Alguns pitacos sobre a função da crítica
Eu decidi muito cedo o que queria fazer da vida. No meu aniversário de 14 anos, meu pai me presenteou com a assinatura de duas revistas: “Superinteressante” e “Bizz”.
Eu gostava da primeira, mas era apaixonado mesmo pela “Bizz”, que já comprava nas bancas antes mesmo de ser assinante. Tinha cravado já naquela época: eu seria crítico de música! Parece exótico para um pré-adolescente, mas já era extremamente cristalino para mim. Fui muito influenciado pelas duas primeiras gerações de escribas da “Bizz”. Gente como Alex Antunes, Ana Maria Bahiana, Ana Maria G. de Lemos, André Forastieri, Celso Pucci, Carlos Eduardo Miranda, Pedro Só, José Julio Do Espirito Santo, Ayrton Mugnaini Jr. e tantos outros.
Num segundo momento, Tárik de Souza (o inventor da crítica musical no Brasil) e José Teles, que escrevia para o “Jornal do Commercio”, no Recife. Boa parte desse pessoal virou meu amigo, fato de que muito me orgulho. Depois expandi meu universo para “Crítica Cultural”, abordando também literatura, cinema, teatro, artes plásticas, etc. Mas, afinal, qual a função da crítica? É simplesmente esculhambar a obra de determinado artista ou enchê-lo de elogios? Vai muito além disso, e garanto que me matei de estudar para exercer tal ofício.
Sempre me lembro de uma cena genial do filme “A História do Mundo” (1981), de Mel Brooks. O longa é narrado por ninguém menos que Orson Welles, diretor da obra-prima “Cidadão Kane” (1941). A referida cena mostra um homem das cavernas descobrindo a pintura, ao pintar nas pedras uma espécie de mural. Entra, então, a voz de Welles, para dizer: “E assim nasceu a arte”. Logo depois, surge outro homem das cavernas, que parece analisar a obra. Num súbito movimento, ele passa a urinar na pintura. E Orson Welles diz: “E assim nasceu a crítica de arte”. Apesar de ser muito engraçada, parece mais um recurso de Mel Brooks para se vingar dos críticos de cinema.
É preciso um cuidado muito grande para um crítico não se transformar apenas num sujeito que rotula produtos culturais a serem consumidos pelo público. Segundo o jornalista e sociólogo Marcelo Coelho, o crítico precisa fugir da tentação de ser um mero “controlador de qualidade” ou um “medidor de obras”. E, quem acha que a crítica é um fenômeno recente, está redondamente enganado.
Para o crítico marxista inglês Terry Eagleton, a crítica surge entre os séculos XVII e XVIII. Para o autor, “A moderna crítica europeia nasceu de uma luta contra o Estado absolutista”. Ou seja, era um movimento, antes de tudo, político. E ele vai além: “o conceito de crítica não pode ser desvinculado da instituição da esfera pública. Todo julgamento é concebido com vistas a um determinado público, e a comunicação com o leitor é parte integrante do sistema”.
Em outras palavras, a crítica é uma ponte entre o público e determinada obra. Mas ela é a verdade universal e inabalável? Óbvio que não, porque estamos lidando com subjetividades. Ao contrário de um texto jornalístico que pretende chegar o mais próximo possível da veracidade dos fatos, a crítica sempre será uma argumentação opinativa. E isso pode gerar sérios problemas.
Como trabalhei em alguns veículos que davam total liberdade editorial para seus jornalistas, muitas vezes confundi “liberdade” com “falta de respeito”, e não foram poucas as vezes em que me senti na obrigação de pedir desculpas para determinados artistas. Estamos sempre trabalhando no fio da navalha entre uma crítica respeitosa e a mais pura esculhambação.
A tentação é grande para se transformar em uma fábrica de insultos irônicos e perversos. E só o tempo faz com que encontremos o equilíbrio para não cair na armadilha de ser respeitoso demais ou agressivo acima da medida. É novamente Eagleton que nos chama a atenção: “O papel do crítico é administrar essas normas, numa dupla recusa do absolutismo e da anarquia”. Afinal, como insiste o autor, “convencer não significa dominar, e expor as opiniões pessoais é um ato de colaboração”. Garanto que não é uma tarefa fácil.
Quando ainda era estudante de jornalismo, tive a ideia, junto com as hoje também jornalistas Cáthia Rabelo e Juliana Moreira, de produzir um pequeno documentário intitulado “A Crítica da Crítica – A Arte de Ser Talentoso Criticando o Talento Alheio”. Os nossos principais objetivos eram descobrir se existia algum poder legislador que fizesse um julgamento da Crítica, ou qual seria a relação entre críticos e criticados.
Entrevistamos artistas como Silvério Pessoa, Cannibal (Devotos) e demais nomes, assim como o jornalista José Teles. A entrevista com Teles me deixou perturbadoramente angustiado. Ao ser questionado sobre o papel e a influência do crítico, ele respondeu na lata: “Influência nenhuma. Se nosso trabalho realmente tivesse alguma relevância, nenhuma dessas porcarias que ouvimos na rádio e na TV fariam sucesso”. Acho que ele tem, até hoje, um pouco de razão.
Outra coisa que me incomodava era o crítico ficar amigo de artistas. Depois descobri que, em alguns casos, é impossível não estabelecer uma relação de amizade com alguns músicos. E que é possível fazer um trabalho sério mesmo sendo amigo de alguns artistas. Tenho como principal exemplo minha relação com os integrantes do Devotos. Apesar de considerá-los meus irmãos, jamais abri mão de criticá-los quando achava que era o caso. E descobri que a banda lida muito bem com isso.
Cannibal chegou a me dizer, num bate-papo informal: “Não tenho o menor problema com quem não gosta do som da Devotos. Eu só quero que expliquem o motivo”. São poucos os artistas que têm uma visão tão bem apurada sobre as críticas que recebem.
Para quem quiser se aprofundar no tema, recomendo os seguintes livros:
– “A Função da Crítica”; Terry Eagleton, Ed. Martins Fontes
– “Crítica Cultural: Teoria e Prática; Marcelo Coelho, Ed. Publifolha
– “Minoridade Crítica – A Ópera e o Teatro Nos Folhetins da Corte; Luiz Antônio Giron, Ed. Ediouro

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

A crítica é sempre muito importante quando é feita com responsabilidade, desprovida de arrogância e leve em conta o modo de vida das pessoas envolvidas em determinados seguimentos. A cultura precisa ser um debate constante e saber criticar é também arte e conhecimento.
Por melhor que seja um trabalho cultural, ou não, sempee haverá as pessoas que apreciem ou que critiquem. O importante é o tom respeitoso, uma crítica imparcial e construtiva que justifique a compreensão que se tem do que se opina. Afinal, a opinião é individual, mas exige responsabilidade com o que se divulga pela influência que exerce num universo de ideias mais amplo. Sucesso, Hugo Montarroyos!❤