Os trinta anos de “Ben Folds Five”

Eu já escrevi aqui na Célula Pop sobre o meu amor à primeira audição com o primeiro álbum do grupo americano Ben Folds Five. Você pode ler aqui e relembrar. Ainda que seja um disco extremamente querido, tanto pelo valor afetivo, como pela genialidade – que ainda está lá – confesso que não o ouço muito. Não sei o motivo, pois, como disse, é um trabalho que amo profundamente. Talvez seja porque a maior qualidade dele seja a sua quase desconcertante espontaneidade. Ben Folds (piano e vocais), Darren Jessee (bateria) e Robert Sledge (baixo), produzidos por Caleb Southern, misturaram nerdice existencial, Elton John, Billy Joel, Randy Newman e Beach Boys setentistas de um jeito até hoje único. As canções são maravilhosas, meio biográficas deles e de gente conhecida e tudo muito bem amarrado.
Há cerca de uma semana vi uma postagem de Ben na qual ele fazia uma longa reflexão sobre a importância do disco e que ares ele havia adquirido nesses trinta anos. O Ben Folds de hoje, com 58 anos, analisando e tentando compreender o que o Ben Folds de 28 anos havia feito de tão certo – e tão errado. Cheguei à conclusão que não há melhor forma de lembrar desses trinta anos do que transcrevendo as palavras de Ben e compartilhando com os leitores da Célula Pop. Os créditos vão para o próprio Ben e para seu perfil no Facebook.
Em tempo: ouça o disco. Apenas. Depois de compreender o que esses caras fizeram ali, vá para os outros dois álbuns do trio e as coletâneas de lados B e sobras. Só aí vá para a carreira solo de Folds, que é irregular mas, ainda assim, cheia de lindezas. Com vocês, Ben Folds.
Hoje, em turnê, eu acordei com a ficha caindo de que o primeiro álbum do Ben Folds Five foi lançado 30 anos atrás, neste exato dia.
Agora estou no ônibus, a caminho de um show em Las Vegas, então peguei meus fones de ouvido e estou fazendo algo que acho que não fazia desde o lançamento do álbum: ouvindo-o!
Aqui está a minha opinião, aos 58 anos, sobre o disco que fizemos quando eu tinha 28:
No geral, é bom! Não é o tipo de álbum que se produziria hoje em dia. É bem bruto e caótico, na maioria das vezes de uma forma positiva. E é enfaticamente único. É de uma época em que você ainda conseguia identificar uma banda pelos instrumentistas, antes mesmo de ouvir o vocalista. Não acho que isso tenha acontecido desde que os computadores nos permitiram acertar tudo perfeitamente.
Não me interpretem mal, o computador não arruinou a música nem nada. De certa forma, ter as ferramentas para fazer a bateria soar sempre perfeita, no lugar certo, e poder escolher o timbre do baixo num menu, pode ter sido uma coisa boa. Hoje você pode garantir que o vocal esteja afinado e em primeiro plano, sem ter que passar anos tentando. Não vou criticar nada disso. A abordagem atual de gravação também permite que a música seja o foco principal.
Antes do computador, a música que alcançava esse tipo de foco e profundidade era feita por uma equipe de virtuosos — como em um disco de Frank Sinatra ou Steely Dan — ou um álbum que era tão trabalhado que acabava arruinado, pois levava muito tempo para ser finalizado. O nosso primeiro disco, que estou ouvindo agora, jamais teria sido feito se tivéssemos acesso a todas as ferramentas que temos hoje, e não seríamos capazes de alcançar o tamanho, a coesão e o foco do álbum sem gastar tempo demais e perder o controle. Este primeiro disco do Ben Folds Five nem sequer TENTA fazer o que a maioria aspira, com ou sem a tecnologia, e essa é uma das primeiras coisas que percebo ao ouvir. Muitos roqueiros indies dos anos 90 afirmavam ser crus e não se importar. Nós realmente vivíamos isso, embora não seja tão óbvio porque a música é baseada em piano e canções complexas, o que era uma combinação estranha.
Os andamentos estão por toda parte. O canto está por toda parte, até nos vocais de apoio. A voz é pequena e embutida na música, o que era algo típico dos anos 90. Não há nenhum efeito em nada. Acho que não há reverb, nem para criar uma profundidade sutil. Nenhum microfone de ambiente para criar espaço. Está tudo simplesmente LÁ. Uma técnica dominante, para quem entende de gravação, era a compressão paralela exagerada, que Caleb Southern, nosso produtor, tinha aprendido recentemente. Ela permitiu uma espécie de violência sonora que libertou a banda no disco.
