Vanguart virou suco

 

 

Quem aqui nunca comeu uma fruta doce e sem querer mordiscou a semente, amarga e dura? Indigesta na maioria das vezes? Mas a fruta, deliciosa, compensa o amargos? Pois é, é o peso e a leveza de amar. Se tem uma banda que canta o amor em sua amplitude é a Vanguart, e isso aqui poderia ser um suco de limão, uma limonada que a gente gosta, mas que o ácido da casca faz a gente chorar. Vai ser difícil, mas vou espremer esses matogrossenses e “se tiver de ser na bala vai”. Por citar essa frase, que Teago Oliveira menciona do seu álbum solo, na faixa “Corações em Fúria”, já deixo aqui a minha declaração de amor pela junção de Hélio Flanders e Teago Oliveira, que, não tivessem dividido o palco no ao vivo da Maglore, certamente os fãs pediriam por isso.

 

Vocês estão notando que tô desviando o assunto, mas é que selecionar somente cinco faixas desse trio formado por Helio Flanders (Violão e voz), Reginaldo Lincoln (voz, baixo e bandolim), Fernanda Kostchak (violino) requer um coração de elástico e uma mentira das boas pros olhos molhados. O mérito deles eu já entrego aqui: poesia sobre o viver amores, dos amargos aos doces.

 

E decidi começar pelo amargo, pois sempre melhor um alívio depois do terror. E a primeira faixa que selecionei é “Beijo Estranho” que dá nome ao álbum de 2017 e antes que eu esqueça, nesta seleção entram somente os álbuns de estúdio e de músicas próprias. Demorei para conseguir escutar essa canção sem sentir o aperto, o peso incômodo, sem deixar de sentir aquela máquina de costura que ficou esquecida, deixada de lado ao ponto de não costurar mais pontos, que é receber um beijo estranho. Só, e somente quando eu entendi aquele beijo sem respiração que eu entendi aquela casa cheia dos vazios de estar e não ser, é fazer a casa no chão, desencantar.

 

Vanguart tem a poesia do que não se pode dizer, e eu poderia ter iniciado esse suco de com a iluminada “Meu Sol” (Muito Mais Que o Amor, 2013) , parar no “Semáforo” (Vanguart, 2007) para retornar, ficando sem dormir para não sonhar. Mas quente é o medo e eu optei por escrever sobre aquelas letras que entregam a leveza e a fúria desses corações. Impossível conseguir fazer uma seleção linear de Vanguart, nem deveria ser um “Virou Suco”, mas sim “Virou Tatuagem”. Pois são tantos versos, curtos em palavras e enormes em sentidos, que Hélio interpreta acompanhado do violino de Fernanda, que deixa tudo com um certo “som dos sonhos”, não sei se entendem? Mas é esse o caminho.

 

A Vanguart me deu as melhores explicações para as dores da alma como “o amor é mais simples que amar” e já desenhou no meu braço uma das frases mais difíceis e importantes: “Todo fim é bom”. Quem nunca teve medo ou achou que não sobreviveria? Não falarei mais sobre a minha aversão ao drama, eu sou dramática e tenho que assumir. Estou aqui como um trem desgovernado procurando as coisas do além mar, e tudo que não for vida, eu não vou levar. Mas até que chega uma hora que chega e a noção de tempo, uma criação humana, bate forte com a de esperança, filha dela.

 

 

E nessa saga por sentido, encontramos o amor nas dobras do lençol, e nos olhos marejados ao lembrar o que não foi vivido. Ai o estalo! Sim, todo fim é bom, é uma necessidade e capacidade que temos de voltar à cidade ao mesmo tempo que podemos abandoná-la. E essa frase curta e ampla está na potente faixa “Quando cheguei na Cidade”, é a capacidade de chegar e partir e saber que o fim não passa de um transeunte, que vem e vai. Essa faixa é também do Beijo Estranho, disco que sim, é meu favorito por ser e já foram duas do mesmo disco que é um turbilhão disso tudo que a gente é. E que bom que a gente é. .

 

E a gente se perde nas entrelinhas fáceis de rimar, mas “Eu sei onde você está”, (Muito Mais Que Amor, 2013), é uma das letras capazes de sintetizar esse movimento e essa liberdade.

“Levo a vida como o vento, frente ao mar como um farol

Vê que o tempo é necessário e que o amor é como sol

Que um dia fecha as portas e noutro dia abre igual

Que a gente possa ver o que não viu até então

Fazendo da tua vida o que teu coração te dá”

 

 

Em “Boa Parte de Mim Vai Embora” de 2011 encontramos a diversão no drama na faixa “Mi vida eres tu”, não teria como encaminhar o final deste texto sem citar essa loucurinha linda lá do primeiro disco. A maluquice que é amar e desenhar nas ruas o amor, que o acaso deixaria na porta da tua casa, parafraseando Nei Lisboa. A gente, com quase certeza absoluta, fica doido como amo. A faxa conta com o videoclipe bem bacana, vale a pena.

 

E é nessa positividade do que pode ser o amor, trago o doce que prometi depois do amargo, que termino essa coluna com a abertura para o amor, com o peito aberto, tanto para ser preenchido, transbordado quanto flechado, sejamos realistas. “Do Beijo Estranho” do início deste suco termino com a fruta mais linda, aquela que tem peito aberto cheio de dor e amor, mas olhando esperançosa e viva aquilo que nem é possível descrever racionalmente: o amor.

“Quando eu chego em casa e você não está

Penso em te procurar mesmo sabendo que vais voltar

Se um dia foi diferente

É porque tudo era diferente

O teu amor me pôs de pé

Vem cortar meus cabelos

Vou molhar os teus olhos

E o meu peito mais aberto que o mar da Bahia

 

E quem diria que seria tão bonito assim viver e tão bonito assim olhar, cantar e sentir tudo isso que só a música proporcionar. Aproveita para curtir o vídeo dessa música,vocês também devem estar com saudades de um mar. Ouça, chore e ame a/na/entre Vaguart. Perca as chaves, volte, escape, um dia tudo isso volta.

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Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

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