O “Brado” de Marcelo Callado é justo

Marcelo Callado – Brado
38′, 10 faixas
(Nublu Records)
(4 / 5)
“Lenta chuva que caiu na margem do rio onde uma mulher agachada enxugava seu pranto // Isso pode ser uma imagem e tanto // Entanto …”. Este é Marcelo Callado – a certa altura, em “Encanto”, segunda faixa de seu sexto álbum solo, “Brado” – cantando sobre sua visão personalíssima de saudade, solidão, perplexidade e parvo diante do cotidiano que se impõe sobre nossas vidas. Sabemos que não é fácil descrever as sensações que experimentamos nesses tempos, mas as tentativas não param de se suceder, o que nos dá a impressão de que não estamos sozinhos. Talvez daí venha o título do trabalho, que materializa o grito diante disso tudo, a vontade de dizer que tem muita coisa errada, muita gente fazendo muita besteira e demais sentimentos que parecem irracionais, mas que, no fim das contas, são nossas provas mais concretas de sensibilidade e razão. Peço perdão por esta tentativa de teorizar sobre o que passa na cabeça do criador do álbum, mas dá quase pra cravar esses motivos. E a “esquisitice” que permeia a música de Marcelo dialoga muito bem com essa condição forçada de espectador do caos, posto no qual a capacidade de notar os detalhes não significa estar a salvo das agruras que acontecem. Daí a necessidade de gritar. Faz todo o sentido.
Marcelo Callado é baterista e guitarrista, já tocou com gente tão talentosa como Rubinho Jacobina, Nina Becker, Kassin, Jorge Mautner, Alice Caymmi, Ava Rocha, Branco Melo e Caetano Veloso, além do adorável projeto Lafayette e os Tremendões. Também integrou/integra bandas clássicas da música alternativa carioca, a saber, Canastra, Do Amor e Tripa Seca, sempre praticando essa música inquieta, avessa à muvuca simplificante de sons. Certamente ele ficou mais conhecido do público quando integrou a Banda Cê (junto com Pedro Sá e Ricardo Dias Gomes), que acompanhou Caetano Veloso em sua “trilogia Cê” e nas turnês desses álbuns, a saber, além do próprio “Cê” (2006), “Zii e Zie” (2009) e “Abraçaço” (2012). Foi um período em que a obra de Caetano levou uma boa sacudida de informação e urgência, inclusive de rock alternativo informado pelo guitar rock americano dos anos 1990, especialmente de gente como Sonic Youth e Pixies. A música de Callado tem grande identificação com essa visão pós-anos 1990 do rock e tem muito dessa característica “alternativa”, que significa guitarras distorcidas, produção que soa largada mas que é meticulosa e irreverência com convenções clássicas de qualquer espécie. Tudo isso está presente em “Brado”.
“Brado” também está numa trilogia. O disco conclui a sequência iniciada com “Saída” (2020) e continuada em “Hiato” (2021). Como eles, tem a ver com as mudanças e sensações vivenciadas na pandemia da covid-19. Produzido, gravado e mixado por Paulo Emmery, o álbum começou a tomar forma em 2024 a partir de sessões realizadas no estúdio do produtor. O processo partiu de um conjunto inicial de composições de Callado e foi ganhando corpo com resgates de músicas antigas, novas parcerias e rearranjos pensados durante as gravações. Dentre essas canções, há vários momentos muito bacanas, que vão do lirismo inspiradíssimo do verso que abre este texto, pertencente a uma das mais belas canções do álbum, “Encanto”, ao outro lado, com “Você me trocou por uma mariola e nem olhou pra trás // Me jogou no chão, chutou as minhas bolas, disse não me querer mais // Me fodi, me estrepei, chorei, sangrei, quase sucumbi”, em “Mariola”, um enraivecido rock de têmpera lo-fi. E tem sutilezas muito sutis, como “Pisa Leve”, quase uma canção de ninar, que virou um dueto com interpretação de cantora e compositora sergipana Tori.
Paulo Emmery, que produz e colabora por todo o álbum, forneceu a belezura que é “Aquário”, uma canção de violões dedilhados, com arranjo delicado que contrasta com a dureza da letra que fala de solidão e rompimento (“Sobras de encontros, que emudecem, tecendo nós”). Porém, cuidado: em algum ponto no meio da faixa, tudo muda e o mundo parece desabar em quem estava esperando brandura. Junto com “Encanto” e a belíssima “Entre As Estrelas”, uma balada meio country, meio Neil Young safra 1974, na verdade, uma regravação de “Packing To Leave”, uma colaboração de Callado com Nina Becker, no álbum “Gambito Budapeste” (2012). A letra em português dá mais foco à canção. Estas três ão as canções mais belas do álbum. E o fecho ainda tem “Caio”, rock em câmera lenta, cheio de guitarras que se aproximam rapidamente, dedicado ao amigo Caio Paiva, que faleceu em 2023. Além de Callado e Emmery, participam de “Brado” Megan Duus, Thomas Harres, Eduardo Manso e Antonio Dal Bó.
Este é um disco que exige tempo para ser compreendido totalmente. A boa notícia é que este investimento de tempo por parte do ouvinte é plenamente justificado. “Brado” é sólido, sincero e tem ótimas canções. Bravo.
Ouça primeiro: “Aquário”, “Encanto”, “Entre As Estrelas”, “Pisa Leve”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