Para o bem ou para o mal, uau. Estou ouvindo um disco que realmente se entrega, e fico feliz por termos feito tudo isso. Também é provável que isso tenha prejudicado o potencial do disco em termos de apelo comercial. Quem sabe? Mas eu apoio totalmente, pelo menos para este primeiro álbum. Às vezes, percebo agora que as canções não recebem o devido crédito por serem bem escritas, porque ficam em segundo plano em relação a uma onda de energia e performance que é o que chama a atenção primeiro. Gravações de estúdio sempre serão uma troca, então foi assim que fizemos. Aprovo o que estou ouvindo. Mas caramba, pareço um esquilo… haha.
Este álbum foi gravado em quatro dias… três, para ser justo. Um dia para fazer uma exibição para a gravadora. Dois dias de gravação propriamente dita. Um dia para todos os vocais. E um dia para a mixagem, em uma única sessão de 24 horas. O estúdio era um espaço comercial chamado Wave Castle. Foi literalmente construído para fazer comerciais. Ficava num condomínio de escritórios à beira de uma pequena rodovia, e lembro de Caleb, o produtor, desmaiando no corredor compartilhado, onde eu convenci um funcionário do escritório a não chamar a polícia, sugerindo que talvez uma ambulância fizesse mais sentido. Depois de um tempo, Caleb acordou, bebeu uma Coca e um bourbon, e continuou trabalhando. Ele tinha 25 anos, então estava bem.
O orçamento da Caroline Records, pelo que me lembro, foi de cerca de 14 mil dólares no total. Gastamos tudo isso numa sessão de três semanas em Filadélfia com um produtor de verdade que tinha alguns sucessos na bagagem e que nos deu um ótimo negócio. Esta versão do álbum foi arquivada e nunca viu a luz do dia. Tínhamos dedicado o tempo necessário e seguido o conselho do produtor muito competente, mas o resultado foi um álbum que não parecia ter a nossa cara. Só recentemente encontrei uma fita cassete deste álbum arquivado. Não é ruim, embora eu me lembrasse de ser horrível. É apenas não ser louco como o álbum que todos conhecemos. O álbum arquivado é contido, afinado e no lugar. As canções estão em primeiro plano.
O vocal está afinado e se encaixa no centro, dominando a gravação. Mas a banda soa genérica, e o cantor parece humilde. Um dia, vamos garantir que a fita cassete chegue à internet.
Tendo gastado os 14 mil dólares e sendo músicos falidos, essa primeira versão “muda” teria que ser lançada, e era isso. Quando você gasta o dinheiro, tem que lançar o disco. Ou não? Não conseguimos aceitar, então decidimos garantir que aquele disco não veria a luz do dia e optamos por fazer o que queríamos. Não queríamos que nosso primeiro álbum não fizesse sucesso e que tivéssemos que voltar aos nossos empregos diários.
Tínhamos detonado em nossos shows ao vivo, e sabíamos que as fitas de mesa de som dos shows eram especiais de um jeito que a nossa primeira gravação não era. Isso nos consumia. Havia algo transbordando, mesmo nas piores gravações ao vivo que tínhamos ouvido, e isso era revigorante. Não havia nada na primeira gravação arquivada do primeiro álbum que sugerisse qualquer coisa disso. Não poderíamos apenas fazer AQUILO?
Com isso em mente, nosso amigo Kerry nos arrumou 3 mil dólares para gravar alguns dias com Caleb, para que pudéssemos fazer o disco que queríamos. A gravadora NÃO queria que gravássemos o álbum inteiro. O conselho deles era fazer apenas algumas faixas para acertá-las, e se superássemos alguma das gravações que tínhamos feito com o outro produtor, poderíamos substituir essas poucas. Eles escolheram as canções que deveríamos regravar. Nós dissemos o que eles queriam ouvir, mas não tínhamos a intenção de fazer apenas algumas. Íamos gravar a porra toda de novo. O A&R da Caroline veio de Nova York para Chapel Hill, Carolina do Norte, onde estávamos gravando, no primeiro dia, para ter certeza de que estávamos gravando as músicas que eles tinham permitido, para nos dar notas e garantir que havia um adulto na sala.
Então o primeiro dia foi uma perda de tempo, fingindo fazer tudo “certo”, com overdubs e corrigindo erros, para a gravadora. Tão bobo. Mas lembro que gostamos de agir como se fôssemos super críticos e checando os andamentos etc. Nós NÃO usamos nada disso. Quando ele partiu para o aeroporto, começamos a gravar perigosamente, como tínhamos planejado. Tudo o que queríamos era soar como aquelas fitas cassete ao vivo cheias de chiados e distorções que tínhamos feito — só que sem o chiado e a distorção. Fácil o suficiente, certo?
O pequeno estúdio era barulhento demais para capturar um vocal ao vivo, e não tenho certeza se isso teria sido o melhor de qualquer forma. Então, depois de nossos dois dias de arrebentar com as 15 músicas que gravamos (algumas das faixas, como as gravações de “Emaline” e “Eddie Walker”, tiveram que ser lançadas mais tarde, já que a gravadora exigia um álbum mais curto), chegou o dia do vocal. Não me lembro de ter havido correções nas faixas da banda. Não tenho certeza se poderíamos ter feito isso tecnicamente naquele espaço, com tudo vazando para a próxima faixa. O dia do vocal foi feito em algumas sessões de uma hora para o vocal principal. Caleb me passava uma sequência musical. Ele não me dizia qual música era a próxima, então eu simplesmente entrava no estúdio segurando um Neumann U87.
