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The Cure: Quando o alternativo virou pop

 

 

 

Se você estava vivo em 1985, o ano do primeiro Rock in Rio, e guarda memórias da época, é impossível que não lembre de “In Between Days” e “Close To Me”. Eram músicas estouradas nas FMs e nas festas. A primeira delas virou tema da abertura do programa Clip Clip, que foi veiculado entre 1984 e 1987, e entrou na trilha sonora da novela Selva de Pedra (1986), também da Rede Globo.

 

É fácil ainda lembrar dos dois vídeos dessas canções. Num deles, a banda foi filmada por câmeras ambulantes, oscilando entre o preto-e-branco e cores fluorescentes. No outro, os rapazes estão enclausurados em um armário que acaba inundado depois de despencar no mar.

 

Para muita gente, são essas as faixas que resumem The Head on the Door, sexto álbum da The Cure, lançado em agosto de 1985. É um marco, em termos de público e de vendas. Foi a primeira vez que um LP da banda conquistou ouro na Inglaterra e nos Estados Unidos. Isso a levou a para lugares nunca antes visitados, como a Espanha, onde ocorreu o primeiro show de 1985, e como o Brasil, país do último show antes do lançamento de Kiss Me Kiss Me Kiss Me em 1987.

 

É impressionante o volume de coisas que a The Cure fez naquela época, como veremos. Com a formação estabelecida em 1985, gravaria, com o mesmo produtor, os álbuns que correspondem ao período de mais sucesso e projeção. Nada mal para uma banda que estava praticamente morta após a briga que em 1982 separou Simon Gallup de seus amigos Robert Smith e Lol Tolhurst. Isso aconteceu em um dos shows da turnê de Pornography. A The Cure que se reergueu, sempre com o apoio de sua gravadora, a Fiction, mostrou-se capaz de uma reinvenção. Mas o passado não foi deixado para trás.

 

 

O caminho até 1985

A chave virou com “Let’s Go to Bed”, um sinthpop com uma linha de baixo meio funk. Lançado em novembro de 1982, era bem diferente do clima claustrofóbico de Pornography. O que começou com uma quase brincadeira acabou dando certo. O single teve boa repercussão nos Estados Unidos, onde a banda começou a atrair um público diverso daquele que a seguia na Europa.

 

A MTV estava em ascensão e o vídeo que promoveu “Let’s Go to Bed” foi providencial. Era o começo de uma longa colaboração com Tim Pope, que em 1996 dirigiria The Crow: City of Angels. As imagens leves e coloridas projetavam algo pouco a ver com a cena gótica em que a The Cure estava metida.

 

A dupla remanescente havia se reconfigurado, pois Tolhurst largou as baquetas e assumiu os teclados, explorando os timbres abertos por novos modelos do instrumento. Assim lançaram mais dois singles em 1983, “The Walk”, que mantinha a pegada synthpop, e “The Lovecats”, que ia para o lado do jazz, uma coisa totalmente inédita para a The Cure. Os três singles e seus lados B foram empacotados em Japanese Whispers (1983).

 

Os destinos da banda ainda eram incertos, pois Smith também estava envolvido em outros projetos. Entre 1982 e 1984, acompanhou como guitarrista a Siouxie and the Banshees e com seu baixista, Steven Severin, gravou um álbum. A The Glove contou com Jeanette Landray na maioria dos vocais e Blue Sunshine (1983), esbanjando psicodelia, foi seu único lançamento.

 

Extenuado por essa atividade toda, regada com muito aditivos químicos, Smith desligou-se da banda de Siouxie já depois de ter gravado as faixas de The Top (1984). Embora o quinto álbum da The Cure tenha dependido basicamente das composições e arranjos de Smith, trouxe colaborações que definiram, ao menos por um tempo, a nova configuração da banda – responsável pelas 10 faixas registradas no ao vivo Concert (1984).

 

Andy Anderson, que já atuara em “The Lovecats” e Blue Sunshine, conduziu a percussão. Porl Thompson fez uma pequena participação tocando sax em “Give Me It”, mas era um velho conhecido de Crawley, quando foi parte dos primeiros movimentos do que se tornaria a The Cure. Como artista, Thompson assumiu os projetos visuais da banda desde Faith (1981). E Phil Thornaley, que foi o baixista na turnê de The Top, dando sequência a sua participação em “The Lovecats”, fora o produtor de Pornography.

