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CBF – Em campo pelo não-futebol

 

 

No balancete financeiro trimestral, o futebol brasileiro vai muito bem, obrigado. Mas para quem ainda busca no esporte uma conexão com algo mais profundo, o cenário exige uma reflexão mais, digamos, séria. Em 1979, a cantora canadense Joni Mitchell explicou à revista Rolling Stone que o sucesso comercial trazia consigo um fardo invisível: a obrigação de gerenciar o próprio capital acabava por sufocar o tempo da criação livre. Para Joni, quando o foco se desloca da paixão artística para a mera administração de ativos, a espontaneidade é a primeira a perder espaço para o pragmatismo. Quase cinco décadas depois, essa lógica ajuda a entender o divórcio afetivo entre o brasileiro e a sua Seleção. O que assistimos nas últimas cinco Copas do Mundo é apenas o resultado previsível de uma engrenagem que transformou uma identidade cultural em uma holding de entretenimento global. É a vitória do negócio sobre o jogo.

 

Essa prioridade corporativa exige uma espécie de “limpeza estética” que começa muito antes de o atleta chegar ao profissional. O Brasil aceitou com naturalidade a posição de exportador de commodities humanas para alimentar o moedor de carne do futebol dos últimos tempos. Esse extrativismo precoce revela um problema estrutural: a falência da nossa formação de cidadãos. Retirados da escola e do convívio social cada vez mais cedo por redes de empresários, nossos jovens talentos são engolidos pelas exigências de uma cartilha global que prioriza a eficiência limpinha a todo custo. O filósofo Byung-Chul Han define esse perfil como o “empresário de si mesmo”: indivíduos focados na performance extrema, mas desprovidos de senso crítico, maturidade política ou senso de pertencimento. O jogador moderno nem escolhe ser alienado ou não; ele é apenas o operário de luxo desse sistema que baniu o ócio criativo.

 

Essa realidade chega a assumir contornos quase caricaturais. Hoje mesmo, dia 01 de junho de 2026, uma matéria publicada pelo portal g1 revela que as chuteiras utilizadas pelos atletas chegam a custar R$ 2.300 nas vitrines. Esta faixa de preço diz respeito a opções convencionais; no caso de modelos customizados da linha “Elite”, como os de Vini Jr., eles viram peças de ficção inacessíveis ao mercado nacional. O instrumento de trabalho do jogador virou um artigo de luxo, um outdoor ambulante que confirma o abismo entre o ídolo e a arquibancada.

 

Essa desconexão humana acabou cobrando um preço alto fora de campo. Nos últimos anos, a camisa amarela sofreu um profundo desgaste político, sendo capturada por disputas ideológicas que rasgaram o tecido de união que o futebol costumava costurar. O manto sagrado, que antes pertencia a todos, virou um uniforme de partidarismo e discórdia, afastando o torcedor comum que já não se enxergava naquele símbolo. Em vez de agir para recuperar essa mística e reaproximar o povo, a CBF preferiu ignorar a ferida social e dobrar a aposta no mercado. A solução da confederação foi se alinhar cegamente à filosofia da própria FIFA — uma entidade historicamente viciada em dinheiro e disposta a qualquer negócio para manter o fluxo de grana girando. Afinal, estamos falando da mesma instituição que levou a Copa do Mundo para os desertos do Catar e que, num golpe de relações-públicas cínicas, inventou e entregou o seu “Prêmio da Paz” para Donald Trump na reta final de 2025. Quando o topo da pirâmide do futebol opera nesse nível de pragmatismo financeiro, o esporte passa a ser apenas um detalhe incômodo.

