O Papa é Pop, 30 anos

 

 

Em outubro de 2020, “O Papa é Pop”, quarto disco dos Engenheiros do Hawaii completará trinta inacreditáveis anos. Digo isso porque, sinceramente, parece que foi ontem a chegada dele às lojas. As músicas pipocavam nas rádios e Gessinger, Licks e Maltz, enfim eram popstars nacionais. A banda saíra do sul do país e assumira um protagonismo inédito em sua carreira, se igualando aos outros três “grandes” do rock nacional da época, a saber, Paralamas, Titãs e Legião Urbana. “O Papa é Pop” surgia com um abundante estoque de frases, expressões, jogos de palavras, tudo bem ao gosto de Humberto Gessinger, mas, todavia, o álbum mostrava claramente que o trio se assumia como uma banda capaz de aspirar níveis mais altos de complexidade, tanto sonora, quanto lírica. As faixas oscilam entre o pop e o rock, dentro da lógica do grupo, mas, em alguns momentos, os Engenheiros chegam a terrenos inexplorados e não têm medo de pisar nestes novos territórios. Bem ou mal, o álbum chegou a vender 400 mil cópias em pleno ano do confisco das poupanças e o trio chegou a receber o título de “maior banda do rock brasileiro” pelos leitores da revista Bizz em 1990. Bem havia algo neste disco, certo?

 

O trio gaúcho já era aspirante ao trono do rock nacional desde o segundo álbum, “Revolta dos Dândis”, de 1987. Com a capa amarela, iniciando uma trilogia com as cores da bandeira do Rio Grande do Sul, este disco apresentava um esquema de poesia/melodia que caracterizou os Engenheiros até 1992, quando lançaram “Gessinger, Licks e Maltz”. Não coincidentemente, este último trabalho autoral da “primeira fase” (em 1993, o grupo lançaria “Filmes de Guerra, Canções de Amor”, ao vivo), da banda, marca um vôo sobre terrenos inexplorados, como se ampliasse a busca iniciada em “O Papa é Pop”. Ou seja, os três, especialmente Licks, o guitarrista, incorporavam elementos de eletrônica discreta, quase amadora, na massa pop/folk/rock praticada desde o início da carreira. Esta mistura e uma visão mais ampla, resultava em momentos mais “experimentais”, nos quais a poesia gessingeriana era encapsulada em molduras sonoras levemente diferentes. O fato é que a banda gaucha perdeu consideravelmente o apelo na década de 1990. Sendo assim, “O Papa…” marca esse momento de ousadia dos Engenheiros, seguido também por “Várias Variáveis”, de 1991, o álbum que fechou a tal trilogia colorida da bandeira gaucha, que também teve “Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém” (1988) como o outro disco participante.

 

 

Essas particularidades do grupo são exacerbadas em “O Papa…”. O idioma sonoro está reforçado por efeitos eletrônicos, samples, tudo colocado de forma muito discreta na mistura, sem adulterar consideravelmente o resultado, mas é possível sentir a presença. Já na abertura com “O Exército de Um Homem Só, pt.1” há bateria eletrônica, efeitos de teclados e tudo mais que significava essa abertura de palheta musical. A canção e sua “pt.2”, também presente no álbum, foi dedicada ao vôo do alemão Matthias Rust, que pousara um Cessna em plena Praça Vermelha, em Moscou, em 1987. O aviador conseguira milagrosamente passar pelas defesas soviéticas sem ser notado, daí a metáfora gessingeriana para o título e para o espírito impregnado pela queda do Muro de Berlim, um hit na época.

 

 

A cover da cover de “Era Um Garoto Que Como Eu, Amava Os Beatles E Os Rolling Stones”, era, por si só – e contraditoriamente – um passo em campo desconhecido. Era a primeira versão que a banda gravava, justo para uma faixa que Os Incríveis verteram para o português no longínquo ano de 1967, em plena efervescência revolucionária de seu tempo. O original era do italiano Gianni Morandi (“C’era Un Ragazzo Che Come Me Amava i Beatles e i Rolling Stones”) e fizera muito sucesso em sua Itália natal e serviu como um sincero libelo anti-guerra. Aqui, em 1990, a canção soa meio fora de sentido, podendo entrar como uma marcação da ressaca pós-eleições de Collor de Melo. Licks povoa o final da música com citações a canções dos Beatles e dos Rolling Stones e do “Hino à Independência”, num efeito que envelheceu mal, mas que é marcante pelo sucesso que fez naquele ano.

