faz quando chega ao seu ápice de potência e desnortear completamente quem a contempla. E isso acontece aqui. Trata-se de um discaço, maravilhoso, importante e sensacional. Ouça, ame, compartilhe.

 

Ouça primeiro: todo o álbum

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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