O Impressionante Democracia em Vertigem

 

O documentário “Democracia em Vertigem” (Netflix), da diretora Petra Costa, é impressionante. Sua narrativa, seu roteiro, seu didatismo e, acima de tudo, sua franqueza, o tornam quase um filme que escapa do termo ‘documentário”. Não que longas deste gênero não precisem destas instâncias – é claro que precisam – mas o que Petra realiza aqui é uma espécie de narrativa híbrida, porque coloca sua vida e a de seus pais – militantes anti-ditadura – como personagens de um contexto histórico que é comum a todos nós. Ao abrir mão da segurança da isenção, Petra, mais do que tomar um lado na discussão – fato que uma análise descuidada e superficial poderia apontar – se torna participante desta narrativa. Com isso, ela oferece ao espectador mais consciente e aberto, esta oportunidade, a de se deparar com fatos. Dependendo da índole de quem assiste, esta é uma chance de ouro.

 

“Democracia em Vertigem” é didático sem ser chato ou datado. A fluência com que os fatos vão passando em imagens e depoimentos é impressionante. Em termos de estudo da história recente do país, ele deveria ser obrigatório em todas as escolas, mas, lembrando de episódio recente ocorrido uma rede de escolas, a palavra “golpe” é utilizada largamente, mostrando que, até para o mais isento dos seres, a conspiração que se instalou no poder a partir de 2013, foi a responsável direta pelos fatos ocorridos desde então, que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff, na prisão de Lula e na eleição do atual governo. Petra faz estes eventos históricos falarem por si, usando as personalidades responsáveis por eles. A quantidade de imagens de arquivo, áudios, trechos de telejornais e entrevistas com políticos e populares é imensa e exuberante. Em vários momentos, a diretora nos leva para as entranhas dos eventos, causando sensações que variam de acordo com a índole do espectador.

 

Petra não esconde sua orientação política e faz isso com maestria. Fala do apreço de seus pais e dela pela democracia e transforma o documentário como uma obra que a reivindica como algo essencial, colocando em dúvida sua própria existência a partir do impeachment. Tal movimento confere à narrativa uma espécie de garantia histórica e factual de isenção, aliando os governos petistas a uma legitimidade incontestável, uma vez que foram conferidos pelas urnas. A partir da entrada em cena de temer, Petra, fazendo os fatos falarem por si, mostra que a democracia já começa a entrar num colapso institucional, mostrando que legitimidade e legalidade são palavras diferentes.

 

O grande destaque do documentário é a intimidade dos presidentes Lula e Dilma. Ao ter acesso ao trabalho do fotógrafo oficial de Lula, Ricardo Stuckert, além de suas próprias imagens e realizações, Petra Costa leva o espectador para momentos de conversa pessoal, de convívio e de impacto impressionantes. Os trechos em que Dilma surge assistindo à votação do impeachment, suas reações e sua serenidade diante do que está vendo, são especialmente impressionantes.

 

Muita gente vai dizer que “Democracia em Vertigem” é tendencioso, talvez porque, no Brasil de 2019, a verdade dos fatos seja mercadoria em triste extinção. Vivemos um tempo em que a mídia estrangeira parece mais confiável que a nacional, mostrando que este segmento da cultura brasileira está – como esteve – irremediavelmente orientado por uma tendência ideológica. Petra expõe isso com elegância, arrematando o medo do futuro – que já chegou – como algo que passa, necessariamente, pelo enfraquecimento da democracia brasileira – tão jovem quanto a própria diretora, numa das inúmeras e belíssimas analogias que o filme propõe. Um filme que será tão importante no futuro como é “Jango”, de Silvio Tendler.

 

Democracia em Vertigem (Edge Of Democracy)

Direção: Petra Costa

Duração: 120 min.

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “O Impressionante Democracia em Vertigem

  • 21 de junho de 2019 em 17:15
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    Que maravilha de resenha. Obrigada.

    1+
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