A acumulação primitiva do Capital Inicial

O álbum de estreia da Capital Inicial foi um sucesso de vendas e o quarteto de Brasília foi celebrado como legítimo exemplar da efervescência roqueira dos anos 80. No momento em que completa 40 anos, essa obra merece uma discussão que vá além das comparações que geralmente desfavorecem a banda. O Capital Inicial vem ao mundo depois que Renato Russo decide deixar a Aborto Elétrico em 1982. Os dois remanescentes da antológica banda do Planalto, os irmãos Felipe e Flávio Lemos, juntam-se a Loro Jones (liberado depois do término da Blitx 64) e começam a compor novas músicas. Quando Dinho Ouro Preto toma o lugar de outra vocalista (mais sobre ela adiante), já estamos em maio de 1983.
Logo depois, as coisas acontecem muito rapidamente. O segundo show com Dinho na formação já ocorre no Circo Voador, na companhia da Legião Urbana, em julho de 1983. Em seguida, podem ser vistos em um festival em São Paulo e na gravação do programa Fábrica do Som.
O ano de 1984 é preenchido com vários shows, incluindo o mini-festival Música Urbana que aconteceu em um colégio de Brasília, no início de maio, juntando Capital Inicial, Legião Urbana e Plebe Rude. A Fluminense FM já incluía músicas de uma fita demo da banda em sua programação. No final daquele ano, é contratada pela CBS (dona da EPIC, que seria vendida para a Sony em 1987).
“Parecia tudo certo, estava tão perto de acontecer” – para citar os versos de uma canção da banda. Mas a CBS não aprovava o repertório da banda, que no início de 1985 trocara Brasília por São Paulo. A Legião já tinha lançado seu LP pela EMI, a Plebe preparava um mini-LP pela mesma gravadora e na capital federal outras bandas despontavam em uma coletânea bancada por um selo independente.
Mas o tempo na CBS não foi todo perdido. Em maio de 1985 saiu um compacto com duas músicas, “Descendo o Rio Nilo” e “Leve Desespero”, tendo Liminha e Leoni (então no Kid Abelha) na produção. A primeira apareceu também na coletânea Os Intocáveis, ao passo que a segunda entrou na trilha sonora do filme Areias Escaldantes, toda preenchida com temas roqueiros.
“Leve Desespero” seria regravada para o primeiro álbum. “Descendo o Rio Nilo” (que ficou para Independência, o sucessor, de 1987) empolgava com sua guitarra funkeada e uma levada que poderia até se tornar um baião. Provavelmente foi depois de ouvi-la que Hermano Vianna apelidou a banda de “Talking Heads do Planalto”. “A Europa está um tédio”, começa a letra, que nos leva a paisagens africanas para perguntar pelo paradeiro do Dr. Livingstone, explorador que só voltou para sua pátria depois de morto. Um ensaio antropofágico que não gerou outras consequências.
Antes de 1985 acabar, a Capital Inicial já tinha assinado contrato com a Polygram. O Nosso Estúdio, em São Paulo, foi o lugar onde ocorreram as gravações do primeiro álbum, entre janeiro e março de 1986. Problemas com a Censura (sim, ela sobreviveu ao fim do regime militar…) atrasaram o lançamento, que ocorreu em julho. Os censores implicaram com uma faixa, vetando sua execução nas rádios e proibindo a venda do LP e do K7 para menores de idade. A publicidade capitalizou (com o perdão do trocadilho) essas restrições, o que contou para as expressivas vendas do álbum.
Capital Inicial traz 11 faixas. O conjunto transita entre o punk, o pós-punk e a new wave. Bozo Barretti assumiu a produção ao lado de Marcus Vinícius. Ambos haviam trabalhado juntos em colaborações com Arrigo Barnabé. Marcus tinha pouca experiência com bandas de rock, o que resultou em mais um álbum do BRock com sonoridade aquém do esperado. Já Barretti teve participação expressiva (ele logo se tornaria um integrante da banda), contribuindo no arranjo de 5 músicas e tocando teclados em 6 faixas.
Uma dessas faixas é “Música Urbana”, a escolhida para promover o álbum. A canção surgiu na época do Aborto Elétrico, em uma das sessões de ensaio com a participação do sul-africano André Pretorius. Com o riff de guitarra, a base do baixo e a levada de bateria mantidas, o arranjo inclinou-se para o jazz. Para isso contou tanto o acréscimo do teclado e de um trio de sopros quanto a sugestão de Leoni para a ponte entre as duas partes da canção. Ficou perfeita para abrir os shows que Sting realizaria no Brasil em 1987.
