Violet Grohl, muito além da filhinha do papai

Violet Grohl – Be Sweet To Me
32′, 11 faixas
(Sacred Heart)
(4 / 5)
Ainda que Violet Grohl tenha um nome, ou melhor, um sobrenome a zelar, este seu primeiro disco a tem somente no papel de cantora e guitarrista. Ela não assina nenhuma das onze faixas que “Be Sweet To Me” traz, ainda que seja possível presumir que essas canções tenham compostas tendo em mente que seria Violet a interpretá-las. Os responsáveis pela autoria de tudo que se ouve aqui são Joe Kennedy, Brad Lauchert, Anthony Paul Lopez e Justin Raisen, que tocam em todas as faixas e produzem o álbum. Sendo assim, dá pra gente dizer que “Be Sweet To Me”, mais que um disco de Violet, é um trabalho de uma banda, entrosada, bem pensada e com uma proposta bem clara de música: evocar timbres e dinâmicas que nasceram no rock americano de guitarras dos anos 1990, mais precisamente no que se convencionou chamar de grunge. A cada dia que passa, o argumento “você já ouviu isso antes” perde força diante das várias idas e vindas temporais de influências, estéticas e sonoridades que vão se dobrando sobre si mesmas, o que faz este álbum não trazer nada realmente novo. Pelo contrário, o que Violet propõe aqui é uma tonalidade um pouco mais dark e “legítima” de punk-alt-pop tão em voga nos tempos atuais. Senão vejamos.
A começar pelos bastidores de estúdio, o processo de gravação de “Be Sweet To Me” reflete perfeitamente esse espírito coletivo. Sob o comando de Justin Raisen, que já pilotou estúdios para Kim Gordon, Angel Olsen e Charli XCX, as sessões se orientaram pelo espírito de “estamos tocando ao vivo e isso é importante”. Gravado em grande parte sem overdubs, com os quatro compositores-músicos empunhando os instrumentos na mesma sala em que Violet soltava a voz, o álbum almeja – e algumas vezes, consegue – a naturalidade de fita cassete. Essa escolha deliberada por uma produção menos polida visa sustentar o peso das guitarras e também amarra as pontas de um repertório que, nas mãos de um produtor menos atento, poderia soar como mero exercício saudosista. Ao deixar de lado o papel de compositora e se lançar como a voz e a guitarra desse quarteto de veteranos, Violet acaba assumindo o papel da engrenagem que faltava para pôr a máquina de Raisen em marcha.
Essa lógica é bem pensada e salta aos olhos logo na abertura com “THUM”. A faixa chega chegando, escorada em uma linha de baixo forte e guitarras de afinação baixa dão uma piscada de olhos para o stoner rock. O vocal de Violet aqui brinca com as dinâmicas clássicas do início dos anos 90, deslizando de um registro sussurrado e quase indiferente para o ríspido sem perder a pose. Na sequência, “595” recebe o ouvinte com uma névoa climática tipicamente shoegaze, que vai sendo engolida aos poucos, até ser atropelada por uma bateria reta e seca, culminando em um refrão que carrega alguma urgência de porão, tão em falta no mercado corporativo atual. É o tipo de construção que deixa claro que o entrosamento do quarteto de apoio não é de mentira; as transições são ásperas, o timbre é gordo e não há concessões para melodias fáceis de rádio de shopping.
O miolo do álbum guarda os momentos em que essa assinatura coletiva se consolida. O single “Bug In The Cake” funciona como o motor do trabalho, uma faixa curta e urgente feita sob medida para quem gosta de Garbage, talvez a melhor banda que soube se apropriar dos maneirismos grunge e levá-los para outro lugar. Sustentada por uma levada neurótica, a canção usa e abusa do sarcasmo vocal de Violet para soar um punk-alt-pop certeiro, justificando sua escolha como cartão de visitas do projeto nas plataformas. “Big Memory”, pr sua vez, talvez seja o momento mais dinâmico e bem pensado em termos pop de todo o álbum. Chega a lembrar “Big Me” e outras canções do Foo inicial. A surpresa vem quando o disco desacelera para terrenos mais densos e sombrios, com “Mobile Star”, um quase trip hop e quando chega “Often Others”, que tenta reproduzir texturas mais pesadas do grunge noventista, temos Violet emulando até os vocais distorcidos da época.
Ao se posicionar dessa forma, Violet Grohl acaba cavando um espaço muito particular no cenário musical contemporâneo. Enquanto nomes como Olivia Rodrigo e Billie Eilish flertam com a estética pop-punk e com o alternativo a partir de uma ótica de superprodução de arena — onde a nostalgia é envelopada para o consumo rápido —, Violet tenta fazer o caminho inverso. O seu norte estético dialoga de forma muito mais estreita com a aspereza autoral de Wednesday ou com o despojamento de Wet Leg, artistas que preferem o risco das margens e a dinâmica orgânica de instrumentos reais à segurança dos algoritmos. “Be Sweet To Me” triunfa mais pela liderança de uma banda afiada e consciente de sua linhagem, com Violet Grohl participando ativamente do todo. Essa galera fez um disco com gordura pra queimar, boas canções e a impressão de que Violet ainda pode render mais. Aguardaremos.
Ouça primeiro: “THUM”, “595”, “Often Others”, “Big Memory”, “Bug In The Cake”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