 

Outros dois hits surgiram: “Pra Ser Sincero” e a faixa-título. A primeira é mais uma canção gessingeriana de amor, com aliterações e truques de poesia que eram o grande trunfo da poesia manipulada pelo vocalista e baixista. A segunda, sucesso absoluto, questiona as contradições entre fama e distanciamento, ou algo no gênero. E sobre a exposição que a popularidade pode trazer ou talvez só tenha aproveitado a sonoridade das palavras – outra artimanha gessingeriana. “O pop não poupa ninguém” é um verso que pode ter várias aplicações. E a letra é pródiga nesses achados.

 

Todo mundo ‘tá revendo
O que nunca foi visto
Todo mundo ‘tá comprando
Os mais vendidos
É qualquer nota qualquer notícia
Páginas em branco fotos coloridas
Qualquer nova qualquer notícia
Qualquer coisa que se mova
É um alvo
E ninguém ‘tá salvo

Todo mundo ‘tá relendo
O que nunca foi lido
‘Tá na Caras
‘Tá na capa da revista
É qualquer nota uma nota preta
Páginas em branco fotos coloridas
Qualquer rota, rotatividade
Qualquer coisa que se mova
É um alvo
E ninguém ‘tá salvo
Um disparo
Um estouro

O Papa é Pop
O Papa é Pop
O Pop não poupa ninguém
O Papa levou um tiro à queima roupa
O Pop não poupa ninguém

Uma palavra na tua camiseta
O planeta na tua cama
Uma palavra escrita a lápis
Eternidades da semana
Qualquer coisa quase nova
Qualquer coisa que se mova
É um alvo
E ninguém ‘tá salvo
O Papa é Pop
O Papa é Pop!
O Pop não poupa ninguém
O Papa levou um tiro à queima roupa, é
O Pop não poupa ninguém

Toda catedral é Populista é Pop
É macumba pra turista
Mas afinal? O que é rock’n’roll?
Os óculos do John ou o olhar do Paul?
O Papa é Pop
O Papa é Pop
O Pop não poupa ninguém
O Papa levou um tiro à queima roupa
O Pop não poupa
O Pop não poupa
Ninguém

 

Por exemplo, o que queria dizer “toda catedral é populista”? Enfim.

 

 

Os momentos mais interessantes do disco estão nas duas canções que, juntas, ultrapassam os quinze minutos. “A Violência Travestida Faz Seu Trottoir” e “Amanheceu em Porto Alegre”. A primeira é uma canção sobre banalização da violência, desespero e suicídio, tendo a participação improvável de Patrícia Marx nos vocais e uma letra que, ao contrário de uma certa auto-indulgência de Gessinger com seus escritos, mostra alguns bons momentos. Versos como “A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar” ou “Todo suicida acredita na vida depois da morte” ou ainda “A maioria silenciosa, orgulhosa de não ter vontade de gritar, nada pra dizer”. O tema é visionário e tem lugar justificado ainda hoje, infelizmente. Já “Amanheceu…” é uma interessante canção cinematográfica, dedicada aos insones da capital gaucha, que varam a noite divagando e se embebedando, enquanto veem a cidade despertar lentamente. Lembro de ler uma resenha na Bizz que dizia que a letra era escrita por gente que dormia cedo, sem nem ter ideia de como era atravessar a noite acordado de porre. Maldade. Essas duas faixas envelheceram bem.

 

Depois de trinta anos, em meio a uma pandemia apocalíptica e um governo que parece lutar com todas as forças contra o país, “O Papa É Pop” soa muito fora da realidade possível. Ele é fruto de uma época confusa, estranha, transitória, talvez o último disco arrasa-quarteirão produzido por uma banda do rock brasileiro oitentista. Depois deste ano, nenhuma banda nacional conseguiu um sucesso tão universal. Hoje este disco é um artefato quase alienígena e, como tal, interessante e estranho.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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