Aliás, “Gritos” mostra o flerte da banda com o reggae, em uma veia que não é difícil de associar com The Police. “Sob Controle”, “Tudo Mal”, “Fátima” e “Linhas Cruzadas” mostram o lado mais pop da Capital Inicial – a última poderia ser uma canção de Lulu Santos.
Já “No Cinema”, “Leve Desespero” e “Cavalheiros” derivam das explorações da banda por um pós-punk mais desafiador, com destaque para o trabalho de Loro Jones, confirmando que ele era um dos melhores guitarristas daquela geração de Brasília. “No Cinema” ganhou o aporte de um saxofone, mas não perdeu sua energia. “Leve Desespero” e “Cavalheiros” são intensas.
“Veraneio Vascaína”, outra herança do Aborto Elétrico, é um punk básico, com uma agressividade que não se escuta em quaisquer das faixas que preenchem os primeiros lançamentos da Legião Urbana e da Plebe Rude. “Psicopata”, a primeira música composta pela banda em 1982, faz um casamento de Ramones com uma levada new wave.
Portanto, o Capital Inicial de seu primeiro álbum tinha isso: conseguir reunir o mais punk ao mais pop. Por um lado, recusavam-se a participar nos bailes de subúrbio, movidos a playback, empresariados pelo filho do Chacrinha. Por outro, trajavam blazers nas fotos do encarte.
Elegante me parece uma boa palavra para descrever a capa do álbum, com uma foto feita por Iko Ouro Preto (irmão de Dinho) do reflexo dos rapazes em um espelho d’água. Na época, o vocalista fez trabalhos como modelo e aproximou-se de ser um sex symbol.
Contradições
Uma das coisas interessantes em Capital Inicial é que o álbum nos permite tratar de certas contradições do BRock, em especial a cena brasiliense. Esse ponto é, de certo modo, abordado pela própria banda na letra de “Cavalheiros”: “Há tantas coisas em que acredito / E nem sempre sigo”.
Essa letra, pouco conhecida, é uma das mais contundentes do rock dos anos 80 em sua crítica social: “Mas acredite quando digo / Que pior que preconceito em lei / É alegar a igualdade por quem nada se fez / É um engano acreditar que a abolição / Acabaria com a segregação / Se você se impressiona com Soweto / Experimente também conhecer os guetos daqui”.
Questões sociais voltam a aparecer em “Psicopata”, com suas menções ao Congresso, aos cigarros e à Rede Globo (o que não impediu que “Música Urbana” entrasse na trilha de uma de suas novelas…). Mas é “Veraneio Vascaína” que inspira versos mais raivosos. O tema é a violência policial e essa foi a razão pela qual a Censura implicou com a letra: “Se eles vêm com fogo em cima é melhor sair da frente / Tanto faz, ninguém se importa se você é inocente / Com uma arma na mão eu boto fogo no país / E não vai ter problema, eu sei, estou do lado da lei”.
No entanto, as mesmas duas músicas têm trechos que vão em outra direção. Voltemos a “Veraneio”: “Porque pobre quando nasce com instinto assassino / Sabe o que vai crescer desde menino / Ladrão para roubar ou marginal para matar / ‘Papai, eu quero ser policial quando crescer’”. Já o surto em “Psicopata” inclui: “Rasguei a roupa da empregada”. A relação com empregadas domésticas e concepções sobre os pobres compõem o imaginário de quem não ocupa essas posições sociais.
Não precisamos simplificar as coisas recorrendo ao chavão “os roqueiros de Brasília pertenciam a famílias de diplomatas ou de militares”. É fato que Dinho era filho de um diplomata e que Loro era filho de um militar (mas de baixa patente). Já os irmãos Lemos eram filhos de um professor universitário. Além disso, é fácil constatar que a maioria dos roqueiros de Brasília, incluindo Renato Russo, autor da letra de “Veraneio”, era sensível às mazelas de uma sociedade desigual e violenta. No entanto, nesse movimento, não deixavam de expressar visões que eram parte de seu universo social. Mesmo que tal universo não fosse homogêneo, ele não era o mesmo em que habitavam “pobres” e “empregadas”.
Outras preocupações aparecem nas letras do primeiro álbum da Capital. “Leve Desespero” e “Gritos” têm versos que estão entre os mais desoladores do BRock. “Eu não saio do meu canto / As paredes me impedem / Eu só queria me divertir / As paredes me impedem / Já estou vendo TV como companhia” e “Os dias passam / Nós estamos tão acostumados / A nos ver assim / Que já não nos interessa”.
