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Peter Gabriel lança registros históricos ao vivo

 

 

 

 

Live At WOMAD 1982
56′, 9 faixas
(Realworld)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

 

Live At Big Room
90′, 14 faixas
(Realworld)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

Poucos artistas em atividade hoje merecem o epíteto de “gênio”. Peter Gabriel é um desses caras. Não tem a ver apenas com sua impressionante obra, mas muito por conta de sua postura como artista e sua constante curiosidade, que ele tão bem transforma em arte ou atitude. Ou ambas. Por isso, sempre que PG sai de seu complexo Realworld, gravadora, selo, estúdio, casa, ateliê, tudo junto, para emitir algum comunicado ou lançar disco, música, remix, a gente deve ouvir. Dois anúncios recentes davam conta do lançamento de registros ao vivo totalmente anticomerciais, que não foram lançados ao público quando de sua realização mas que, agora, com o passar do tempo, Gabriel achara por bem divulgar ao público. E quando falamos em “público” de Peter Gabriel, falamos em uma comunidade unida de pessoas pensantes, que se comunicam e interagem dentro do Full Moon Club, no qual, por três libras mensais, se tem acesso a essa produção não comercial, demos, rascunhos, pensamentos, versões, enfim, um mundo de PG para seus admiradores mais fieis. Sem falta que o próprio interage diretamente com essa galera. Dessa relação veio o primeiro anúncio: o lançamento de “Live At Big Room”, um álbum ao vivo, gravado no Realworld Studios em 2003. O segundo comunicado também falava de disco gravado ao vivo, o especialíssimo “Live At Womad, 1982”, registrado na primeira noite do festival idealizado por Gabriel com a missão de apresentar a produção musical de artistas de várias partes do mundo. Isso há 43 anos, gente. Sendo assim, “Live At Big Room” e “Live At Womad, 1982” são duas joias preciosas que chegam até os ouvintes do mundo. Acreditem, não é pouco.

 

Peter Gabriel entende de palco. Não à toa, um dos pontos altos de sua discografia é, justamente, “Plays Live”, disco duplo lançado em 1983. Ele sabe interagir com o público, sabe modificar suas canções na medida certa, além de oferecer performances intensas, que mudam todo o jogo que ele mesmo ergue no estúdio. Estes dois álbuns ao vivo são muito diferentes entre si, mas guardam a genialidade de PG em estado puro. “Live At Womad 1982” é mais curto, porém mais intenso e histórico. Aqui temos o show que encerrou a primeira noite do World Of Music, Arts and Dance (WOMAD) que Gabriel realizaria no interior da Inglaterra, anunciado como “uma apresentação em que PG tocaria material inédito para o público”. De fato, o repertório trouxe nada menos que sete faixas inéditas, que comporiam o repertório de seu vindouro disco, “4”, a ser lançado dois meses depois. Canções como “Shock The Monkey”, “San Jacinto”, “I Have The Touch”, que seriam incorporadas ao repertório mais conhecido do cantor. Ao fim do show, Gabriel agradece ao público dizendo que, sem o apoio das pessoas, dificilmente será possível voltar no ano seguinte, já dando conta do enorme prejuízo financeiro assumido por ele e seus sócios devido a todo tipo de problemas com transporte e acomodação de público e artistas. Depois do agradecimento, ele inicia uma versão solene de “Biko”, talvez sua canção mais conhecida então, presente em “3”, seu terceiro disco, lançado em 1980. Ao lado da banda, está a Ekomé, um coletivo de percussão e dança, de Bristol. O público se engaja na canção, como de costume.

 

É interessante notar que este Peter Gabriel, de 1982 e mesmo o de 1983, lançando “Plays Live”, estava – sem saber – encerrando um ciclo de sua carreira. Em 1985, viria sua primeira trilha para o cinema – belíssima – de “Asas da Liberdade” (“Birdy”), filme de Alan Parker. Aqui ele trabalharia com Daniel Lanois pela primeira vez, o cara com quem ele pensaria e produziria sua maior criação artística, o bombástico e incrível “So”, de 1986. Quem estava vivo e ouvindo música no planeta naquele tempo, lembra bem do clipe de “Sledgehammer” e da introdução marcante da canção. Ou do dueto emocionante com Kate Bush em “Don’t Give Up”. Ou ainda duas das canções mais lindas deste mundo, “In Your Eyes” e”Red Rain”. Isso sem falar em “Mercy Street”, que chegou a sonorizar a abertura da minissérie “O Sorriso do Lagarto”, em 1991. Três anos antes, em 1988, lá estava Gabriel compondo e lançando mais uma trilha sonora – “A Última Tentação de Cristo”, (“Passion”) – para o controverso filme de Martin Scorsese sobre a vida de Jesus.

 

Depois desse período, Peter Gabriel tornou-se um artista mais conhecido, mas soube preserver seu gume artístico. Sua discografia permaneceu elegante, econônica (apenas dois álbuns de inéditas na década de 1990 – “Us” – e dois nos anos 2000 – “OVO” – espécie de trilha sonora para uma performance feita por vários artistas no início do ano, para celebrar a chegada do novo milênio e o subestimadíssimo “Us”, de 2002). Quando ele entra no estúdio em 2003 para fazer o show de “Live In The Big Room”, é possível notar como já se trata de uma estrela mundial da música, mas, de alguma forma, é também o sujeito que acha válido tocar para membros do fã-clube. Pois é disso que se trata o álbum – uma apresentação para integrantes do Full Moon Club, a tal comunidade de ouvintes e admiradores mais ferrenhos de sua carreira. Era um momento – novembro de 2003 – que Peter estava fazendo algumas apresentações ao vivo, entre elas, uma participação no show “46664”, na Cidade do Cabo, em homenagem a Nelson Mandela.

 

O repertório mistura canções de todas as fases da carreira do homem, pegando tanto dos shows da “Growing Up Tour”, a primeira que ele fazia em dez anos e da seguinte, a “Still Growing Up Tour”, que teve apresentações até 2004. Seja o que for, seja de qual turnê, o que PG faz aqui é jogar em casa. O público está em sua mão, é cúmplice e fornece o ambiente ideal para ele desfilar clássicos como “Games Without Frontiers”, “The Tower That Ate People”, “Shock The Monkey”, “In Your Eyes”, “Mercy Street” e misturar com criações mais novas, como “Secret World” e “Diggin The Dirt”, e novíssimas, como as faixas de “Up”, do ano anterior – “Darkness” e “Signal To Noise”. A banda é a mesma que o acompanhava na época, com destaque para o superbaixista Tony Levin e a filha de Gabriel, Melanie.

 

Estes dois álbuns, com registros separados por 21 anos, mostram a excelência de um artista impressionante. Experimental mas acessível. Pop mas nunca banal. Inteligente mas possível e provável. Peter Gabriel é gente nossa. Ouça e mergulhe na carreira dele. Você merece.

 

 

Ouça primeiro: tudo.

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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