Passando o meu tempo com Otis Redding

 

 

Eu devo ter lá uma enorme lista, porém finita, de canções que elenquei como as músicas preferidas da minha vida: “Cinnamon Girl” de Neil Young, “Something” dos Beatles, “The Song Remains the Same” do Led Zeppelin, “World in My Eyes” do Depeche Mode, “Heroes” do David Bowie, “You Do Something to Me” do Paul Weller e por aí vai… – mas não posso tornar público algo que deve ser, até o dia da minha morte, secreto, ou seja, as músicas da minha vida.

 

Curiosa essa nossa mania humana de escolher coisas preferidas da nossa vida quando sabemos que somos sujeitos mutáveis. Mudamos o tempo todo. Uma música em uma determinada fase pode fazer sentido, em outra… nem tanto, ou talvez até adquira outro significado. Mas vamos lá. Seguimos fazendo listas, talvez queremos nos encontrar nelas. Em especial a lista de canções, não porque estas canções são as melhores canções do mundo, mas porque elas despertam na gente um determinado tipo de sentimento que podemos ser privados em alguma época: amor, amizade, liberdade, solitude, força.

 

Sim. Todas as minhas canções preferidas me trouxeram algum tipo de sentimento ou atmosfera tão intensa que essa força me arrebatou ao ponto de fazer parte de mim em qualquer época da minha vida, independente se eu for uma mulher de tailleur saindo do trabalho ou só uma menina de tênis e camiseta tomando sorvete depois de tentar andar de patins. Pelo menos até agora, em 2021, todas as minhas canções preferidas da lista de canções preferidas continuam lá sem riscos, nem rasuras e muito menos arrependimentos.

 

Dentre essas músicas, desde sempre houve uma especial. Uma canção escrita por um dos maiores cantores de soul music que passaram por este planeta e que, infelizmente, acabou se despedindo cedo.

 

Foi entre novembro e dezembro do ano de 1967 que Otis Redding gravou no estúdio da Stax, em Memphis, uma das minhas canções prediletas: “(Sittin ‘On) The Dock of the Bay”.

 

Redding teria feito o primeiro verso de “(Sittin ‘On) The Dock of the Bay” em uma espécie de casa flutuante alugada em Sausalito (Califórnia),  na sua turnê com o Bar-Kays mais ou menos em junho de 1967. Depois de outra turnê de divulgação do álbum ‘King & Queen’ onde Otis colaborou com Carla Thomas, o cantor continuou a canção rabiscando suas ideias em guardanapos de hotel e, finalmente, no final daquele ano Otis Redding completou a música em Memphis com a ajuda de Steve Cropper, guitarrista e produtor talentosíssimo da Stax e do Booker T. & the MG’s.

 

Memphis… lugar curioso e, no mínimo, histórico. Foi lá que o Sun Studio se instalou e de lá saíram nomes como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Al Green, Howlin’ Wolf, Junior Parker, Little Milton, B.B. King, James Cotton, Rufus Thomas e tantos outros que estamparam o começo do rock’n’roll e a consolidação da soul music. De lá também veio a sede original da Stax Records, gravadora americana especializada em música negra e bastante influente na criação da soul music de Memphis. Com um som baseado em black gospel, blues e country, além das formas anteriores de rhythm and blues, a Stax se tornou conhecida como o suprassumo da música soul do sul de Memphis.

 

Em 1967 a maior aposta de estrela da Stax era Otis Redding. Mas antes disso Redding largou a escola cedo, aos 15 anos, para ajudar no sustento de sua família, e acabou trabalhando com a banda de apoio de Little Richard, com o The Upsetters, além de ter se apresentado em shows de talentos no Douglass Theatre em Macon. Em 1958, o cantor se juntou à banda de Johnny Jenkins, a Ther Pinetoppers, com quem fez uma tour pelos estados do Sul como cantor.

 

Mas foi em 1962 que uma aparição não programada em uma sessão de gravação da Stax que levou Redding a um contrato e seu primeiro single, a doce canção “These Arms of Mine”.

 

Desde esse momento a Stax apostou fortemente em Redding, lançando o primeiro disco do cantor, intitulado “Pain in My Heart” em 1964. Desde o início, Otis Redding já conseguia obter o feito de alcançar muito mais do que o público negro, entrando para as paradas do pop americano. Otis junto a sua banda fez shows no sul dos Estados Unidos, se apresentou no Whiskey a Go Go e viajou pela Europa, fazendo shows em Londres, Paris e outras grandes cidades, além de também ter sido atração no Monterey Pop Festival em 1967.

 

“These Arms of Mine”, “Try a Little Tenderness”, “Pain in My Heart” são alguns dos exemplos de canções que se imortalizaram na voz de Otis, um homem de aproximadamente 1.90m, doce, talentosíssimo, divertido, sensível e que tinha mil ideias ao mesmo tempo. A lenda diz que para compor “Dock of the Bay”, Otis teve algumas epifanias. A primeira delas? Escutar atentamente ao “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles. O início dos anos 60 marcava o primeiro verão do amor e a história diz que Otis se apaixonou pelo oitavo e revolucionário álbum do Fab Four.