O contraponto vem em “Música Urbana”. Os versos mais antigos comentam uma das saídas noturnas da Turma da Colina. A segunda parte nasceu de um pedido para que seu autor, Renato Russo, compusesse mais uma estrofe. E aí veio algo que mistura desapego e autoafirmação: “Tudo errado mas tudo bem / Tudo quase sempre como eu sempre quis / Sai da minha frente que agora eu quero ver”.
Essa convivência entre lamento e assertividade se liga a outra temática que domina várias letras, a dos relacionamentos. Ela está em “Tudo Mal”, “Sob Controle”, “Linhas Cruzadas” e um tanto confusamente em “No Cinema”. Se todas essas canções tratam de relacionamentos em crise (como faria “Independência”, que já surgira nas sessões do primeiro álbum), as situações não são as mesmas. Nas duas primeiras, a continuidade se tornou inviável. Já em “Linhas Cruzadas” as coisas estão menos definidas e são descritas em versos simples e perfeitos: “O tempo passa e você sabe o que ele faz / Tudo fica para trás e você pediu, pediu demais / Você disse que detestava minhas roupas e meus discos / Mas mesmo assim eu estou quase certo / Que eu faria tudo de novo”.
Diria que aparece nessas composições sobre relacionamentos uma sensibilidade que caracteriza uma vertente das letras do BRock. Nela, os homens compartilham com as mulheres dilemas e questionamentos. São parceiros igualmente implicados nos jogos românticos, como declara “Tudo Mal”: “Quem sabe algum dia vamos entender o que passou / Descobrir quem foi que errou”.
Pois bem, essa sensibilidade convive com a ausência de mulheres nas composições das músicas e na formação das bandas, com algumas exceções. A cena brasiliense torna essa questão candente se lembramos que vários grupos contavam com mulheres que não persistiram como suas participantes. E uma delas é exatamente a Capital Inicial.
No segundo semestre de 1982, ao então trio juntou-se Heloísa Helena Ustárroz Teixeira, como vocalista e guitarrista. Ela participou de várias composições que não foram gravadas. As razões de sua saída, no ano seguinte, têm mais de uma versão. Seja como for, a Capital Inicial passou a ter uma voz masculina.
Outras mulheres que faziam parte da cena roqueira de Brasília também não persistiram. Mila Menezes, Simone Young e Débora Darwich passaram pela Detrito Federal, mas não participaram das gravações de seu primeiro LP. Ana Galbinsky e Marta Brenner,backing vocals da Plebe Rude, não sobreviveram ao ano de 1982. E Marielle Loyola foi “expulsa” da Escola de Escândalo – o que a levou a se tornar a vocalista da Arte no Escuro, banda que lançou um álbum em 1988, antes de adentrar o universo metaleiro.
Sabemos que foi restrita a presença de mulheres no BRock. A cena brasiliense nos oferece um interessante laboratório para compreendermos os processos que levaram tanto à participação quanto à exclusão das mulheres em bandas de rock. O assunto está a merecer um tratamento à altura.
Finalizo comentando a última faixa de Capital Inicial. “Fátima” é outro legado do Aborto Elétrico e teve seu arranjo reconfigurado por Barretti, que lhe conferiu um clima épico – em sintonia com a letra, que é seu principal destaque. A música empreende uma dinâmica entre contenção e apoteose enquanto as três estrofes se desenvolvem sem repetições.
Renato Russo reinterpreta a história da visão de Nossa Senhora que ocorreu na localidade de Fátima (Portugal) em 1917 e se tornou mundialmente disseminada. Apreendíamos nas catequeses que três segredos foram confiados a três crianças, sendo que o último deles permanecia não divulgado. O segundo fazia referência à Rússia e essa presença da dimensão política serviu como combustível para muitas elucubrações.
Na reinterpretação de Renato, a incerteza sobre o último segredo alimenta a corrida nuclear (eram ainda tempos de Guerra Fria em um mundo polarizado entre Estados Unidos e União Soviética), que, por sua vez, incita uma vingança divina. As crianças não souberam escutar a mensagem da mãe de Jesus e esse erro anulou todos os prodígios a ele atribuídos (“e no terceiro dia ninguém ressuscitou”). Um pequeno tratado sócio-teológico…
É curioso saber que essa canção apocalíptica nunca faltou até hoje nos shows da Capital Inicial. Junto com “Veraneio Vascaína”, “Musica Urbana” e “Leve Desespero”, todas do primeiro álbum, ela está entre as faixas do Acústico MTV (2001), apontado como o momento de renascimento da banda (embora Loro Jones tenha se despedido logo depois). Suas origens parecem guardar segredos que Dinho, Fê e Flávio insistem em revisitar.

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).