Eu me agachava quando precisava de algo diferente. Encontrava um canto, andava de um lado para o outro. Sem começar e parar, exceto para trocar a fita multicanal. Caleb sentia que cada música soava e parecia diferente dependendo da sequência, e que isso fazia parte do apelo da fita cassete ao vivo, então fomos atrás disso. Quando o “set” terminava, Caleb reeditava a sequência das músicas à mão, com uma lâmina, enquanto se certificava de que eu estava bebendo, para que o próximo take estivesse mais bêbado do que o anterior. Fizemos alguns desses “sets” — houve um sóbrio, um mais bêbado e depois um cambaleando e totalmente embriagado (notavelmente “Uncle Walter”, haha).
A banda foi gravada em 12 canais. E os canais restantes podiam ser usados para algumas passagens, compiladas para um vocal principal, deixando Robert e Darren fazerem seus vocais de apoio, PROVAVELMENTE em uma única faixa, mas talvez cada um tenha um microfone (algumas vezes ouço uma expansão estéreo).
Depois, é claro, a mixagem de 24 horas. No meio de tudo isso, Caleb teve que voar para algum lugar para uma coisa de família, então eu assumi a mixagem de “Video” e “Boxing”. Ah! “Boxing”, certo. Essa consumiu algum tempo porque eu tinha escrito uma parte para um quarteto de cordas, mas não podíamos pagar por um, então um estudante veio, e nós gravamos as partes dele uma de cada vez. Eu teria escrito cordas para TUDO, mas o consenso era que nem nós, nem eu, tínhamos merecido isso. Precisávamos apenas tocar e ser honestos.
Quando a gravadora ouviu o disco, eles sabiam que estávamos certos. Não ficaram zangados conosco — apoio total. Nós o lançamos, e ele fez o que esperávamos.
Outras memórias sobre isso me vêm à mente.
Uma é que o álbum saiu exatamente quando havia uma enorme guerra de lances pelo nosso segundo álbum. Isso significou que a nossa primeira turnê oficial foi marcada pela constante presença da gravadora, o que tornou as coisas um pouco mais tensas, mesmo sendo emocionante. A maioria dos lendários chefes de gravadora da época veio nos ver em algum pequeno clube punk, onde nós mesmos movíamos meu piano de cauda para o palco e tocávamos o mais alto, rápido e feliz que podíamos.
Outra lembrança foi meio engraçada. O álbum custou 3 mil dólares para ser gravado (ou você pode dizer 17 mil, incluindo o álbum que foi arquivado, se quiser ser totalmente honesto), e a empolgação com o álbum nos colocou nas capas de todas as revistas independentes, com críticas excelentes e muitas execuções em rádios universitárias. Então, é claro, a gravadora precisava de vídeos, e gastamos 200 mil dólares neles! Uma proporção bem significativa do custo da música para o vídeo.
Última memória a compartilhar. Tenho um problema com o álbum, e não é a parte com falhas e tudo mais. Posso lidar com isso. É um pouco da afetação autoconsciente que ouço ao longo dele. E eu entendo o porquê, então perdoo o(s) jovem(ns). Todos os jovens artistas, ou quase todos, têm afetações, geralmente da época. Talvez seja o vocal fraco. Talvez seja emo, ou o cara velho do rock gritando.
Nós, ou eu sei que eu, me sentia oprimido pelo que era legal e o que não era. E então, eu me arrisquei, sendo bobo, a ponto de ser muitas vezes apenas estranho. Cada música tem um som engraçado, ou algo exagerado. Era uma rebelião. Eu desprezava toda aquela coisa de ter que ser sério, ter que ser sexy. E acho que Robert também sentia isso. Darren era mais neutro, assim como Caleb, então aposto que eles se encolheram na época. Enquanto ouço hoje, às vezes me encolho com alguns dos gritos extras de palhaço.
Eles não soam como eu, ou como eu realmente fui. Então, eles simplesmente não são autênticos, embora a ideia seja defensável. Não seja como todo mundo. Provavelmente, é uma coisa que poderia ter sido contida com um ou dois dias extras para Caleb me convencer de que eu estava sendo o tipo de palhaço que não estava ajudando minhas músicas. Mas na verdade, é uma coisa pequena. O “e tudo mais”, junto com as falhas, significa que é um retrato real de um período de tempo. Isso é raro, então eu dou um “joinha” para este álbum, e agora vou voltar a não ouvir minha própria música.
Feliz Aniversário, Robert e Darren. E obrigado, Caleb (RIP).

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