 

A lenda continua dizendo que a segunda revelação de Otis foi no Monterey Pop Festival, em 1967, mais precisamente no dia 17 de junho daquele ano em que cinco músicas performadas pelo cantor (“Shake”, “Respect”, “I’ve Been Loving You Too Long”, “Satisfaction” e “Try a Little Tenderness”) tomaram as pessoas com uma grande emoção. Ali aconteceu um dos maiores níveis de expressão musical e de interação entre cantor e plateia, explodindo em um grande instinto de amor e entrega através da música.

 

Depois disso, Otis entrou em turnê. Alugou uma casa flutuante em Sausalito e passava horas ali vendo os barcos indo e voltando. Em marcha lenta mas sempre em movimento, como a água, Otis foi compondo “Dock of The Bay” com uma paciência e sensibilidade que só um grande artista poderia ter. Quando o cantor foi para casa, tocou a música para a sua esposa, Zelma, que de primeira não entendeu muito bem. Isso porque “Dock of The Bay” tinha um andamento diferente das músicas que Otis cantava até então. Era mais simples, mas também sinuosa, com algumas mudanças de tempo e outras inovações sutis.

 

Quando entrou em estúdio em novembro de 1967, Otis, como esperado, estava com mil ideias. Mas Otis queria mesmo era começar com a principal, aquela querida dos seus olhos, “(Sittin ‘On) The Dock of the Bay”.

 

Para a nossa sorte, o jornalista Stanley Booth estava presente quando Otis Redding apoiou seu violão no colo e começou a cantarolar e tocar “(Sittin ‘On) The Dock of the Bay” com o apoio dos músicos da sua banda, Brooker T., Duck Dunn, Al Jackson e Crooper. Aquela foi uma verdadeira improvisação e a banda de Otis tentava (e conseguia) acompanhar a grande obra de arte que finalmente tomou forma naquele mágico momento que talvez só músicos devem entender: a comunicação através de sons, notas, acordes e sensibilidade. Foi assim que em poucos takes, “Dock of the Bay” estava predestinada à imortalidade.

 

Dois dias após o nascimento de “Dock of The Bay”, Otis tomou um avião com sua banda até Cleveland para a gravação de um programa de TV. Ainda naquela noite, se apresentaram no Leo’s, uma casa de shows do local. No dia seguinte ocorreria um show em Madison. O tempo estava horrível para uma viagem de avião, mas Otis não gostava de deixar o seu público na mão e por isso decidiu ir mesmo sob condições adversas.

 

Foi mais ou menos às três e meia da manhã que o avião onde Otis e sua banda estavam não suportou a tempestade e caiu nas águas do lago Monona. No dia 10 de dezembro de 1967, com apenas 26 anos e no auge de sua carreira, Otis Redding morria em um terrível acidente de avião.

 

A notícia era inacreditável. A Stax Records declarou luto. “Dock of The Bay” foi lançada postumamente e se tornou um sucesso absoluto, indo para os primeiros lugares das paradas de R&B, além de obter o feito de ganhar dois prêmios Grammy, o de melhor música de R&B e melhor interpretação masculina do gênero.

 

Em algum lugar talvez Otis estivesse feliz por ter construído o seu legado da forma que queria, misturando ritmos e cantando com liberdade.

 

Para mim, desde a primeira vez que ouvi “Dock of The Bay” eu não me esqueci do que ela me fez sentir: liberdade e um pouco de calma. Foi por isso que a coloquei nessas listas ingênuas que fazemos, como aquelas de listas de músicas preferidas que acabam fazendo parte de nós.

 

Pensei – e penso – que em um mundo que nos exige produtividade e rapidez, que nos condiciona a estarmos conectados o tempo todo, sentar no piér de algum porto, assistir aos barcos passarem até que o pôr-do-sol toque a maré parece até um luxo inalcançável ou algum tipo de loucura sabática de ermitões. E talvez more aí uma das maiores pretensões despretensiosas de “Dock of The Bay”: precisamos parar e respirar, apenas.

 

“Dock of The Bay” ainda não me fez ver as águas da baía de São Francisco com a calma que eu gostaria, assim como Otis fez em 1967, mas me ensina a parar de vez em quando. A entender que o tempo é precioso, mas não é por isso que devemos gastá-lo com meras atividades que são consideradas úteis. Uma vez me disseram: “se você não tem tempo para não fazer nada, algo está errado na sua vida”. Otis me ensinou, com doçura e sensibilidade – e com o bônus de sua voz inconfundível – que de vez em quando o melhor que podemos fazer é observar as simplicidades das vinte e quatro horas do nosso dia e simplesmente deixar o tempo passar.

 

 

Maisa Carvalho

Maísa Carvalho é piauiense com toques paulistas, estuda Direito, é curiosa com as coisas do mundo, amante das artes humanas e apaixonada por música.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *