Entrevistão – Nasi

 

O Ira! lançou seu novo disco há pouco tempo e obteve quase uma unanimidade de elogios da crítica e dos fãs. Nem foi porque a banda demorou tanto tempo para entregar um álbum com inéditas, mas pela qualidade do material apresentado e pela ótima sonoridade que a produção de Apolo 9 trouxe para a veterana e venerável banda paulista.

 

Conversamos com o vocalista Nasi sobre o processo de composição de “IRA” e outros assuntos, como a pandemia da covid-19, a relação dele com o hip-hop atual e sua visão a respeito desta fase especialmente ruim que estamos atravessando.

 

 

– É sempre bom ouvir sua voz novamente num disco de inéditas do Ira!. Como você situa o IRA em meio aos outros álbuns da banda?

Obrigado pela gentileza! Eu também fico feliz em lançar mais um disco, nos moldes dos discos que eu gosto de lançar – que são álbuns, que tem o conceito de vinil, esse disco foi pensado como um vinil, com dez músicas,  pensamos nele como tendo lado A e lado B. Mais um capítulo da minha carreira, aliás eu acho que esse disco está entre os melhores da nossa história, no mesmo nível de “Mudança de Comportamento” (1985) e “Vivendo e Não Aprendendo” (1986). Talvez não seja um disco de ruptura como o “Psicoacústica”, mas tá recebendo elogios no mesmo nível dele, que é o nosso trabalho mais cultuado até hoje.

 

– Essas canções foram compostas agora ou algumas já estavam prontas, esperando a chance de gravar?

 

A exceção de umas duas ou três que nasceram de jam sessions que a gente fazia nas passagens de som – “A Torre” e “Eu Desconfio de Mim” – trazidas pelo Edgard, as outras músicas vieram num espaço de dois, três meses, quando a inspiração bateu. E o Edgard ainda trouxe algumas coisas que ele já tinha composto em projetos com a Sylvia Tape, com a Bárbara Eugênia e com a Virginie Buteaud. E outras que surgiram mesmo, durante ensaios em que a gente foi desenvolvendo as músicas.

 

– Como é o processo de composição seu e do Edgard atualmente? E os outros integrantes da banda? Participaram?

 

Processo criativo é uma coisa muito particular. E nem tem uma maneira só de se fazer, como eu falei na outra pergunta. Houve músicas que vieram primeiro com o instrumental, depois veio a letra. Edgard compõe algumas canções já imaginando letra e música…Eu, como cantor, geralmente já escrevo alguma coisa, penso numa letra, depois já me vem a melodia na cabeça ou pego uma parceria pra desenvolver a parte harmônica…Não tem uma fórmula única, não.

 

– Como você vê um lançamento de disco hoje, em 2020? O que mudou – se é que mudou – em relação a quando vocês começaram? O disco ainda tem o valor de antes?

 

Olha, o importante é que, pra mim, o disco tem importância. Seja no Ira!, seja no meu trabalho solo. Nós fazemos parte de uma geração de músicos, de artistas, de roqueiros que ainda pensam o disco como mais que um punhado de singles, de músicas lançadas individualmente, como hoje é feito. Os artistas hoje não precisam ter disco, eles lançam uma música por vez, às vezes uma música não tem nada a ver com outra…mas nós somos do tempo em que se pensava num disco, na época do vinil, com lado A e lado B, músicas que conversam entre si, um trabalho que tem uma cara, uma proposta sonora. Letras que conversam do jeito que as narrativas se apresentam, a gente ainda curte fazer assim.

O Ira! demorou treze anos pra lançar um novo disco porque também passamos sete anos separados, demorou também por causa disso. Talvez a gente pudesse ter lançado alguma dessas músicas lá atrás, de forma isolada. Até pensamos nisso, mas não faz sentido, pra gente é importante também chegar num show com um disco novo. Porque já são dez, doze músicas que vão dar uma cara nova, fazer um novo show. Se você lança só singles, o show não muda de cara e pra gente é importante ter turnês com caras diferentes.

Hoje, por conta da pandemia, quando formos fazer um novo show, vai ter muita gente já conhecendo as músicas, querendo ouvir os sons novos, então isso é um dado positivo.

 

 

– Este álbum é impregnado de posturas políticas em diversos planos. Como você vê isso hoje, nesta fase que o país atravessa?

 

Eu não acho que esse disco é impregnado, acho que ele tem momentos, especialmente “Mulheres à Frente da Tropa” e “O Homem Cordial Morreu”. Eu acho que ele é um disco bem equilibrado entre canções que falam da nossa visão dos tempos atuais, músicas que têm um teor mais existencialista e outras mais românticas. Isso é a cara do Ira!, né? Não é um disco manifesto, a gente coloca a nossa visão do mundo, de nós mesmos e dos nossos sentimentos.

 

– Como você vê a postura conservadora de alguns contemporâneos do Ira?

 

Muita gente me pergunta sobre isso, né? Como se o rock fosse uma instituição…Por causa de dois ou três artistas, estão querendo colocar o rock como conservador…Eu não concordo, acho que, dentro do universo dos músicos de rock, seja aqui, seja lá fora, assim como na sociedade como um todo, a gente tem a mesma proporção de pessoas que são mais à esquerda, à direita, de centro. Onde às vezes eu me coloco mais, como um cara de pensamento de centro-esquerda. Eu acho que as pessoas que se colocam muito à direita fazem muito barulho às vezes. Elas são mais polêmicas, daí parece que elas são porta-vozes de uma geração. E não são. Eu nem preciso citar o nome delas.

 

 

– Quando você não está cantando no Ira, o que você costuma fazer? O que tem ouvido, quais seus hobbys, etc.

 

Eu não tenho hobbys, não. Quando eu não estou na estrada, eu costumo fazer caminhadas aqui no campus da USP, eu moro perto. Costumo ter uma vida bem caseira, ouço música, vejo filmes, essas coisas. Recentemente eu ingressei nas redes sociais, tenho um perfil no Instagram. Antes eu tinha uma conta lá bem profissionalizada, alguém administrava pra mim. Agora, de uns dois meses pra cá, eu tenho postado diariamente, dado dicas, dado minhas opiniões sobre as coisas…Eu não tenho um hobby muito peculiar, não.

 

 

– Como surgiu a escolha do Apolo 9 como produtor para o disco?

O Apolo 9 sempre foi um cara muito próximo ao meu trabalho solo. Ele vem produzindo os meus discos desde 2006, ou seja, “Onde Os Anjos Não Ousam Pisar”, “Nasi Vivo na Cena”, “Perigoso” e “Ebé”, meus quatro últimos trabalhos solo eu produzi com o Apolo, no estúdio dele. O Ira! Folk também foi mixado por ele, então eu tinha ideia de que ele poderia produzir um disco do Ira!. Ele foi bem recebido pelo Edgard e eu acho que é um dos principais responsáveis pela excelente sonoridade do disco.

 

 

– Como a pandemia afetou sua vida? E o que você acha da postura dos governantes em relação a ela?

 

Bom, a postura dos nossos governantes diante da pandemia é totalmente esquizofrênica, né? Mistura rivalidade política, pretensões presidenciais, palanque, ideologia…Parece que a questão da saúde pública fica muito distante do real valor que deveria ser. Acho isso péssimo. O Brasil tá dando péssimo exemplo pros cidadãos, pro mundo…Tá envergonhando o brasileiro fora do país, eu lamento muito. E pra nós, músicos, que vivemos de fazer shows e lidar com o público, estamos especialmente apreensivos. Queremos que surja uma vacina o mais rápido possível e que a gente possa voltar a uma certa normalidade.

 

 

– Você sempre foi um cara que curtiu bastante hip hop. Como você vê a evolução do estilo ao longo do tempo? Ainda se interessa por ele?

Eu produzi discos pioneiros do hip-hop brasileiro no fim dos anos 1980, do Thaíde e DJ Hum. Eu sou muito fã da old school, tanto do rap americano quanto do brasileiro. Gosto do rap americano até o início da década de 1990, depois perdeu um pouco da essência quando virou algo muito gangsta, com muita ostentação, muito sexismo, muito consumismo. muito machismo. Agora, no Brasil, ele continua com raízes fortes, como porta-voz das comunidades periféricas, do afro-descendente. A gente tem uma geração de rappers muito talentosos, temos Rael, Emicida, Criolo – só pra falar alguns – que fazem o rap brasileiro o rap que eu gosto de ouvir.

 

– A pandemia atrapalhou bastante a divulgação do álbum, vocês têm algum plano para lives ou algo assim?

 

A divulgação nem foi tão prejudicada assim. A gente tá fazendo as entrevistas, atendendo a todo mundo. O que tá atrapalhando é a questão dos shows de lançamento. Uma hora isso vai voltar, eu espero que tudo isso se normalize, não só pra gente, mas pra todo mundo que vive do contato com o público.

 

– A gente vai conseguir reverter este cenário apavorante que vivemos hoje no país? Você é otimista?

 

Se o “apavorante” que a gente tá vivendo diz respeito à saúde pública, eu acredito que a ciência vai dar a resposta no momento certo, apesar das perdas desnecessárias por conta da postura das autoridades. Espero que os governos – não só do Brasil – entendam, de uma vez por todas, que é preciso investir muito, muito mesmo, na ciência, e na saúde pública, pra que novas pandemias não atinjam o mundo de forma tão brutal.

Quanto à política, o mundo vive um período muito conservador, reacionário até. Usando o Brasil e os Estados Unidos como exemplos, eu vejo que, nesse momento, de uma tragédia dessa, da necessidade de racionalismo, de negar o negacionismo, a gente vê que os presidentes daqui e de lá estão vendo sua imagem e popularidade derretidas, muito por conta deles serem negacionistas, simplistas, autoritários, que não ouvem as autoridades sanitárias, científicas. Então, nesse ponto, pode ser que essa tragédia faça o mundo dar uma guinada mais pra frente. Se a gente conseguir seguir no mundo dentro da racionalidade e do bom senso, um governo de centro-esquerda, de centro, ou até de centro-direita (é que centro-direita no Brasil não existe, né?) então que seja um governo democrático, que deixe um pouco de lado certos dogmas e faça uma boa administração, e do respeito ao ser humano, ao cidadão e à Constituição Federal uma reza diária.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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