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O Pornô Punk do Matalanamão

 

 

A cena roqueira do Alto José do Pinho, que surgiu no final dos anos 1980 e início dos 90, foi um fenômeno à parte do Movimento Manguebeat, mas só ganhou projeção nacional por conta do estouro do gênero/manifestação cultural criados por Chico Science e Fred Zeroquatro. E revelou nomes como Devotos do Ódio, Terceiro Mundo, Faces do Subúrbio, A Ostenta, Nanica Papaya e uma tal Matalanamão.

 

O cenário do AJP era tão fértil que, em seu auge, gerou 14 bandas atuantes no mesmo período. Num primeiro momento, o embrião do que seria o Matalanamão foi um grupo chamado Flores Negras, que tinha uma sonoridade calcada nas bandas inglesas da década de 80, e cuja formação contava com Adilson Ronrona (vocais e teclados), Micro (vocais), André Dark (baixo), Neilton (guitarra, que já fazia parte da formação do Devotos do Ódio), e Celo (bateria, que também era do Devotos do Ódio). Mas a ideia de Ronrona, Celo e Micro já era a de formar uma banda cujo tema central seria a masturbação.

 

Os meninos costumavam andar pelo centro do Recife vendo as alunas saírem dos colégios. Numa dessas feitas, Micro se encantou com uma garota que passava por perto e comentou com os colegas: “Olha que menina linda! Quando chegar em casa, vou matá-la na mão”. E assim surgiu a Matalanamão, talvez a primeira e única banda de pornô-punk do mundo. A aceitação no meio punk recifense, que era politizado ao extremo, foi difícil. Mas a adesão popular foi quase imediata. A banda é um dos destaques do excelente documentário “Punk Rock Hardcore Alto José do Pinho é do Caralho”, dos diretores Cláudio Assis, Marcelo Gomes e Adelina Pontual”, lançado em 1995. E as apresentações do “Matala”, como é carinhosamente chamada pelos fãs, logo chamaram a atenção de produtores culturais, que começaram a escalá-los para tocar nos principais festivais do Recife.

 

A inclusão de Ailton Peste, habilidoso baterista e intelectual autodidata, ajudou a definir a identidade sonora da banda e a produzir letras chocantes e hilárias. Eis um dos exemplos da poética de Peste, em “Os Peitinhos”: “Por baixo da blusinha / Tão lindos de se ver / Depois da bundinha / Eles fazem acontecer / Tira o sutiã / Que eu quero te chupar / Passar a linguinha / Até você gozar / Bicudos ou sem bicos / Rosinhas ou pretinhos / Da vaca ou da mocinha / São lindos os seus peitinhos”. Óbvio que esse tipo de abordagem revoltou as feministas, que se sentiam extremamente ofendidas com o teor das letras do Matalanamão. Para se ter ideia da polêmica, o clipe de “Os Petinhos” foi o primeiro vídeo a ser censurado pela MTV brasileira.

 

Em primeiro de janeiro de 2000, o Matalanamão lançou seu homônimo disco de estreia, hoje considerado um clássico e uma raridade no mercado. Produzido por Pupilo, então percussionista da Nação Zumbi, o álbum contém 14 faixas que, além de fazerem apologia à masturbação, também citam Nelson Rodrigues, criticam os dogmas da Igreja Católica e fazem, ao seu modo, críticas sociais. O disco traz verdadeiras pérolas punks, como a já citada “Os Peitinhos”, “Priminha”, “Maria Gasolina”, “Ana Maria” e “Amorzinho”.

 

O carisma da banda era uma coisa de outro mundo. Seus shows eram fenomenais, e o grupo sempre tocava fantasiado. Adilson Ronrona já se vestiu de normalista, bombeiro, preservativo e até do personagem Chaves. O Matalanamão fazia apresentações lendárias, onde a comunhão com o público era realmente algo bonito de se ver. Em uma das edições do “Rec-Beat”, a banda simplesmente não conseguiu tocar porque fãs e skatistas invadiram o palco. Eu presenciei a cena. E os caras saíram do palco felizes da vida, como se aquilo fosse o atestado irrefutável do seu sucesso. O Matalanamão era, de fato, um queridinho do público, da imprensa local, de seus colegas de banda e dos produtores e técnicos de som com quem trabalhava.

 

A banda ainda lançou, em 2005, o pouco inspirado “Quem é o Pai?”, que resgatava músicas dos primórdios da carreira do grupo junto com composições novas. Mesmo fraco, a faixa-título é uma porrada legitimamente punk que merece um grande espaço no legado do Matala.

 

Infelizmente, ao contrário do Devotos, o Matalanamão sempre foi muito relapso fora dos palcos. Não tinha método ou um mínimo de organização para cuidar de suas carreiras. E pagou um preço alto por isso. Eu, num ato de loucura e por gostar da banda e de ser amigo de seus integrantes, ainda tentei ser produtor deles, mas a coisa não foi adiante. Muito por minha culpa, que jamais tive o perfil de produtor.

 

O Matalanamão fez História no circuito punk. Poucos sabem, mas todos os integrantes da banda se dedicavam a projetos sociais. Eu tenho muitas saudades dos shows deles. E um baita orgulho de ter me tornado amigo dos caras. Foi uma banda muito mal interpretada pelo púbico comum. E adorada por muitos no circuito underground. Merece uma análise mais aprofundada de sua obra. Já diria o mestre Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. E o Matalanamão sempre esteve muito longe de ser unânime.

 

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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