 

Essa posição institucional encontrou sua tradução geográfica na imposição do “Padrão FIFA”, uma cartilha de desterritorialização que transformou os antigos caldeirões populares em arenas frias, assépticas e idênticas em qualquer lugar do globo. Ao elitizar os ingressos e abolir os setores de geral onde o povo assistia ao jogo de pé, o sistema operou uma higienização social deliberada. Tirou-se dali a dita “impureza” do torcedor mais humilde, o sujeito das classes populares para quem o futebol sempre foi — e resiste em ser — uma das poucas e mais poderosas válvulas de escape e ferramentas de identificação coletiva diante de uma realidade de exclusão. Substituiu-se a catarse por plateias endinheiradas, sentadas e comportadas, cujo comportamento dócil protege a integridade do produto cenográfico. Sem o cimento quente e a poeira do subúrbio, o espaço sagrado foi domesticado para virar um grande teatro corporativo.

 

A máquina, contudo, não gira no vácuo. Conforme o sociólogo Pierre Bourdieu descreveu ao analisar o “jornalismo de complacência”, a grande mídia, sócia desse processo mercantil através de cotas bilionárias de transmissão, abdicou do dever de criticar para assumir o papel confortável de torcedora oficial. Com a ajuda da imprensa, a mística da seleção foi higienizada e transformada em um evento de lifestyle, parindo o conceito do “não-futebol”. Surgiu, então, o consumidor dos sonhos das marcas: um público ávido por pegar carona na estética da Copa do Mundo, desde que ela venha desinfetada da crueza popular e do sofrimento de uma derrota de verdade. É o triunfo da imagem sobre a vivência, previsto por Guy Debord em seu famoso livro “A Sociedade do Espetáculo”. O produto “Seleção” passou a ser consumido por pessoas que adoram a festa instagramável da conveniência, mas que achariam insuportável o futebol em seu estado bruto.

 

Foi dentro desse cenário de ilusões que a CBF buscou Carlo Ancelotti. O badalado técnico italiano chegou com a promessa de ser a voz de autoridade capaz de reorganizar o caos e devolver o respeito desportivo à nossa camisa. O engano, contudo, revelou-se duplo. No aspecto técnico, o pragmatismo europeu de Ancelotti tem se mostrado engessado para entender a essência do drible e da improvisação que definem o jogador brasileiro, resultando em um time mecanizado e sem alma. No aspecto institucional, a autoridade do treinador foi rapidamente engolida pelo marketing. Antes de consolidar qualquer padrão tático duradouro na equipe, Ancelotti já havia sido transformado em um garoto-propaganda onipresente de campanhas publicitárias da própria confederação e de marcas parceiras. A grife de seu terno elegante virou o verniz de competência necessário para que o mercado continue acreditando que o jogo da seleção brasileira ainda importa.

 

O retrato mais fiel dessa desidratação cultural foi o amistoso de ontem, 31 de maio de 2026, no Maracanã. A goleada por 6 a 2 sobre o frágil Panamá foi vendida pela transmissão oficial com um entusiasmo artificial que beirou o ridículo. Em campo, diante de um público de ocasião que parecia assistir a um espetáculo de teatro, o placar elástico escondeu a absoluta irrelevância técnica do confronto. O jogo não serviu como teste real para a Copa do Mundo que, como diria o saudoso Fernando Vanucci, “está logo ali”, mas funcionou perfeitamente como gerador de clipes rápidos para as redes sociais e ativações de marcas no TikTok.

 

Como o escritor Eduardo Galeano gostava de lembrar, a história do futebol moderno tem sido uma triste viagem do prazer ao dever, onde a eficiência proibiu a loucura. No Brasil atual, sob a bênção do “Padrão FIFA”, essa proibição se transformou em um extrativismo afetivo: o torcedor comum é convidado, por pura inércia e nostalgia, a doar seu amor genuíno para uma máquina que só devolve dividendos para quem já está no topo. O campo deixou de ser o palco da identidade de um povo para virar o cenário de um comercial de luxo em horário nobre. Uma festa dócil e controlada, onde o capital vence muito antes do apito inicial.

 

E olha que a gente nem falou no Neymar durante todo o texto.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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