 

Logo mais mudanças ocorreram. Em meio à turnê de 1984, Anderson é demitido e as baquetas afinal vão parar nas mãos de Boris Williams (até então dos Thompson Twins). Thornaley decide voltar ao trabalho de produtor, abrindo a brecha para o retorno de Gallup após uma reconciliação com Smith. Tolhurst continuava como membro fundador, embora sua participação estivesse severamente comprometida pelo abuso de álcool (como ele mesmo confessa em seu livro), coisa que o afastaria da banda antes das gravações de Wish (1992). Thompson o ajudava nos teclados e também fazia um contraponto com Smith nas guitarras. Foi com essa formação, versátil em termos musicais, que The Head on the Door foi registrado.

 

 

Um álbum com muitas cores

Apesar dessa formação ter resistido aos anos, em The Head on the Door Smith teve um papel destacadíssimo. Todas as composições são dele, que ainda assumiu a produção em parceria com David Allen, algo que já havia acontecido em The Top e continuaria até Wish. Os esboços das músicas vieram de gravações feitas em seu apartamento londrino em dezembro de 1984.

 

Em fevereiro de 1985, o quinteto se reuniu no F2 Studios para produzir as demos. Nesse momento, Gallup não é uma presença constante, deixando ainda mais espaço para Smith. Na primavera, dois outros estúdios, nos arredores de Londres, são utilizados para as gravações, o Angel e o Townhouse. No segundo, Howard Gray se junta a Allen e a Smith no trabalho de produção de duas faixas. Assim como Allen, Gray se projetara junto a bandas da cena pós-punk e new wave britânicas.

 

Dare! (1981), álbum da Human League e uma das inspirações para The Head, foi produzido por Allen. Outra inspiração foi Kaleidoscope (1980), da Siouxie and the Banshees, por conta do amplo leque de sonoridades. Eis um ponto que se destaca nas 10 faixas do álbum da The Cure: cada uma tem sua particularidade. Até na montagem dos tambores e pratos, algo que fez as gravações se prolongarem.

 

Essa variedade estilística já havia aparecido em The Top. Embora um tom psicodélico permeie todo o álbum (inclusive na sua capa), talvez seja o momento de maiores contrastes. Para ficarmos nos extremos: “The Caterpillar” dá continuidade à leveza de “The Lovecats”, enquanto “Give Me It” destila rapidez e agressividade. Em “Piggy in the Mirror”, Smith explora outros registros em sua voz, algo que se prolonga em The Head.

 

O álbum de 1985 abre com “In Between Days”. A entrada da bateria, em seguida a linha de baixo que prepara a batida do violão, enfim os teclados – tudo isso somado ao vocal de Smith a tornam uma das mais memoráveis canções pop já feitas. O uso do violão, aliás, é uma novidade na história da banda – e volta a aparecer em “The Exploding Boy”, que acompanhou o single de “In Between Days”, lançado um pouco mais de um mês antes do álbum. Outro lado B que merecia estar no álbum é “A Few Hours After This…”.

 

“Kyoto Song” e “The Blood” preenchem o lado exótico em The Head. Na primeira, uma balada dominada por notas no teclado que remetem ao extremo oriente, percebe-se a influência do Bowie da era Berlim. Na segunda, outro exemplo do uso intenso do violão, inclusive em um solo, a ambiência é flamenca.

 

“Six Different Ways” é inusitada. Seu andamento lembra uma valsa. Várias camadas de teclados (uma delas vem de “Swimming Horses”, música da Siouxie) preenchem todos os espaços, mas o resultado é de uma leveza confortante. As guitarras voltam a aparecer, brilhantes, na faixa seguinte, “Push”, com um começo arrebatador, que volta no seu miolo e no seu encerramento. É um ótimo exemplo de pop alternativo, algo que a The Cure se esmerou em produzir.

 

No vinil, o lado B abre com “The Baby Screams”, com todos os instrumentos trabalhando para compor uma sonoridade nervosa. “Close To Me”, também divulgada como single, é um eletropop contido: de um lado, baixo, bateria e palminhas fazendo o ritmo; de outro, tecladinhos insidiosos, com Smith misturando vozes a suspiros. Perfeita para introvertidos dançarem.

 

“A Night Like This” é outro ponto alto do álbum. Desacelera os acordes de “Plastic Passion”, música do início da carreira, quando Roxy Music era uma das influências. Há um solo de saxofone, very eighties, cortesia de Ron Howe, parceiro de Gallup na banda que existiu enquanto esteve fora da The Cure.

 

Em “Screw”, o destaque vai para a linha de baixo: a distorção torna interessante o que poderia ser apenas mais uma peça de disco funk. O álbum encerra com “Sinking”, com seus quase cinco minutos, que em sua densidade tanto remete à fase Faith quanto antecipa coisas que a banda faria em Desintegration.

 

Comparadas às sonoridades, as letras das canções de The Head mostram menos variações. Pesadelos são algo recorrente (“Kyoto Song” e “The Baby Screams”). O nome do álbum é retirado de um verso de “Close To Me”, originado de outro pesadelo. Esse clima se reflete na capa, criada usando uma fotografia manipulada de Janet, irmã de Robert Smith, tirada por Thompson.

 

As letras estão povoadas de irrealidades, espectros, fantasmas. “The Blood” fala de miragens. “Six Different Ways” mais esconde do que entrega. “Sinking” e “A Night Like This” tratam de perdas, um tema também presente em “In Between Days”, com suas hesitações. “Close To Me” é perfeita em suas antecipações doentias. E gosto de pensar que “Push” é uma canção sobre ciúmes, uma das mais cruéis.

 

Basicamente, é Robert Smith, com 26 anos, mirabolando, como já fazia e continuaria fazendo (como mostra o recente Songs of a Lost World), suas obsessões com a morte e as armadilhas do tempo. Desassossego irremediável. Desejos jamais preenchidos. Não é original, mas o emprego de palavras simples em frases complexas tem poucos concorrentes no mundo pop. Que tal a estrofe final em “Screw”, cuja letra, que pode parecer outro pesadelo, é sobre se reconhecer por meio de outra pessoa? No melhor que consigo traduzir: “E o filme em seus olhos sobre o que me tornei / me deixa mal com o jeito que eu tento / qualquer coisa que exista / para dar a impressão de que / estou fazendo isso / só por você”.

 

 

O sucesso dos esquisitos

O quinteto que vai para os palcos em meados de 1985 ostenta o visual que se tornou icônico para a banda, Smith a sua frente: roupas largas, volumosos cabelos espevitados, batom e tênis de cano alto. O vocalista ensaiava uns passinhos e outros trejeitos aqui e ali. Uma fofura gótica, reiterando a imagem que Pope forjara para seus vídeos.

 

A partir daquele momento, os shows atingiram outra escala, com públicos de mais de 10 mil pessoas, às vezes em festivais, como os de Roskilde e Glastonbury. No verão de 1986, foram filmados por Pope em Orange, no sul da França – a produção foi lançada nos cinemas em novembro do ano seguinte.

 

Após passar por Europa e América do Norte, a The Cure aterrissou pela primeira vez na América do Sul em março de 1987. Foram dois shows em Buenos Aires e outros oito em capitais brasileiras. Àquela altura, o público tupiniquim já era parte da Curemania que contagiava os Estados Unidos e a França. O sucesso foi impulsionado por Standing on a Beach, coletânea lançada em maio de 1986, incluindo “In Between Days” e “Close To Me”, esta em uma versão com sopros. Para a ocasião, Smith regravou os vocais em “Boys Don’t Cry”, faixa de 1979 que foi remixada e se tornou outro hit impulsionado pelo vídeo novo que homenageava o passado.

 

Mesmo antes do lançamento de Standing on a Beach (que foi acompanhado por uma coletânea dos vídeos da banda), os shows da The Cure eram como documentários. As setlists incluíam músicas de vários momentos da história da banda. Curiosamente, faixas de The Top ficavam de fora, situação que muda em 1986, quando “Shake Dog Shake” passa a abrir as apresentações, depois da introdução providenciada por uma das faixas da The Glove.

 

Os shows tinham uma seção que agrupava “One Hundred Years” (de Pornography), “A Forest” (de Seventeen Seconds) e “Sinking”, confirmando o parentesco desta com a fase glacial da banda. Já “Close To Me” ou “In Between Days” eram colocadas ao lado de “Let’s Go to Bed” para mostrar um outro lado da história. “Push” e “A Night Like This”, ótimas para grandes públicos, eram também obrigatórias.

 

The Head on the Door e sua turnê, além de marcarem os 10 anos da banda, serviram para estabelecer um padrão que apostava no equilíbrio entre uma sonoridade mais densa e outra mais leve, como nota Apter em seu livro. Os álbuns seguintes seguiriam nessa trilha, mesmo se estivessem em pontos diferentes do gradiente. Assim, o mais leve Kiss Me Kiss Me Kiss Me começa com “The Kiss” e “Catch”, que não poderiam ser mais diferentes. O mesmo podemos dizer de “Plainsong” e “Lovesong”, faixas do mais denso Desintegration.

 

Em 1987, vemos uma versão confiante e assertiva de Robert Smith fazer as declarações registradas no livro de Steve Sutherland: “Quanto mais nós vamos adiante, mais eu penso que somos únicos.” E ainda: “Minha motivação não é aumentar a popularidade da The Cure, mas criar uma resiliência que nos torne intocáveis. Então teremos as condições de sermos importantes e ainda assim esquisitos. Nunca seremos aceitos, mas nunca sairemos de cena. É a perfeição.”

 

Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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